Killing Eve foi uma das melhores estreias da TV em 2018. O carisma dos personagens, a agilidade do roteiro e a firmeza da direção garantiram indicações para várias premiações de renome. A história da agente do MI6, Eve Polastri (Sandra Oh), que se vê envolvida em um jogo de gato e rato com a excêntrica assassina Villanelle (Jodie Comer), atraiu vários tipos de público: aficionados por séries investigativas, fãs saudosos de Grey’s Anatomy (ansiosos pelo retorno de Sandra Oh às telas) e adoradores de produções britânicas. O sucesso da série garantiu uma 2ª temporada, que estreou em abril deste ano e terminou no mês passado. Vamos destrinchá-la!
O segundo ano de Killing Eve começa 30 segundos após o encerramento da temporada inaugural, na qual Eve esfaqueia Villanelle, quando as duas compartilhavam um momento o tanto quanto íntimo em Paris. Villanelle foge imediatamente, e Eve, perturbada com o que fez, retorna para Londres. Com a orientação de Carolyn (Fiona Shaw), a agente recebe uma nova equipe, formada pelo já conhecido Kenny (Sean Delaney) e os novos personagens Jess (Nina Sosanya) e Hugo (Edward Bluemel). Eles recebem a missão de rastrear uma nova assassina, conhecida apenas como Fantasma, além de investigar a morte do magnata Alister Peel. Enquanto isso, Villanelle se torna pupila de Raymond (Adrian Scarborough), após ter baleado seu antigo mentor, Konstantin (Kim Bodnia), na temporada passada.

A primeira metade da temporada mantém as protagonistas separadas, em seus próprios núcleos, mas explora as implicações da ausência de uma na vida da outra. Villanelle nutre uma esperança de que Eve voltará para ela, e se sente entediada em suas novas missões. Já Eve fica completamente distraída, não dando foco à tarefa de capturar Fantasma. É interessante notar que a obsessão pela assassina é tão grande, que Eve está disposta a abalar todas as relações de sua vida na busca por Villanelle. A deterioração do seu casamento com Niko é uma prova disso; a agente se interessa mais em contemplar a possibilidade do reencontro com a serial killer do que passar tempo com o marido. Ele, por sua vez, começa a se consolar com Gemma (Emma Pierson), colega de trabalho que alimenta uma paixão platônica por ele. O âmbito profissional de Eve também é afetado, já que ela entra em frequente conflito com Carolyn e Kenny, sendo a única que insiste em perseguir a vilã.
Esses primeiros episódios são levemente tediosos. A finale do ano passado foi o ápice da interação entre as duas, e depois disso, o espectador fica meia temporada privado de vê-las contracenarem. A interdependência das duas é tão metalinguística que, se elas não estão juntas, a série não anda. Eve e Villanelle precisam uma da outra, não há propósito se não se perseguirem. Neste aspecto, a relação delas me lembra a de rivais clássicos, como Batman e Coringa que tem suas existências regularmente associadas, e sofrem de uma falta de motivação caso o outro não exista para antagonizá-lo. No caso delas, há um pouco mais de teor sexual.
Essa “pausa” no convívio das duas resulta em um marasmo que domina os quatro primeiros episódios. As cenas mais proveitosas, até então, são as discussões entre Eve com Niko, que pasmem, são sempre sobre a assassina. O próprio caso de Alistar não é tão desenvolvido no início, só recebendo mais fôlego, ironicamente, quando Villanelle retorna. Enquanto isso, os novos personagens não adicionam tanto ao enredo. Até que me afeiçoei a Hugo com o passar da temporada; ele começou como um alívio cômico ruim, mas depois se tornou uma figura mais simpática, principalmente por seu carinho com Eve. Já Jess entrou muda e saiu calada. Ela é basicamente uma substituta para Elena (Kirby Howell-Baptiste), que provavelmente deixou a série para se dedicar a The Good Place. Kenny foi outro que teve pouco importância nessa temporada.

