Um dos aspectos mais divertidos em se acompanhar o horror de perto é ver as transformações de monstros clássicos — e por “monstro” se entenda toda figura antagônica dentro de uma história do gênero, a que chamo de “mito”. A literatura faz isso há certo tempo, mas a televisão e o cinema se tornaram afiados nessa possibilidade. Os vampiros terríveis se tornam mais humanos, com direito a relacionamentos sérios, por exemplo. O lado positivo desse movimento é perceber que se todas as histórias já foram, de fato, contadas, há maneiras ainda inexploradas de como o fazer. Se já entendemos os mecanismos do medo e como eles funcionam, temos, ainda, a possibilidade de estudar novas formas de como provocá-lo.

As bruxas passam por esse ritual de mudança atualmente. Dos mitos terríveis, vilãs de histórias herdadas das sociedades de tradição oral, passando pelos processos de julgamentos e manipulações políticas às quais as ditas bruxas foram condenadas, chegamos, séculos depois, ao apogeu da celebração dessa figura. Hoje a bruxa ganha, em filmes e séries, uma identidade charmosa, sensual. A sua sedução não é mais parte de seu poder sobrenatural, de seu feitiço. As personagens passam por um processo de deslumbramento que busca conquistar o telespectador e refletir na luta por libertação dentro de seu enredo a luta por liberdade de nossos tempos. Há uma qualidade muito erótica em como os roteiristas estudam o macabro no audiovisual hoje.

Anya Taylor-Joy in The VVitch: A New-England Folktale (2015)
Filme A Bruxa (The Witch, 2015).

Penny Dreadful (Showtime) tinha uma protagonista que brincava com essas artes — mesmo que, eu sei, eu sei, Vanessa não seja uma bruxa. Quando aparecem na série, elas estão cobertas das características antes mencionadas, colocando em prática o que aqui teorizo. Salem (WGN America) é o melhor exemplo dessa busca por elevar a figura da bruxa ao patamar do desejado, não apenas do que deseja. Essas duas extremidades encontram-se na série ligadas à protagonista, Mary Sibley, interpretada com um plausível cinismo por Janet Montgomery. A personagem quer o domínio da cidade, ao mesmo tempo que se torna uma figura poderosa (e, portanto, desejável) dentro dela. O celebrado A Bruxa (Robert Eggers, 2015) atravessa essa ideia ao unir o mito que se teme e o mito que se é — quando o mal se apodera daquilo que o teme.

A mesma reinvenção de papéis se tem visto em diversas outras figuras do horror. Lúcifer agora tem sotaque europeu, é interpretado por um ator charmoso e ovacionado quando nu. Os zumbis continuam seguindo carreiras, mesmo quando se tornam mortos-vivos (iZombie, Santa Clarita Diet). Vampiros têm vida social e são objetos principais de documentários (What We Do in the Shadows). Nesse contexto todo de reinvenção, será que o não-inventar acaba não sendo uma maneira de nos surpreender? É assim que chegamos a Marianne e sua audaciosa escolha de não querer seduzir o telespectador ou mesmo suas personagens. A pretensão é deixar o mal onde tradicionalmente se deixa o mal: na lista de coisas que devemos temer; e apenas temer.

UMA BRUXA ALÉM DO SENSUAL

Marianne teve sua estreia há pouco menos de um mês na Netflix, chegando na última sexta-feira 13. Uma ótima forma de se comemorar a data aos que comemoram (ou de sofrer pela data no prazer oculto dos que sofrem), a produção de língua francesa conta com oito episódios. O enredo segue uma escritora famosa e rica que está lançando o último livro de uma série sobre uma bruxa chamada Marianne — aquela que nunca parte sem levar algo consigo. Afastada de sua cidade natal há muitos anos, ela precisa voltar quando seus pais são ameaçados. Minha proposta aqui não é apresentar o enredo. Ou você já assistiu ou vai preferir o mergulho do que ler sobre o mergulho. Falemos, então, sobre os aspectos que deixaram a experiência da série interessante.

Marianne, nascida numa terça-feira…

Na chamada estética do grotesco, sobre a qual já falamos por aqui, temos um compromisso de expressão através do sangue, do rosto que se deforma, de excreção ou de outros elementos que façam referência a um humano que se tira do posto de imaculado, do princípio moral que rege todas as sociedades — seja qual sociedade e qual moral for. Essa estética aproxima o humano do animal, rebaixa-o. Em Marianne, temos o contato com todos esses elementos aparecendo logo no primeiro (excelente) episódio.

