Considerado um dos primeiros símbolos religiosos da humanidade, o ovo sempre esteve relacionado ao nascimento e a criação. A capacidade de renovação presente na figura do pequeno involucro que os animais ovíparos utilizam para proteger e alimentar os seus embriões o fez ganhar contornos além das capacidades naturais. Metaforicamente falando o ovo representa a fertilidade e a eternidade, a essência da energia vital. Dentro do universo de “Watchmen” todos os passos são tomados pensando não na escala humana, mas na escala global. A cada nova informação, milhares de vidas entram na mira de serem exterminadas e novas ameaças surgem dos mais variados locais e o escopo macro sempre se sobrepõe ao micro. Você deve estar se perguntando o porque de toda essa questão do ovo dentro da review dessa semana, mas foi através dele que a série foi apresentado a questão do legado, do nascimento e da morte dentro e seu contexto.

Todo o desenrolar da narrativa a graphic novel se dá em decorrência de um grande plano armado por Ozymandias para salvar a humanidade do conflito nucelar. Na parte escrita toda a atenção se acumulou em uma só figura, em uma só visão dos futuros acontecimentos. Depois desse episódio ficou claro que a série também está mostrando os passos de um grande plano se desenrolando na tela, mas ao invés de um único controle, temos duas figuras agindo em conjunto para motivos ainda escusos até o momento.

Lady Trieu (Hong Chau) foi citada rapidamente no episódio passado. Nesse ela finalmente deu as caras e já chegou roubando toda a atenção para si. Muito mais do que a figura estranha (quase élfica) da personagem, foram os seus métodos que atingiram em cheio a atenção do espectador. Ficou claro que Trieu não poupa esforços ou escrúpulos para atingir as metas de seus propósitos. Seja um bebê criado geneticamente em laboratório e usado como moeda na compra de uma propriedade ou o uso da própria filha dentro do misterioso experimento a qual se dedica, a personagem se mostra muito mais sádica e focada do que o “vilão” da contraparte escrita. E apesar de toda a “vilania” presente na tela, Chau consegue tornar a personagem carismática e com um estranho magnetismo perante a audiência. É como se fossemos incluídos no plano por tabela e mesmo sabendo as consequências de nossa participação, continuamos indo de bom grado em direção a ruína.

Mas não foi somente ela que se revelou como uma das principais jogadoras da narrativa. William Reeves (Louis Gossett Jr.) finalmente começou a mostrar a que veio. Se antes estávamos intrigados pela questão do parentesco dele com Angela, agora estamos intrigados em descobrir quais as reais intenções dele com a neta. Sabemos agora que o parentesco foi confirmado, que Angela está diretamente ligada com a história da cidade e de que William foi um policial assim como a sua descendente. Mas como ele atingiu tamanho poder (e longevidade) ao ponto de rivalizar com Trieu no mesmo nível? Qual o misterioso plano que será concluído em três dias junto com o relógio e que colocará todos em risco e em rota de colisão? E de quebra ele nunca precisou de cadeira de rodas, a questão da fragilidade foi só mais uma das facetas usadas para se aproximar da neta e coloca-la no meio do fogo cruzado.

Falando em Angela, a interação dela com Laurie já é uma das melhores coisas que Lindelof fez nessa adaptação e talvez uma das melhores dinâmicas de atuação na televisão deste ano. Antes as duas estavam em lados opostos da investigação, batendo de frente na percepção e na ocultação das pistas em ambas as partes. A dinâmica não mudou, mas agora ao se tornarem “aliadas” (chefe e subalterna para ser mais preciso), é possível perceber que ambas possuem diversos pontos em comum, mesmo que aqui e acolá ainda hajam as rusgas das impressões iniciais de cada uma.

No entanto, não foi só a revelação do grande plano que ganhou destaque nesse episódio. A estranheza presente nesse quarto capitulo conseguiu superar as expectativas do mais preparado dos espectadores. Muito dela se concentrou (mais uma vez) na figura de Adrian Veidt. O personagem continua em sua cruzada para se libertar de sabe-se lá o local onde se encontra preso. Um local aparentemente comum, mas que se revela um verdadeiro poço de bizarrice onde fetos de clones são mantidos em lagos e descartados sem nenhuma cerimônia caso não sejam viáveis, para logo em seguida serem forçados a amadurecer em poucos minutos (numa das sequências que vai entrar para os pesadelos de muitas pessoas) e tomarem o lugar daqueles mortos num acesso de raiva caprichoso de seu criador. Tudo continua tão nublado quanto antes em relação a esse núcleo, mas suspeito que Veidt tenha caído em alguma armadilha criada por Trieu e agora está em vias de concluir um plano para fugir e tomar aquilo que é seu de volta.

Óvulos, clones e ovos. Vida, morte, legado e família. O quebra-cabeça começa a formar sua figura com as peças assumindo suas posições. Ainda continuamos com mais perguntas do que respostas e talvez continuemos assim. Como todo bom cozinheiro sabe: é preciso quebrar alguns ovos para se fazer uma boa omelete. E em “Watchmen” isso nunca fez tanto sentido.

Rorschach’s Note #1: O que falar do “Homem Lubrificante”? Quer algo mais bizarro do que alguém num collant prateado escorregando pra dentro de um bueiro? HAHAHA

Rorschach’s Note #1: Os paralelos na edição desse episódio foram os melhores até aqui, com transições de cenas perfeitas entre os núcleos e temáticas;

Rorschach’s Note #1: Aquele “meteoro” que caiu na fazenda no começo do episódio. Qual a importância dele no plano de Trieu e Reeves ao ponto de comprar uma fazenda inteira para obtê-lo?

Rorschach’s Note #1: Qual a finalidade de Trieu praticamente entregar a Angela o paradeiro do avô? Será que ela quer se livrar do aliado?

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
watchmen-1x04-if-you-dont-like-my-story-write-your-ownDentro do universo de “Watchmen” todos os passos são tomados pensando não na escala humana, mas na escala global. A cada nova informação, milhares de vidas entram na mira de serem exterminadas e novas ameaças surgem dos mais variados locais e o escopo macro sempre se sobrepõe ao micro.