O quanto a presença ou a ausência da figura materna representa para as pessoas é um processo individual. Ainda assim, talvez seja seguro afirmar a importância desse contato na primeira fase da vida de alguém. Depois de crescidos, ficamos até surpresos ao nos lembrar das coisas que acreditávamos porque assim nos foi dito por nossos pais. Isso porque entre as crianças e os adultos é criada uma aliança quase sagrada que tem sua base no natural, mas se estende pelo social. Ou seja, a responsabilidade começa a partir do leite, mas perdura por anos, estando a escola e a moradia compreendidas nela. Daí surge nossa incapacidade de compreender quando esses laços são quebrados e quando o maior perigo para uma criança se torna seus pais.

The Promised Nerverland (Yakuso no Neverland) chegou à televisão três anos depois da estreia do mangá no qual foi baseado. O anime estreou em janeiro deste ano e fez uma temporada com doze episódios, cobrindo o primeiro arco da história. Como adiantado no parágrafo anterior, acompanhamos um grupo de crianças que descobrem que sua Mãe, a diretora de um orfanato no meio do nada, não é a doce criatura que sempre pareceu. É quando as regras de não passar do portão e não se distanciar muito da casa ganham outra conotação e segredos são revelados.

The Promised Nerverland

A trama de Promised se desenvolve, basicamente, na alteração de dois cenários — o interno, na casa que os órfãos dividem, e o externo, nos jardins onde brincam e na floresta que investem para arquitetar uma fuga. Mesmo quando estão fora, a percepção que temos é que vemos um mundo pequeno dentro de outro maior, que nunca é mostrado. O telespectador sabe pouco sobre como o resto do mundo se organiza, como lidam com as criaturas aqui mostradas ocasionalmente. Os que assistem através da quarta parede sabem o mesmo mínimo que os jovenzinhos da história, e às vezes menos. Neste horror cotidiano, não ganhamos a escala do épico — pelo menos neste primeiro momento. O enredo se desenvolve na calma desse assombroso dia a dia, com muita referência à passagem do tempo. A saga de sobrevivência trilhada pelos protagonistas é tão bem articulada para se manter neste plano reduzido que, quando percebemos atos heroicos ficamos surpresos.

Emma e Norman, por conta de um acidente, presenciam um terrível acontecimento. Por estarem onde não deveriam, os dois descobrem que a casa onde cresceram e se esforçam para serem bons filhos e alunos é, na verdade, uma fazenda. As crianças são bem preparadas como mercadorias para serem comidas por criaturas grotescas que eles julgam demônios. A partir disso, os dois começam a planejar como escapar do lugar, levando consigo todas as crianças. Estas são de idades variadas, mas nunca passam dos doze anos. Além de estudar a própria casa e os terrenos arredores, a dupla investiga quais são as regras da “colheita”, seu ritmo e seu mecanismo. Ray, a terceira parte do trio de crianças mais velhas também composto pelos mencionados, é recrutado para essa missão. Juntos, o grupo lida com a necessidade de manter as aparências enquanto mede forças, mesmo de maneira indireta, com a figura materna da casa.

Mariya Ise, Sumire Morohoshi, and Maaya Uchida in Yakusoku no Neverland (2019)
The Promised Nerverland.

Há muito o que celebrar em The Promised Neverland. Para começar, os protagonistas não são arquétipos morais ou amorais — na verdade, nenhuma personagem é. Nesse mundo utópico de princípios decadentes, ninguém é somente bom ou somente mau, somente corajoso ou somente herói. Como características de sua idade, as crianças são atrevidas e desafiam as barreiras que lhes são impostas. Mas elas não ficam apenas nesse estágio de autoconfiança, passando por momentos de dúvida e pessimismo que atravessam os episódios. Emma é sincera e corajosa, às vezes a mais ingênua do trio, mas não deixa de ser ágil e de conseguir colocar planos complexos em prática. Norman é inteligente e fiel aos amigos, mas também sabe a hora de se desprender e calcular as coisas por si só. Ray, então, tem a saga mais interessante em mãos. Uma criança que esbarra nos limites da sanidade, o jovem se difere em como articula sua arrogância perto dos outros e no controle sobre os próprios impulsos.

