Finalmente o acampamento Redwood começa a revelar mais camadas e a temporada abandona sua atmosfera de superficialidade.

Pode parecer estranho criticar a superficialidade de obra de horror, sobretudo porque, essencialmente, esse é um gênero que trabalha com clichês e estereótipos. Ele, o horror, pode se encontrar com camadas dramáticas sofisticadas, exatamente como AHS  fez em temporadas como Asylum, Coven, Freak Show e mais algumas outras. Esses toques de drama se espalham pelos roteiros quando eles abraçam a tentativa de dimensionar personagens, o que AHS1984 ainda não tinha feito até seu episódio 2. Agora, diante de Slashdance, a trama se aprofunda um pouco mais, os personagens ganham motivações e a temporada avança equilibrando melhor a relação entre o que existe de imediatista no horror e o que é sedutor no exercício do drama.

Talvez seja uma boa hora para rever Sexta-Feira 13, a grande referência desse ano. O clássico é um dos piores filmes já feitos e é um dos melhores exatamente por causa disso. A franquia ficou conhecida por conta do assassino Jason, mas não só ele aparece apenas no filme número 2, como só passa a usar a máscara de hóquei pela qual ficou conhecido, no 3. No primeiro, a história é tão absolutamente rasteira que chega a assustar. Não há desenvolvimento algum de nenhum dos personagens e várias das mortes chegam a ser risíveis. Sem dúvida, essa foi exatamente a atmosfera almejada nos dois primeiros episódios. Uma vez prestada a homenagem ao que de vazio pode-se ver nas características de um slasher, AHS pôde começar a correr atrás de si mesma.

Foi uma mudança drástica e muito bem-vinda. Agora, não só sabemos mais sobre vários dos personagens, como sabemos também que a história foi planejada para mais além do que algumas facadas. Existe um plano, existem razões e motivações. E também um crescimento de riscos que – para um episódio 3 – só parecem confirmar que algo grande está sendo preparado para acontecer em breve. Assim como Kevin Williamson desvirtuou o conceito de Final Girl, talvez Murphy e sua trupe queiram algo parecido para a mocinha de Emma Roberts. Ou talvez estejam pretendendo lidar com a ideia das sequências… O fato é que o episódio 6 será o episódio número 100 e os criadores não perderiam a chance de unificar as temporadas de alguma maneira.

What a Felling 

O Acampamento Redwood está enfrentando uma longa e tenebrosa noite, em que dois assassinos espreitam por suas vítimas. O episódio foi escrito por James Wong, um nome que representa bons momentos da série, como os episódios de Halloween, por exemplo. James deve ser escolhido para essas empreitadas justamente porque gosta de ampliar o que sabemos sobre parte da narrativa. Dessa vez ele fez isso com Rita (que não é Rita) e com Ray. Enquanto Rita se revela parte de um esquema para facilitar a entrada de Mr. Jingles no acampamento, Ray se revela apenas um covarde, um típico membro da juventude acadêmica americana, se divertindo inconsequentemente nas fraternidades e fugindo de toda e qualquer responsabilidade civil.

É muito interessante notar que os papeis de Rita e Montana (que deve ser melhor explicada na próxima semana) se encontram numa outra recorrência contemporânea. Murphy sempre gostou de problematizar a fascinação que temos (ele mesmo, inclusive) pela ideia do mal, pela morte e pelo crime. Rita é uma psicóloga que leva sua especialização em serial killers um pouco longe demais, enquanto Montana parece ser uma seguidora de Richard ou mesmo alguém que só se aproximou para se vingar de Brooke. Angelica Ross consegue imprimir a ambiguidade de Rita perfeitamente, mas Billie Lourd segue sendo um problema para a série. Ela até consegue mudar o visual e um pouco dos códigos corporais, mas é só abrir a boca e aquela cadência vocal marcadíssima nos leva de volta para a Chanel Number 3 de Scream Queens.

Os jovens que surgem fantasiados de Mr. Jingles são outra característica dessas discussões sobre crimes famosos levantadas pelo show. Em Roanoke o recurso já tinha sido usado quando alguns curiosos tentaram visitar os sets do documentário e acabaram sendo estripados. É uma saída esperta não só porque estamos cercados de gente que confunde cultura pop com motivação, mas também porque a contagem de corpos aumenta sem que personagens principais sejam comprometidos. Mas, não se enganem… Tenho quase certeza que a temporada  vai continuar honrando o gênero, decapitando pessoas, empalando, estripando, eliminando praticamente todos os personagens, até só restar Brooke, quando a verdade sobre o plano maior deve surgir.

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Mesmo com um episódio bem mais interessante que os dois primeiros, ainda estamos num momento em que AHS 1984 se refestela na superfície. Pode ser que essa seja uma temporada só para isso; e se for ainda assim fará sentido. Uma das boas coisas que a série nos trouxe foi a versatilidade emocional que o horror permite. Há temporadas para se enojar, outras para  rir, outras para chorar e outras que são apenas gritos, fugas e sangue.

REVISÃO GERAL
Nota:
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