A feliz implosão de uma aliança sem carisma.
Um dos maiores fatores de desânimo da – ótima até aqui, vale dizer – temporada Edge of Extinction é a concentração de air time nos retornantes (e Wendy) e invisibilidade de boa parte daqueles que pareciam dominar a season. Eric, Gavin, Ron, Victoria, Julie (a única dos 6 que a edição sempre fez questão de nos lembrar que está lá) e principalmente Julia, a quase invisível na fase tribal, pareciam ter a faca e o queijo em suas mãos para dominar a temporada até o fim, e nós simplesmente não nos importamos suficiente com essas pessoas para querer vê-las vitoriosas.
I’m the Puppet Master – um título obviamente irônico, mas bem mais do que imaginaríamos – veio exatamente para desmentir essa sensação de jogo definido, graças a uma união de fatores bastante interessantes que circunstancialmente geraram a configuração de votos mais surpreendente de toda a temporada.
Muita gente imaginava que os Kama6 levariam um golpe nesse episódio em razão da chuva de idols sob posse da minoria ex-Lesu, mas ninguém esperava que o golpe partiria de dentro da própria aliança, que implodiu completamente graças a uma decisão de Julia – outra surpresa, já que do nada a moça foi de invisível a articuladora de um dos principais moves da temporada.
É interessante como, em termos de edição, esse episódio foi o breakout moment (saudades de usar esse termo em review de reality musical) das duas jogadoras mais escondidas, cada uma por seus motivos. Já começamos com Aurora – que parecia ter sofrido um feitiço de Malévola e adormecido na ilha -, que foi mostrada se sentindo negligenciada pela própria tribo após a eliminação de Joe. É curioso como a Kama6 parece ter subestimado a capacidade dela de contrariá-los, reinserindo-a na aliança como se nada tivesse acontecido. Esse é um grupo de excelentes jogadores, mas também é um grupo que pecou por se sentir inatingível. Foi essa aura deles que nos deu, durante todo o episódio, a sensação de que algo daria errado (ou, no nosso ponto de vista, daria muito certo, porque a queda desses chatos é música para os nossos ouvidos).
Lesu, cristais sem defeitos (e o Rick)

O começo do episódio nos mostrou cenas importantíssimas estrategicamente. Em uma reunião entre Wardog, Wentworth e Lauren, os Lesus, num rompante de genialidade, percebem que estavam Lesando (tu-dum-tsss) e entendem tudo o que a Kama6 fez contra eles, colocando-os uns contra os outros e garantindo o controle dos votos. Ao mesmo tempo em que analisam bem os próprios erros e compreendem que precisam reformar suas relações com Rick e David para prosperar, eles também identificam corretamente os erros da tribo amarela, que eliminou um dos próprios membros e ainda deixou Aurora no escuro no primeiro voto. Wardog, como o sensacional jogador que é, conclui que esse grupo precisa ser recrutado para ir para as pedras, pois caso contrário eles irão para casa de qualquer forma e a Kama6 vence o jogo. Adorei ver essa cena porque é um momento muito sóbrio de análise do jogo, e não é algo que vemos com muita frequência fora dos confessionais.
Em seguida, Wentworth usa sua conexão com David e estabelece uma bandeira branca entre eles.. Sua experiência em Second Chance ajuda muito aqui, pois foi uma temporada em que as pessoas não ficavam guardando rancor por terem sido mantidas no escuro. Elas se levantavam e corriam atrás do prejuízo. Foi essa mentalidade que possibilitou a Kelley entender o que havia a ser feito e remendar suas relações com David, para que ambos tivessem alguma chance de prosperar. Ele, como o jogador inteligente que é, também entendeu que era esse o caminho, pelo menos por alguns votos. Outra vantagem de se aliar a jogadores racionais e que compreendem Survivor. David chega a ficar empolgado com o plano que eles traçam juntos, a estratégia de puxar Aurora para o grupo enquanto Rick e David se infiltram nos Kamas e os fazem dividir votos. E seria realmente um plano sensacional, se não fosse por uma pessoa, coincidentemente aquele que retornou da EoE apenas para destruir nossa empolgação com os planos.
A conversa entre Wardog e Rick é HILÁRIA, com o segundo rechaçando completamente a ideia de trabalhar com os Lesus da maneira mais irônica possível. Não é condenável que ele não confie nas pessoas, mas é no mínimo falta de inteligência compreender que ele está no bottom de uma aliança de 6 ou até 7 pessoas se trabalhar com a Kama. Apesar de eu ter um milhão de restrições ao jogo de Julie, nesse ponto eu tenho que dar crédito ao trabalho de recrutamento dela. Rick caiu como um patinho no papo da salvação, e é incapaz de enxergar que há uma aliança mais forte do que qualquer conexão que ele possa criar ali.