No anime, não é perceptível uma liderança entre eles. No lugar disso, o poder é revezado e temos uma verdadeira dança ao redor deste posto. Isso fortalece a temática da “família” dentro da trama. Como numa verdadeira família, aqui ninguém está certo o tempo todo, ninguém é forte o tempo todo e ninguém se vale no singular o tempo todo. Mesmo diferentes, é complementando suas características que eles se sobressaem como grupo e ficam mais próximos do objetivo principal. O resultado dessa proximidade é uma força que se opõe à crueldade desse universo em que estão inseridos. Isso porque Promised parece bem pouco preocupado em poupá-los ou nos poupar. Logo no primeiro episódio, por exemplo, presenciamos uma garota de seis anos ser devorada. É tudo cru e quase invasivo, ficando a sensação de que presenciamos, em nossa intromissão, uma pessoa isolada em seus sofrimentos quando a intriga se complica.

Shinei Ueki, Mariya Ise, Sumire Morohoshi, Maaya Uchida, Lynn, Ari Ozawa, Shizuka Ishigami, and Hiyori Kono in Yakusoku no Neverland (2019)
The Promised Nerverland.

Quando seu corpo é o que sustenta uma indústria, mas você não pode fugir e não tem força o bastante para mantê-lo a salvo, como reagir? Parece que voltamos à fábula de João e Maria, e as crianças precisam descobrir novas formas de vencer a bruxa. Elas não tem domínio sobre si e sobre o próprio destino, e as chances de escaparem não são boas. Seus números de identidade no pescoço e os gráficos que acompanham o desempenho de cada um reafirmam essa ideia de que são produtos. Como deixar de ser produto? Será que três, cinco ou vinte crianças conseguem, mesmo que unidas, manifestar qualquer rebelião contra o sistema? As perguntas aqui se juntam para pensarmos na interessante temática da produção e como ela se conecta ao nosso mundo aqui fora.

Temos, assim, metáforas interessantes sobre a perspectiva do indivíduo em sociedade. Nada muito mastigado e nada que comprometa o nível de entretenimento dos vinte minutos de cada seguimento. Pode ser que reflitamos sobre a validade de uma vida que é curta, mas sem sofrimentos, na mesma brincadeira espalhada pela internet de “você abriria mão de dez anos de sua vida por tal benefício?”. Mas pode ser que fiquemos dentro deste micro, junto com as crianças, sofrendo pelo que as espera porque, no fim, são apenas crianças. A nossa empatia não se dá só por isso, mas por uma bela construção de tensão, que junta elementos de horror, mistério, aventura e drama. É abordado o fatalismo, o pessimismo, e a ousadia do roteiro não se importa, por exemplo, de tocar no trio principal para nos fazer entender a gravidade da situação. Há boas reviravoltas no final, e as soluções encontradas para nos puxar para a segunda temporada são empolgantes.

Mariya Ise, Sumire Morohoshi, and Maaya Uchida in Yakusoku no Neverland (2019)
The Promised Nerverland.

Sobre adultos e crianças tentando fazer o melhor que podem em uma realidade desesperadora, temos nossa percepção de vilões alterada. Não sabemos a quem atribuir a grande culpa, mas sabemos que há algo maior para ser debatido e enfrentado. Este é um privilégio nosso, que assistimos a humanização dos adversários em seus momentos de maior conflito. Após o último episódio, concluímos que a amizade salva vidas, figurativamente ou não. Amigos nos dão perspectivas e nos ajudam a formar famílias na qual nos encaixamos quando as nossas são nocivas. Promised é uma grande alegoria sobre buscar esperança nas pessoas que estão por perto e de resistir; sempre resistir.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-the-promised-neverland-a-saga-das-criancas-sem-futuroPromised é uma grande alegoria sobre buscar esperança nas pessoas que estão por perto e de resistir; sempre resistir.