Marianne.

Não tanto para rebaixar o humano e fazê-lo repensar em suas considerações sobre o “natural”, a estética do grotesco é utilizada na série francesa para apresentar o mal que veremos, aquele com o qual lutará nossa protagonista. Temos o macabro e o grotesco em conversa. Ambos se influenciam diretamente e trocam de posições para que o medo se articule de diferentes modos. Isto é, temos um horror situacional, cotidiano, durante uma conversa; temos um horror explícito, quando a figura do mal se aproxima; temos um horror exploratório, que usa de extremos, muito sangue e pele, para se expressar. Isso ajuda a conhecer qual o alcance dessa bruxa que tanto se fala e que tanto se teme. Outra consequência é um tom mais balanceado para a série, pelo menos no começo.

Emma Larsimon (Victoire Du Bois) é a mencionada escritora, nossa protagonista atrevida. Rude e atrapalhada, ela nunca chega a representar as características antissociais que parecem encantar os roteiristas atualmente. Emma está mais para a personagem principal de Fleabag (BBC/Amazon) do que para a arrogância de Lucifer Morningstar (Lucifer, Fox/Netflix). Este é um bom aspecto porque, por mais que demoremos a criar certa empatia por ela, é divertido assisti-la. É notório, desde o primeiro momento, como seu distanciamento de certas relações devem ser explicados por histórias de seu passado, que veremos na sequência.

Marianne.

Isso porque, caso possamos resumir em uma palavra, Marianne é uma série sobre perdão. Para se esconder do fardo que lhe pesa, que lhe cobra esse pedido de perdão que nunca foi pronunciado, Emma escreve. A fama e o dinheiro parecem suficientes para deixar a gravidade do passado no passado. Ainda assim, sua vida amorosa atual é falha, seus amigos se resumem a sua assistente pessoal e os pais não estão por perto por escolha sua. Talvez nos falando indiretamente que o dinheiro não compra tudo, os traumas retornam para atormentar a escritora, mostrando que ela sempre será refém do que aconteceu enquanto não falar sobre isso e se perdoar.

De retorno à casa dos pais, Emma faz uma viagem com Camille (Lucie Boujenah). Há um jogo de manipulação e conquista entre elas, o que prova o quão danificado está o conceito de amizade da filha regressa. Focar em amigas tão contrárias uma a outra lidando com o perigo é outro bom aspecto de Seus sonhos, primeiro episódio. Enquanto a assistente é medrosa, a escritora tem esse atrevimento mencionado: uma boa combinação. Camille parece ser o público dentro da série, representando nosso estranhamento e nossa possível covardia diante de toda a bizarrice mostrada. A temporada poderia focar nessa dinâmica, mesmo que as duplas tenham sido utilizadas demais em histórias de horror e mistério.

Marianne.

Em muitos momentos, a série nos lembra de um livro. Ela é dividida em capítulos, com direito a epílogo, mas não só por isso. A retomada para fatos já mostrados, piscadas da edição, parece-nos de um hipotético narrador nos dizendo “lembra-se disso?”. Isso torna as coisas explicadas demais, mas não deixa de ser um recurso a mais para se pensar em como a série segue a própria proposta. Há, no primeiro seguimento, um interessante controle no desenvolvimento do roteiro. Temos uma introdução, o desenvolvimento, os momentos de tensão e um desfecho como parte de um agitado e divertido clímax. Parece-nos que a direção tem o mesmo controle que Mike Flanagan sobre A Maldição da Residência Hill (Netflix). Conforme os episódios são exibidos, no entanto, vemos que infelizmente não é o caso.

A bruxa da série, Marianne, tem um mundo por trás de seu mito: música, lendas e escritos. Além disso, poucas, mas significantes regras são mencionadas sobre a figura: ela nunca nega quem é e só vai embora quando leva algo consigo. Essa paixão que ela tem pelo nome e a representação de si explica-nos o quanto é arrogante, o quanto o mal lhe fortalece para que tenha essa postura. Vale destacar a ousada escolha do nome, tradicional na França por ser uma personificação histórica e visual de uma divindade que representa a liberdade e a razão.

Marianne.

Nos elementos que compõem esse mito da série, temos uma mistura de características de outras subcategorias do horror. A bruxa aqui assombra a cidade e a protagonista na mesma forma que espíritos/fantasmas tradicionalmente o fazem. A posse do corpo, realizada por Marianne em suas vítimas, parece a mesma de filmes de possessão demoníaca, nos quais o demônio deforma o corpo e a mente de suas vítimas. Ou seja, temos uma mistura de monstros que cria outra espécie; algo que vai do poder de Freddy Krueger em aparecer nos sonhos de suas vítimas à imortalidade dos corpos em Evil Dead.