A teimosia de Rick rendeu a situação dos sonhos para qualquer produtor de reality que cria uma twist: como David e ele não chegam a um consenso, o idol dividido ao meio segue repartido, na mais simbólica possível representação de impasse entre dois grandes aliados. Achei David muito corajoso por ter feito isso, e também muito correto. Rick destruiria seus planos, não por antagonizar David, mas por confiar nas pessoas que estão contra eles. David seria a nova Lauren que confiou um idol a Dr. Mike e se deu mal.
“Lauren, meu óculos, Lauren!!!”

Aurora brilhou mesmo foi no challenge, quando, compreendendo que precisava acordar para o jogo, teve o foco e a determinação necessária para chegar ao F2 contra Victoria e entender que ela tinha poder de barganha com os Kama6 para sair vitoriosa daquele challenge. Aurora estava insegura quanto à sua posição na tribo, e usou isso como arma para se garantir no F11, o que achei particularmente ótimo, ainda que não tenha efetivamente funcionado e ela tenha vencido o challenge por mérito mesmo. A atitude de Aurora mostra uma visão interessante de jogo e uma capacidade de iniciativa que até então não tínhamos visto, mas está claro que sempre estiveram lá.
Se eu nunca critiquei a loira, não podemos dizer o mesmo sobre Julie, a autoproclamada bússola moral da trigésima oitava temporada de Survivor. Julie ficou POSSESSA quando viu Aurora negociar o challenge com Vicky enquanto Lauren estava desmaiada.
Vamos deixar uma coisa clara: Aurora foi perfeita e fez o melhor para o seu jogo numa situação em que ela nem mesmo conseguia ter a real dimensão do que estava acontecendo para poder ser julgada daquela forma. Se o desmaio de Lauren é algo grave, quem tem algum tipo de obrigação de parar o challenge é a produção. Uma vez que isso não aconteceu, quem ainda estiver no jogo tem, sim, que seguir em frente e tentar vencer, e é ridículo julgar alguém por isso. A própria Julie deixou claro para Vicky que ela deveria continuar lutando no desafio, mas, apenas por estar torcendo contra Aurora, decidiu que esta última merecia condenação. Esse tipo de moralismo de Julie – que até agora norteou todas as suas decisões – me incomoda profundamente no jogo. Eu acho que ela própria deve acreditar que “salvou” Rick e que por isso ele deve algo a ela no jogo.
Isso não significa, claro, que o desmaio de Lauren não tenha me dado um susto. Como a pessoa que desmaiava não foi mostrada na promo, eu realmente acreditava que teríamos uma medevac, ainda mais com a edição insistindo em todo episódio que Lauren estava praticamente anoréxica há pelo menos uma semana. Talvez ainda aconteça, mas espero que não. Lauren é uma ótima adição ao elenco desta temporada, algo de que poucos novatos podem se orgulhar, e seria uma pena perdê-la desta forma, ainda mais com um idol sob sua posse. Acho seguro dizer que todos ficamos felizes com sua recuperação.
Enquanto isso, à beira da extinção…

O plano da produção para a twist já vem dando muito certo há tempos, mas acho que este foi o episódio em que mais claramente a EoE atingiu seu objetivo. Primeiro vimos Joe filosofando sobre sua presença lá e sua determinação de superar as adversidades. Depois, vimos Aubry lutando de maneira inteligente para obter uma vantagem (ou melhor, um combo de vantagens, uma pra ela e outra para alguém ainda no jogo). Ambos ganharam edições heroicas nesse episódio, certamente o que a produção mais queria quando teve essa ideia: dar air time para os retornantes, garantindo-os na temporada mesmo se eles flopassem jogando.
Vi questionamentos na internet a respeito da decisão de Aubry de entregar o voto extra a Aurora, mas não concordo muito. Aurora era sua única aliada ainda presente no jogo (assim como em Game Changers, Aubry não teve muitos aqui), então faz todo o sentido que a ex-Kaoh Rong tente contribuir para o seu sucesso. Mas também fiquei surpreso. Acreditava que Aubry poderia dar o voto a Rick para retribuir o favor ou a David para fortalecer os retornantes, mas não foi o caso.
De qualquer forma, a Edge of Extinction segue como uma twist interessante. Por mais que não gostemos da ideia de alguém retornar ao jogo após ser eliminado, essa expectativa é o estímulo necessário para manter os eliminados lá, com a garra para render bons momentos para a edição – e isso eles têm rendido, não podemos negar. A ideia de eliminados enviarem vantagens para quem ainda está no jogo também me agrada, ainda mais sendo um voto extra, que não é uma vantagem tão absurda assim. Não sendo imunidade nem prejudicando outros jogadores (como no caso do vote stealer), acho bacana, e por isso essa escolha da vantagem a ser doada foi muito acertada.
