Tem sido um ótimo ano para o Amazon Prime Video. Enquanto séries de comédia como The Marvelous Mrs. Maisel e Fleabag esbanjam indicações ao Emmy, o serviço de streaming tem feito bem-sucedidas incursões em diferentes gêneros. The Boys, mais recente série original da Amazon, é uma sátira sombria ao universo dos super-heróis, e acabou se tornando um dos programas mais assistidos da plataforma. A escolhida para sucedê-la foi Carnival Row, série de fantasia vitoriana criada por René Echevarria e Travis Beacham. Desde The Good Omens, minissérie inspirada na obra de Neil Gaiman, a Amazon mostrou que consegue fazer uma boa fantasia; mas será que Carnival Row mantém o nível de suas antecessoras?

A série se passa em uma versão fantástica do que, pelos figurinos e cenários, parece ser o século XIX. Neste universo, o mundo dos humanos coexiste com Tirnanock, uma terra mágica habitada por fadas, centauros, faunos, bruxas e trolls. Como na vida real, a ganância dos humanos vai longe demais e Tirnanock se torna campo de uma disputa entre os moradores da cidade de Burgue e seus rivais, chamados de The Pact. Nessa batalha, vários seres míticos são mortos e escravizados. The Pact ganham a luta e muitas criaturas fogem para Burgue.

É nesse plano de fundo que se desenrola o romance entre a fada Vignette Stonemoss (Cara Delevingne) e o membro do exército humano Rycroft Philostrate, ou Philo (Orlando Bloom). Os dois se conhecem durante a guerra, mas se separam quando Vignette acredita que Philo foi morto em combate. 7 anos depois, ela trabalha salvando criaturas que ficaram presas em Tirnanock, e ajuda a levá-las para Burgue, onde muitos iniciaram uma nova vida. Vignette também se muda para lá e acaba virando aia dos irmãos Imogen (Tamzin Merchant) e Ezra Spurnrose (Andrew Gower).

Enquanto isso, Philo se tornou inspetor da polícia, e através dele, vemos os primeiros traços de conflito entre humanos e seres míticos. A polícia desdenha e negligencia as criaturas, abusando da autoridade para caçoa-los sempre que possível. Embora não oficialmente excluídas, as criaturas vivem em uma parte da cidade própria para elas, chamada Carnival Row, onde começam a acontecer vários assassinatos. É aí que a trama principal se forma. Com a falta de apoio da polícia, Philo começa a procurar o assassino, chamado de Unsealed Jack, e se envolve em diversas tramoias sobrenaturais, que envolvem profecias e monstros antigos.

O primeiro acerto da série é desenvolver com calma sua narrativa. Uma qualidade inerente às séries da Amazon é que elas não têm problema em construir a história aos poucos, mesmo que isso implique mais lentidão ao enredo. E enquanto a caçada de Philo tem tempo de tela limitado a cada episódio, o roteiro trata de ocupar os capítulos com diversas histórias paralelas que que compõem todos os aspectos da frágil relação entre humanos e criaturas. A começar pelo parlamento da cidade, que vive em conflito quanto o que fazer com as criaturas. Enquanto o Chanceler Breakspear (Jared Harris) é a favor de protegê-las, membros da oposição estão sempre criando um falso senso de ameaça, como se os míticos fossem se revoltar a qualquer momento. O argumento do prevenir para não remediar é usado como desculpa barato para promover discursos de ódio sobre os seres.

Enquanto o preconceito é abordado de forma geral no congresso, elementos menores exemplificam a realidade das criaturas e se espelham em mazelas sociais presentes no nosso mundo. No primeiro episódio, um navio que trazia fugitivos de Tirnanock acaba naufragando e matando quase todos os navegantes. É impossível não lembrar das traumáticas fotos que saem de vez em quando de refugiados mortos afogados quando tentam sair de seus países de origem.

Assim como na vida real, a culpa das condições de vida das criaturas é dos próprios humanos que negam abrigo. Afinal, foram eles que transformaram Tirnanock em um campo de batalha e depois se retiraram, deixando os nativos à mercê de uma guerra. Os que conseguem se mudar para Burgue não tem uma condição de vida melhor, já que ficam relegados a sub-trabalhos, e ainda assim são apontados por ocupar o espaço da cidade.

E daí vem outro acerto de Carnival Row. As problemáticas são tão naturais ao enredo mitológico, que os elementos fantasiosos podem passear livremente pela história.

Uma boa analogia para isso fica em torno do arco de Agreus (David Gyasi), fauno que se muda para a casa ao lado dos intolerantes Imogen e Ezra. Agreus é uma das poucas criaturas que conseguiram ascender socialmente, mas não é visto como merecedor da classe social que adquiriu. O fato do personagem ser negro é tão útil ao discurso que o show quer passar, que mesmo que ele fosse um humano normal e Carnival Row não tivesse nenhum aspecto ficcional, as opiniões preconceituosas desferidas pelos personagens malmente precisariam ser alteradas, tamanha é a paridade estabelecida.

Mas se a união entre enredo fantasioso e problemáticas sociais é uma exímia decisão dos roteiristas, houve uma falha ao se estruturar os episódios. Exemplo disso é própria Vignette. Nos primeiros episódios, acompanhamos profundamente a personagem, sua raiva dos humanos, dúvidas de como viver em uma cidade indesejada e a traição de confiança que sofreu de Philo, que simulou a própria morte. Entretanto, na segunda parte da temporada, a personagem é engolida pela história e desaparece, em prol de mais destaque entre Imogen e Agreus e os problemas da família do Chanceler.

Esses problemas ficam mais evidentes no que tange o arco do assassinato. Se durante a maioria dos capítulos, ele é desenvolvido com calma, grande parte do finale tem uma tensão crescente, trazendo revelações que unificam a trama principal ao arco do Chanceler. Três reviravoltas ocorrem, mas o clímax da temporada em si dura menos de três minutos; os vinte restantes são usados para finalizar os arcos secundários. Na última cena, temos uma nova reviravolta, que fundamenta toda a hostilidade entre os humanos e criaturas e determina um caminho a ser seguido na próxima temporada.

No fim, Carnival Row é uma surpresa positiva, que faz bom uso tanto de uma mitologia própria quanto de discussões sociais pertinentes. O maior tropeço parece ter sido no momento de organizar propriamente a gama de elementos introduzidos, um defeito que pode ser melhorado na próxima temporada, que por sinal, já foi garantida antes mesmo da estreia. A confiança mostra o quanto a Amazon acredita no potencial da série e está disposta a investir nela enquanto produto. Afinal, mesmo com alguns pesares, Carnival Row é uma boa opção para os fãs de fantasia.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorDepois de ser cancelada, descancelada e entrar em hiato, ‘Sob Pressão’ está garantida até a 5ª temporada
Próximo artigoCalendário Fall-Season 2019
critica-carnival-row-uma-fantasia-recheada-de-metaforas-sociaisCarnival Row é uma surpresa positiva, que faz bom uso tanto de uma mitologia própria quanto de discussões sociais pertinentes.