Feliz numa quarta-feira…

Outra proposta de transgressão na série está em como ela enxerga o dia. Geralmente, a noite é algo terrível e deve ser evitada. De fato, as trevas da madrugada são o momento em que Emma vê seus pais em perigo e estes são tocados pela bruxa. Mas o mal também está no dia e no escuro que as sombras fazem diante do Sol. O perigo está nas conversas e no quanto se pode agredir com palavras. Ou após a aula, quando se brinca pelos corredores. É quase um modo de profanar algo tão sagrado como a luz do dia, intocada pelos produtores do horror.

LITERATURA E DOMÍNIO: METÁFORAS POSSÍVEIS

Emma tem uma forte relação com a escrita, mas isso não é uma característica apenas da personagem — nós, como sociedade, temos investido nisso muito antes da invenção da indústria. A linguagem tem força, há poder naqueles que sabem se comunicar e utilizar as engrenagens dela a seu favor. Na história, quando Emma escreve, seus pesadelos somem e a bruxa não mais a atormenta. É como se na manifestação da ideia, a ideia dentro de nós deixasse de nos atormentar e passasse a atormentar os outros. Isso pode se relacionar, facilmente, aos grandes relatos do Facebook ou como espalha-se facilmente ideias pela internet atualmente e como elas têm consequências. Enquanto na série a bruxa viaja pelos livros, na vida real as ideias viajam pelos países falantes da mesma língua usada no discurso e entram em contato com tal manifestação de pensamento. Podemos pensar, por exemplo, em como textos em inglês viajam mais do que outros — na série, é a tradução que abre esses caminhos.

Casada numa quinta-feira…

Além das duas atrizes mencionadas, temos Mireille Herbstmeyer (Sra. Daugeron) compondo com muito talento uma primeira antagonista assustadora. A bruxa, sob o olhar da atriz, ganha um sorriso e uma expressão difíceis de não se deixar perturbar. Quando Mireille e Victoire estão juntas em cena, é sempre um momento de boas provocações e de consequências assustadoras. Temos o engraçado inspetor Ronan (Alban Lenoir) que traz um humor bem-vindo à soma de interações. Vale destacar Aurore (Tiphaine Daviot), a frágil amiga de Emma da adolescência. Esta tem uma boa jornada e é o lado frágil da perseguição que se dá contra a bruxa. Seby (Ralph Amoussou), por outro lado, tem estranhos desdobramentos e sua interação com a escritora é tão desajeitada que denuncia a falta de domínio do roteiro sobre todas as personagens. Os outros homens que compõem o grupo de amigos sofrem do mesmo. São desinteressantes ou agressivos demais para conquistar algo além de nosso desprezo dentro da narrativa.

Marianne.

O foco maior é em perdão e as consequências para aquilo que não se diz e como isso se manifesta no corpo e na interação com os outros. Dito isso, abrimos espaço para falar sobre maternidade e amizade. No primeiro caso, temos um olhar sobre o assunto que tem ganhado muita contribuição da ficção atualmente, desde os romances de Elena Ferrante (Um Amor Incômodo, 1992) a Objetos Cortantes da HBO. Fala-se aqui de uma mãe que, mesmo perdoando e dando carinho à filha, é franca sobre os sentimentos e como eles são abalados pelo comportamento inconsequente que testemunha. No segundo caso, temos a amizade adulta em pauta, entrando em conflito com a visão que se tem enquanto jovens sobre a coisa. Adulto é amigo de um modo diferente. Marianne sabe e expressa isso.

Estico uma leitura simbólica da série para falar sobre o buraco no chão e como ele é o ponto chave para o nascimento/renascimento dentro da história. O buraco pode ser interpretado apenas como o oco se formos desatentos, mas, na verdade, ele tem o mesmo funcionamento de uma porta, não importando qual seja. Isto é, ao encararmos uma porta, independente do ponto em que estamos, é perceptível que há um mundo dos dois lados. Há um mundo dentro de nossa casa, por exemplo, e há um mundo lá fora. A porta é aquilo que conecta (ou fura) esses dois mundos. O buraco em Marianne remete a isso: a bruxa habita dentro do tempo, em um universo de espera que não é o nosso, mesmo que ela consiga o acessar quando acessa os corpos das pessoas. O buraco é a passagem, o túnel para nossa realidade.