O dono do episódio

O grande jogador do episódio sem dúvida alguma foi Wardog, que conseguiu entrar na cabeça de Julia e Gavin e convencê-los de que eles estavam no bottom da Kama6 e acabariam enganados. É curioso porque a jogada foi muito mais poderosa do que até mesmo o próprio Wardog previa. A única coisa que ele queria era se preservar e garantir que os votos não fossem para o seu lado, oferecendo-se como voto útil quando o bottom da Kama quisesse usá-lo para virar o jogo contra Eric e Ron.
Mas o efeito previsto para longo prazo já aconteceu em curto. Julia ficou louquíssima na paranoia e já correu atrás de Eric para verificar se o que Wardog dizia procedia. O interessante é que era tudo verdade. A conexão de Julie com Rick dava ao lado “mais velho” da aliança mais poder e Ron e Eric tinham consciência disso, e por isso se sentiam donos do jogo. Assim, quando foi pego de surpresa pela proposta de eliminar Devons ou David, Eric não conseguiu disfarçar a preocupação em protegê-los, o que deu a Julia a confirmação que ela esperava.
Daí em diante a Kama6 foi ladeira abaixo, para nossa felicidade e a de Kelley Wentworth & Cia. Eu achei a construção desse episódio simplesmente fantástica. Chegamos ao TC sem muita certeza do que poderia acontecer. A edição poderia estar sendo falsiane e disfarçando uma eliminação óbvia? Poderia. Kelley e Lauren poderiam fazer uma double idol play e eliminar Ron ou Eric? Poderiam. Kelley ou Lauren poderia moscar e sair com um idol no bolso? Poderia também. Mas, no fim, Victoria cedeu, a jogada orquestrada por Julia foi mesmo predominante, e eles eliminaram Eric. Até isso me surpreendeu um pouco, pois o puppet master Ron tinha tudo pra ser o eliminado depois da arrogância mostrada, mas a fala de Eric (“they have zero power”) havia passado despercebida por mim na primeira assistida.
Há quem diga que a jogada de Julia tenha sido um tiro no pé, e isso faz todo o sentido. Entretanto, eu não assino embaixo de tal afirmação com essa categoria toda. Passamos uma temporada inteira criticando a passividade de Laurel em Ghost Island, e isso só a levou a uma derrota terrível. É contraditório, portanto, que critiquemos Julia por ter feito aquilo que tanto queríamos que a terceira colocada de GI fizesse. Acho até que Gavin merece mais críticas do que ela, porque sinto que Eric confiava muito mais nele do que nas mulheres da Kama.
Julia realmente parecia estar destinada a ser usada como número e ser eliminada entre o F8 e o F6, e portanto há lógica na ideia de atacar primeiro. Victoria, evidentemente a jogadora mais inteligente e bem posicionada da Kama6, teve uma visão perfeita do jogo quando ouviu a proposta: era o move certo, na hora errada, contra a pessoa errada. Esperar um voto e no segundo eliminar David para tirar poder de Eric e Ron seria uma ideia inteligente para elas, que no futuro poderiam recrutar Lauren ou Wardog para fazer alguma jogada contra o topo da pirâmide. Porém, ainda que o timing seja passível de críticas, a atitude de Julia é louvável e está longe de ser um big move vazio, apenas para ter algo no currículo. Era uma jogada necessária em algum momento, ainda que esse momento não precisasse ser agora. E ainda há muito jogo pela frente para Julia firmar novas parcerias e se posicionar de maneira mais sólida até o fim do jogo (ainda que, pela edição, saibamos que isso dificilmente deve acontecer com ela).
Eric sai do jogo tão insignificante quanto entrou, e pra mim foi um dos jogadores mais mal escalados da franquia. Entretanto, é sempre bom ver um alpha male arrogante levando um tombo, mais um ingrediente maravilhoso desse episódio que sem dúvida nenhuma foi o melhor da temporada até agora. Apesar de a opinião geral ser desfavorável a Edge of Extinction, eu estou gostando bastante até agora, e não vejo razões pra reclamar. Que venham mais confusões maravilhosas como essa, e que os Survivor Gods roguem por nós e a obviedade editorial de uma possível vitória broxante de Julie seja destruída com uma futura eliminação dela. Amém!
