Dear White People aprofunda as discussões propostas por seu episódio anterior, amplificando suas repercussões. Debater um tema polêmico, como abuso sexual, faz-se mais do que necessário para garantir a redução/ aniquilação deste mal em nossa sociedade.
Acompanhamos Brooke, mais uma vez, perseguindo Coco e Muffy para conseguir o seu furo de reportagem. Como Vera bem apontou, essa perseguição, no episódio anterior, me provocou um grande desconforto. Faltava empatia por parte de Brooke, mas eis que Capítulo IX nos surpreende e apresenta o real motivo da sua insistência: a própria Brooke já tinha sofrido um abuso, por parte de um professor. Claramente, isso afetou sua vida e ver outro homem, em posição de poder, escapar impune está deixando ela transtornada. Gostei da forma como a série mostrou as suas razões. Sabemos que boa parte dos crimes sexuais não são denunciados porque a vítima não se sente confortável. Brooke apresenta um dado cruel dessa situação. Segundo ela, 88% dos casos de abuso sexual ocorridos em campi não são denunciados, ou seja, boa parte esconde, por medo ou vergonha, o que realmente aconteceu. Esse dado alarmante foi retirado de um relatório sobre a violência sexual nos Estados Unidos solicitado pelo Conselho de Mulheres e Crianças da Casa Branca, de 2014, durante governo de Barack Obama. Em reportagem do El País, os dados apresentados pelo relatório são chocantes: “de 22 milhões de mulheres que foram violadas ou sofreram agressões sexuais nos Estados Unidos, uma de cada cinco estava em uma universidade. A maioria (nove em cada 10) conhecia seu agressor e somente 12% denunciou os fatos às autoridades”.

Segundo este mesmo relatório, podemos observar que um dos motivos que explicam o número baixo de denúncias está no preconceito. Infelizmente, o abuso sexual é o único tipo de crime em que a vítima é culpabilizada junto com o agressor. Isso explica a resistência de Muffy em não expor o caso, pois, como ela bem disse, ela pode ser tornar apenas em uma frase da página de Wikipedia do Moses. Agora imaginem essa situação: ela é obrigada a passear no campus vendo a imagem do seu agressor a todo momento. Quantas mulheres não são obrigadas a conviver com esse mesmo tipo de situação todos os dias? Precisamos mexer nessa ferida sim, pois só assim podemos tornar esse quadro menos ultrajante.

Por falar em ferida, essa situação mexeu com Sam, portanto, ela procura seu fiel escudeiro, Lionel para buscarem respostas sobre o caso. Essa parceria já causou impacto, pois graças a isso Lionel direcionou Brooke para a revista Fried Chicanery, criada por Troy e Abigail. Buscando produzir sátiras com conteúdo, Troy aceita produzir uma matéria atacando Moses. A cena em que ele defende sua forma de construir humor funciona quase como uma metalinguagem. Claramente, os roteiristas da série estão usando este personagem para nos passar esta mensagem: Dear White People não está preocupada apenas em divertir, mas em informar e nos fazer refletir. Aliás, a ideia de produzir uma revista para antagonizar o Pastiche está nesta linha: o mundo evoluiu, portanto, a forma de fazer humor também deve evoluir. Essa discussão me lembra de um documentário brasileiro chamado O riso dos outros, dirigido por Pedro Arantes, onde a discussão é justamente essa: o humor tem limites? O show deixou seu posicionamento claro e concordo demais com ele. Outro ponto a se salientar é a presença de Abigail na construção dessa nova revista. Ela não tinha vez e voz no Pastiche, agora ela é o braço direito de Troy. Quantas mulheres não tiveram que se arriscar para ter o mínimo de dignidade nas suas profissões? Novamente, a série acertou muito ao abordar o tema.
Na outra ponta do episódio, acompanhamos Gabe e seu dilema. A necessidade o fez usar de meios escusos para conseguir uma bolsa para terminar sua tese. Ele reivindicou uma ancestralidade que não é sua por direito. Ao participar da cerimônia de entrega da bolsa, a realidade é jogada em sua cara. O dilema moral vivido por ele é intenso. Ele tirou a vaga de alguém que realmente pertencia a uma minoria e necessitava desta bolsa. E mesmo que ele devolvesse esse dinheiro, quais seriam as consequências disso? As próprias circunstâncias mostraram para Gabe que o que ele fez é errado. A cena em que ele se encontra com o diretor da bolsa e pede para devolver o dinheiro é emblemática. Quantas pessoas não se utilizam de subterfúgios assim para conseguir vantagens? E mesmo devolvendo, o retrocesso que uma investigação provocaria seria imenso, prejudicando aqueles que realmente precisam. Dear White People mais uma vez nos fazendo questionar posturas naturalizadas pela sociedade. Depois de uma reunião tumultuada com os monitores, Gabe encontra uma saída para limpar sua consciência: depositar anonimamente o dinheiro para D’unte. Ponto para Gabe, pena que essa atitude seja tão escassa na vida real. Confesso que esperei uma postura mais aguerrida de Sam, ao perceber o fato, mas compreendi que este não é o momento da personagem, seu estado emocional ainda não permite embates tão intensos quanto esse provocaria. Esta é a única relação estável da sua vida no momento e um desgaste poderia ser fatal.
E precisamos falar de Coco Conners. A personagem assumiu uma postura extremamente digna e sensata. Desde episódio anterior, ela ficou ao lado de Muffy, respeitando suas decisões. Bacana perceber como ela evoluiu. Diante de um assunto tão complexo como esse, ela tem sido um verdadeiro refúgio para Muffy. Buscando ajudar a amiga, ela, de certa forma, confirma a história para Troy. Esse momento será explosivo e promete grandes tensões para o último episódio.
Não deixem de comentar!
Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:
– Al continua sendo um dos personagens mais cômicos dessa série. Amo esse personagem e quero mais destaque para ele.
– Morri de rir do Milo (Alex Alcheh) reclamando com o Gabe que ele parece só servir de suporte para o “protagonista”. É bem isso que você é, Milo!
– A Netflix se auto referenciando é ótimo.
– Lionel encontrou a conexão entre o Narrador, Professor Brown e a Ordem X. Quais serão as consequências disso?
– James (Nicholas Anthony Reid) tornou-se o financiador da Fried Chicanery. A cena em que Troy o convence de participar da revista é emblemática, pois mostra como negros ricos acabam ficando sem lugar mesmo entre os seus.
– Segue abaixo as personalidades e referências à cultura pop citadas neste episódio:
- Georgia O’Keeffe: Pintora estadunidense. É considera hoje, a mãe do modernismo dos Estados Unidos.
- Martha Stewart: Apresentadora de televisão e empresária estadunidense.
- The Log Cabin Republicans: Organização que trabalha dentro do Partido Republicano para defender direitos iguais para pessoas LGBT nos Estados Unidos.





