Marianne.

Após os dois primeiros episódios, vemos Emma lidando com o invencível. Há uma questão sobre a escrita que parece impossível de se vencer — escrever sobre a bruxa lhe dá força, mas não escrever, quando ela parece ter domínio de tudo e de todos, é do mesmo grau de impossibilidade. Nisso ainda há luta e tentativa. Em outros problemas, pelo contrário, não há mais o que fazer. O que aconteceu no passado, por exemplo, não tem solução, não dá para refazer um fatídico dia. O que acontece com outras pessoas próximas à personagem também. É quando sua mente começa a ser desmontada por alguém que lhe quer tão desabilitada quanto é possível para lhe convencer de algo — o mesmo caminho que a citada personagem de Eva Green enfrentou.

Quando parece sozinha, Emma ganha reforço dos amigos. Este grupo é semelhante a equipe dos filmes It (Andy Muschietti, 2017 e 2019), mas sem o charme daqueles jovens. Temos um episódio, o quinto, para encontrá-los nos tempos passados, mas isso só confirma que não havia nada de muito especial no grupo. Juntos, eles são quase apáticos — não tem a vibração da aventura e da brincadeira presente nos filmes inspirados na obra de Stephen King. Infantil mesmo, e digo isso de modo positivo, está no combate com a antagonista, quando o sexto episódio parece virar uma brincadeira de esconde-esconde, tão referenciada no passado.

Marianne.

Marianne se passa em lugares bonitos; a cidade retratada é linda. O farol tem um papel importante na cidade e para a história também. Representa o mesmo ciclo interminável presenciado no mar. Quase como se conversasse com Emma e lhe destacasse, através das fortes luzes vistas de longe, pela cidade, o que ela tenta esquecer. A história tem essas possibilidades, mas não as explora em tudo. A floresta tem pouca importância, por exemplo. É criado um horror dentro de lugares, das casas, das escolas e que toca muito pouco o exterior da cidade.

Bruxa numa sexta-feira.

Se seu começo é sólido e muito elogiável, o mesmo não pode ser dito sobre seu desfecho. Para começar, Marianne usa os três últimos episódios no que parece ser uma luta que não termina nunca. Há enfrentamentos depois de enfrentamentos que dão uma aparência de slasher a uma série que não vinha se construindo assim. O slasher tem uma linguagem própria, um modelo, e não pode ser simplesmente inserido na reta final de uma produção. É uma conclusão arrastada, com direito a uma reviravolta/gancho previsível e que só contribui negativamente à trama. Este final faz parecer que a série poderia ter sido resumida em filme, o que não é verdade.

Mesmo incomodado com este final, preciso destacar a boa evolução da maior parte das personagens apresentadas e como a história se conclui. Mesmo sem outra temporada, este final é um final possível — apontar para uma continuação nem sempre quer dizer que a continuação precisa existir. Uma batalha final (a final mesmo) que se dá dentro da cabeça da personagem é interessante porque mostra uma luta não pelo domínio do físico, mas pelo domínio da mente — livrar-se de uma ideia é sempre mais trabalhoso do que se livrar de amarras físicas. Por fim, vale elogiar que, mesmo quando aparece, a bruxa não é mostrada como a figura de sedução sobre a qual eu falei no começo. Todo deslumbramento parte e fica em seus poderes, na manipulação que consegue fazer através de feitiços.

Marianne.

Divertida e ousada, Marianne tem uma boa temporada, mostrando a força do horror francês. A série não recorre ao erotismo ou encanto, duas narrativas a caminho de formar uma nova tradição na mídia que se tem da bruxa — como tema do horror, que fique claro. Há influências de filmes do gênero na progressão da narrativa, as digressões às vezes testam a paciência do telespectador, mas a conclusão é satisfatória. Rica para se debater significados, não deixa de ser empolgante em muitos momentos. É sobre como a natureza é prejudicada pela literatura, mas também é sobre ter medo de algo, argumento suficiente para uma boa história de horror.

Citações:

“Amigos não são para agradecer. Não são para estarem aí quando precisamos, quando é importante.  Não. Amigos são o que sobra apesar de tudo.”.

— Emma para Marianne em “Terça-feira”, episódio 8.

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Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-marianne-celebra-um-sobrenatural-familiar-mas-divertidoUm dos aspectos mais divertidos em se acompanhar o horror de perto é ver as transformações de monstros clássicos — e por "monstro" se entenda toda figura antagônica dentro de uma história do gênero, a que chamo de “mito”.