A morte é a única certeza da vida. Você já deve ter escutado isso em algum lugar ou de alguém. Antes era venerada respeitosamente, um processo, um rito de passagem que servia de crescimento para aqueles que permaneciam, um marco ao qual todos nós iriamos atingir. No Império Romano, quando os generais voltavam vitoriosos de suas incursões militares, aconteciam as chamadas procissões triunfais. Um misto de religiosidade e festa terrena, as procissões serviam para exaltar os feitos humanos guiados pelos deuses. O general homenageado entrava na cidade numa biga, e atrás dele vinha um subordinado (escravo, alguns acreditam) segurando uma coroa de louros sobre sua cabeça, sussurrando em seu ouvido “Respice post te. Hominem te memento”, o que poderia ser traduzido como “Olhe adiante (para a hora a morte). Lembre-se que é só um homem”. Ou seja, mesmo com todas as glórias divinas, ele ainda não passava de um mortal. O costume veio a ser conhecido como “memento mori” (lembre-se da morte), ganhando força na Idade Média, onde a peste negra e a extrema religiosidade ajudaram a espalhar o contexto da mortalidade repentina.

Hoje em dia vemos a morte como algo distante. Nossa expectativa de vida cada vez mais alta aliada ao constante desprendimento das crenças vão relegando ao “final de todos nós” um papel coadjuvante, algo retratado numa caricatura ou num filme que se vê numa tarde chuvosa entediante. Porém, para alguns o “memento mori” nunca desapareceu, é uma constante vital, sempre lembrado, sempre reafirmado, não por eles, mas por aqueles que o cercam. William “Froggie” James foi um desses exemplos. O trabalhador negro de Cairo, Illinois foi acusado de matar uma jovem branca com quem tinha cruzado o caminho poucas horas antes. Ele foi pego pela multidão enfurecida da cidade e enforcado em praça pública, sendo linchado, alvejado por balas e queimado depois. Nunca chegou a ter um julgamento propriamente dito, devido a cor de sua pele ele foi automaticamente considerado culpado.
Cem anos depois, o fato ocorrido em 1909 ainda ecoa nas ruas não só de Cairo, mas dos EUA e do mundo. Os “descendentes” de Froggie são constantemente lembrados de que ainda são cidadãos de segunda classe, vivendo um inferno pessoal a cada dia que se passa. Para esses a morte é um companheiro diário, que segue a poucos passos, esperando o momento certo no acaso para que finalmente o abraço brando seja dado, mesmo que ironicamente a motivação deste abraço seja violenta. Mais uma vez “American Gods” trata de um tema social relevante, quase como uma continuação do discurso do episódio passado. E essa pegada político-social tem sido uma das melhores coisas que a série vem construindo em sua segunda temporada. Tivemos um escopo amplo da situação negra e agora partimos para tópicos mais atuais, como a violência policial. Há também uma crítica dura ao preconceito que agora se espalha de maneira mais branda, mas não menos insidiosa. Os linchamentos antigamente aconteciam em praça pública e hoje acontecem no ambiente virtual, do conforto de nosso lar.

A escolha dos “deuses da morte” como foco nesta semana, acabou servindo não só como apoio para esse discurso social, mas também para trabalhar o sentido da mortalidade e como ela é vista, dependendo de qual credo se tem. De um lado temos Tot (ou Mr. Ibis) e sua impassibilidade perante a morte. Como escriba do tempo, ele observa, digere, investiga e narra, mas sem nunca interferir nas causas e sem nunca apresentar uma solução para futuras perdas. Ele é um espectador paciente, que nunca se cansa de ver tudo por um prisma impessoal ao mesmo tempo que nunca perde o real interesse sobre o comportamento dos homens e dos deuses. Já Baron Samedi é o completo oposto, colocando a “mão na massa” sempre que possível. Ele dialoga com a morte, perverte seus princípios sob suas vontades e joga habilmente com as esperanças dos vivos e dos mortos. Os dois também são exemplos interessantes por retratarem dois pontos principais do povo negro: o primeiro é altivo, uma lembrança da época dos impérios (Tot); o outro alguém que luta contra as injustiças cometidas (Samedi), espelhando justamente o pós-escravidão e constante sentimento de perda que o período trouxe.

Correndo por fora, tivemos um plot interessante que finalmente jogou alguma luz sobre Salim e Ifrit. Os dois até aqui vinham servindo somente como ponto de ligação entre Odin e suas armas, mas toda a discussão sobre crença e fé que o diálogo dos dois trouxe foi valiosa por justamente colocar os dois lados (da crença e descrença) como algo inerente a discussão da fé verdadeira. “American Gods” ultrapassa seu meio de temporada com mais um bom episódio, deixando a expectativa alta para o que ainda falta ser apresentado ao mesmo tempo que se aprofunda ainda mais no seu teor crítico.
Pequeno Panteão
– Baron Samedi (interpretado por Mustafa Shakir)
Origem: Vodu
Baron Samedi é um dos aspectos do Baron, um dos loas (espíritos da religião vodu) dos mortos. É considerado o sábio da morte, frequentemente representado por um homem vestindo cartola, bengala e com o rosto pintado de caveira (ou como uma caveira como rosto). Além de ter poderes sobre a morte, ele também é ligado ao sexo e ressurreição, sendo invocado por aqueles perto da morte. Também é considerado um juiz e mágico poderoso. Pode ser chamado por outros nomes, como Baron Kriminel, Baron La Croix ou Baron Cimitière.
– Maman Brigitte (interpretada por Hani Furstenberg)
Origem: Vodu
Maman Brigitte apesar de ser um dos nomes importantes da religião Vodu, tem origem britânica, sendo uma versão de Brigid, deusa celta da poesia, forjaria e cura que foi trazida para o Haiti pelos escravos deportados vindos da Escócia e Irlanda. Também é considerada um dos loas principais do vodu detendo poder sobre a morte. É responsável por portgere as lápides dos enterrados num cemitério de sua responsabilidade. É esposa de Baron Samedi e com ele são os chefes da Ghede, família de espíritos da religião vodu.
– Alviss (interpretado por Lee Arenberg)
Origem: nórdica
Alviss era um anão da mitologia nórdica que conhecia tudo sobre a terra. Casou com a filha do deus Thor, quando este desapareceu. Thor conseguiu derrotar o anão numa disputa de charadas até o amanhecer, onde a luz do sol o transforma em pedra matando-o.
Anotações de Ibis 1: Odin estava impagável nesse episódio. Seja regando a Yggdrasil (árvore do mundo) com urina ou fazendo piada sobre Sodoma e a relação de Ifrit e Salim, o personagem foi o foco do humor;
Anotações de Ibis 2: Pra quem sentia falta do conteúdo NSFW esse episódio cumpriu a cota;
Anotações de Ibis 3: Mais e mais pistas sendo colocadas na narrativa…















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