Mas os ares melhoram com o retorno da serial killer, no que foi uma ótima jogada de Eve: trazer Villanelle de volta para ajudar a deter Fantasma. A série tem um salto de qualidade graças a parceria entre as duas. É hilário ver ambas trabalhando por um objetivo em comum, soa como uma progressão natural após o antagonismo que passaram por todo o primeiro ano. Isso só reforça a letargia da primeira metade da temporada, que ao mantê-las separadas, perde muito de sua força.
Com o regresso de Villanelle, começamos a conhecer melhor outro personagem: Aaron (Henry Lloyd-Hughes), filho de Alistar Peel, e suspeito de executar o pai. Aaron é um personagem que eu achava irritante inicialmente, mas que se mostrou uma figura fascinante na reta final da temporada, graças às interações entre ele e Villanelle, que acabam por ser sempre os pontos altos dos episódios. A dinâmica dos dois psicopatas chega a ser cômica, devido às diferentes excentricidades dos dois. O que foi a cena dele sentindo repulsa por Villanelle comer doce de laranja? Muito engraçada. No fim, fiquei triste com a morte do personagem, acho que ele tinha mais a oferecer para a série.
Neste momento, abro um parágrafo para apreciar Jodie Comer. Sandra Oh ganhou vários prêmios por sua atuação como Eve, mas não sinto que a intérprete da criminosa tenha recebido todo o reconhecimento que merece. Villanelle é a alma da série, ela consegue sustentar qualquer interação através de seu carisma. Muitas das cenas mais charmosas da produção são seus assassinatos peculiares, algo que fez falta nesta temporada, inclusive. O confronto entre Aaron e Villanelle, que fingia ser uma instagrammer americana, foi uma das melhores cenas da temporada, e a atriz sempre acerta ao revelar, delicadamente, o lado vulnerável da assassina, seja com olhos levemente marejados ou com micro expressões de confusão.
Voltando à trama, a presença de Villanelle trouxe à tona novos lados de Eve. A verdade é que a agente quer ser como a criminosa. Ela é profundamente atraída pela adrenalina e poder da serial killer, não só no quesito sexual, mas em um nível de espelhamento de identidade. A questão é explanada em vários diálogos com o passar dos capítulos, seja com Konstantin alertando Eve que “Villanelle é como um parasita que se apossa da sua cabeça” ou com a própria vilã afirmando ser “a única coisa que torna Eve interessante”. A atração sexual-afetiva das duas é um caminho a ser mais desenvolvido pelo show, mas ainda tenho minhas dúvidas sobre o que Eve realmente sente por ela: desejo carnal ou obsessão emocional.
A transição de Eve é consumada no último episódio, após cometer seu primeiro assassinato, acertando Raymond repetidas vezes com um martelo. A ironia poética da situação é que, que uma vez que Eve se torna exatamente como Villanelle, ela entra em um estado de desolação. Eve passou a temporada flertando com a crueldade, sua progressão é exibida de maneira gradual. No quinto episódio, ela contempla, de maneira relutante, empurrar um homem desconhecido no metrô; já no capítulo seguinte, ameaça Gemma confiantemente, quebrando sua caixinha de música. Mas é só quando a linha entre pensar e fazer é cruzada, só após seus atos serem irreversíveis, que a personagem cai em si. A agente percebe que não consegue bancar a emoção mortal com a qual tanto sonha. Ela então rejeita Villanelle, que atira nela sem dó, finalizando a temporada. Curioso notar que o primeiro ano terminou com Eve ferindo Villanelle mortalmente; desta vez, foi o contrário, fechado um ciclo na relação de ambas as personagens. Fico ansioso para saber como Eve irá se recuperar do tiro, e pra qual caminho a ligação entre elas será levada.
O que podemos tirar do 2º ano de Killing Eve é um estudo das diversas maneiras como a relação entre Eve e Villanelle as afetam. Se a 1ª temporada foi basicamente um jogo de gato e rato entre as duas, a 2ª soa como uma jornada desesperada de ambas para se reencontrarem, só para se decepcionarem com as expectativas que uma tinha sobre a outra. O foco nas duas figuras foi tão grande que acabou limitando o roteiro, tomando todas as decisões em prol delas.
Prova disso é o desenvolvimento narrativo dos episódios. Na 1ª temporada, as principais revelações ficaram para o final, mas todos os episódios tinham acontecimentos importantes e um sentido de urgência. Já neste 2º ano, a primeira metade da temporada teve pouca relevância. O arco da morte de Alistair Peel não é tão interessante (as motivações e o desfecho de Aaron só levaram 10 minutos da finale) e a inclusão de uma nova assassina, a Fantasma, não é explorada em todo seu potencial. Tudo soou como encheção de linguiça, para dar a Eve o que fazer enquanto ela e Villanelle estão separadas.

Nas escolhas estilísticas, entretanto, a série continua a se sobressair. A ambientação europeia é incrível, dá uma certa elegância à história. A paleta de cores frias ajuda a compor o tom mais frio e minucioso da produção, afinal, é uma série de investigação. Já a trilha sonora é super descolada, contando tanto com canções dos anos 80 e 90 quanto música indie e alternativa, que casam muito bem com a edição, dando um aspecto legal a série. Por sinal, ver Villanelle triste, cantando Listen To Your Heart, não tem preço. É a sagacidade britânica, sempre aliviando o clima.
> GOOD OMENS – Final dos Tempos com nerdices e Queen! ft Mikannn!
Ao final da nova fase, a impressão que fica é de que a intenção principal foi transcorrer todos os ângulos do vínculo entre as protagonistas, algo inteiramente justificável e válido para uma 2ª temporada de série. Todavia, parece ter faltado um pouco de empenho na história secundária, que foi mal explorada, e na construção de outros personagens interessantes, como Carolyn e Konstantin, que ficou apenas com uma promessa de arco familiar para a temporada que vem. Ainda assim, Killing Eve continua sendo uma boa opção de entretenimento, trazendo paisagens lindas, ideias provocativas, e principalmente, uma dupla que esbanja magnetismo.
