Ranking da temporada após I’m The Puppet Master:

1. Julie: Nem nos episódios em que deveria ser INV essa chata sai do nosso pé e temos que ficar aguentando ela sempre reclamar de devolver o idol/colar da imunidade. Eu jamais a veria como contender naturalmente, pois Julie faz um jogo essencialmente emocional, julgando moralmente todos os demais participantes e tomando suas decisões baseada unicamente nessa percepção de quem é “malvado” e quem é “bonzinho” no jogo (como quando tentou manter Rick por ele ter sido um coitado que sofreu na EoE e mirou – sem sucesso – em Kelley e Lauren porque elas eram as malvadas que queriam tirá-lo). Mas Julie está claramente tendo uma edição gratuitamente positiva, mesmo sem fazer praticamente nada no jogo, e se tem uma coisa que aprendemos com Kaoh Rong é que edição forte de quem não tem impacto no jogo estratégico #significa. A sensação que dá é de que todo mundo vai se esquecer dela, até o ponto de ela ganhar os challenges que precisar para sair vitoriosa da season.
2. David: Segue sendo a maior surpresa da temporada, se misturando perfeitamente entre os jogadores como se nem fosse retornante (e como se ele não fosse um claríssimo vencedor da season em que jogou caso tivesse chegado ao FTC) e reduzindo mais e mais seu alvo a cada episódio com um jogo inteligente e ao mesmo tempo sociável. O retorno de um jogador pode revelar se seu primeiro desempenho foi apenas sorte ou habilidade. David já provou que, não importa quais cartas lhe sejam dadas, ele tem habilidade de sobra.
3. Lauren: Sem querer, Lauren arranjou para si mesma o melhor escudo possível, que atende pelo nome de Kelley Wentworth. Ao mesmo tempo em que ela ficará ofuscada pela edição enquanto a “ídola” permanecer no jogo (prova disso é que seu maior plot até agora foi o da falta de comida que se repete em todo episódio), também tende a não ser alvo e ganhar tempo para se misturar.
4. Kelley: Kelley é outra que conseguiu mostrar que não foi sortuda, foi habilidosa. Com a eliminação de Eric, as antigas linhas tribais se dissipam e Kelley sai do bottom absoluto e ganha manobra para jogar. Ou seja, perigo certo para os adversários, ainda mais com um idol em mãos.
5. Wardog: Apesar de ser um excelente jogador, está claro que ninguém mais aguenta Wardog e seu grande trunfo é ser protegido por Kelley e Lauren. Ele acha que Wentworth será seu escudo, mas vejo a jogadora se esgueirando por entre os adversários, pavimentando um caminho para chamar de seu e deixando Wardog em sua frente na bootlist de todos.
6. Victoria: Ela pode não ser Grayson, mas certamente faria a rainha de Revenge ficar orgulhosa! Queen Vicky Jr. é uma jogadora astuta e que sabe exatamente o que precisa ser feito. Victoria protestou muito corretamente contra a jogada de Julia. Porém, ao perceber que esse era o caminho que os números estavam tomando, a ruiva votou com a maioria, o que também é a decisão certa e mostra que Victoria está bem posicionada na atual configuração de alianças do grupo. O que sinto é que lhe faltarão conexões para evitar a eliminação na reta final. Vejo-a como o mais provável boot do F5.
7. Aurora: Se não fosse por sua edição porca, eu veria Aurora com chances de vencer. Está bem posicionada e ninguém vai querer eliminá-la tão cedo, pois é um número para todos os lados. Pode meter os pés pelas mãos e virar um Will da vida, e estou meio que contando com isso, com a queda dela logo depois que tiver sido decisiva em algo e achar que está toda poderosa.
8. Julia: a decisão de Julia de tirar Eric neste episódio é bastante questionável, mas o fato de ela ter conseguido viabilizar o move mostra seu poder de influência. Deve acabar eliminada por ser considerada ameaça (física E estratégica), mas este episódio mostrou que Julia não está lá a passeio como parecia até agora.
9. Gavin: Foi o mais burro do trio que eliminou Eric, pois seria certamente o último a ser atacado por ele, com chances até mesmo de ser levado para o F3. A superaliança entre os dois foi claramente um momento de edição falsiane, mas ainda acho que eles eram próximos suficiente para Gavin não precisar atacá-lo antes do F7.
10. Rick: Rick é TV gold, mas em termos de inteligência estratégica, o cara é bem tapado. Agora, não tem relações sólidas nem de um lado e nem de outro. Pode até ser usado como número, mas essa ausência de aliados custará o seu jogo cedo ou tarde. David sozinho não irá conseguir arrastá-lo até o fim.
11 .Ron: Foi jogado na lama nesse episódio, e o Brasil comemorou mais do que irá no dia em que o Bozo cair. Ron é insuportável e é editado de maneira que o público fique feliz com sua derrocada. Ou seja, ela vem.
Quando vejo o novo Ministro da Educação “explicando” que os donos das grandes empresas são todos comunistas:

Quando os eleitores do Bozo percebem que seus votos foram usados para ajudar um governo desses a estar no poder:













