Recentemente passeando pelos domínios da New Media, me deparei com um artigo que perguntava o porquê de grande parte das estátuas egípcias que resistiram ao tempo possuírem os narizes quebrados. Fui atraído por uma curiosidade de descobrir o motivo, se era algum ritual da civilização ou a ação do tempo e clima. Mas, segundo o texto, a razão para tal fato era esconder os narizes largos retratados nas estatuas, denotando assim que os egípcios, uma das civilizações primordiais da humanidade, eram de maioria negra. Os arqueólogos ao descobrirem os exemplares destruíam deliberadamente os artefatos, para que assim a história não preservasse que uma população negra já tinha controlado o mundo conhecido, tirando esse poder do homem branco. A história, afinal, é escrita pelos vencedores. No campo divino, as coisas não são tão diferentes e nessa semana “American Gods” tratou de evolução, subserviência e obsolescência de modo poderoso como só o show é capaz de fazer.
Tudo que é criado evolui. Uma obra, peça, história está passível de ser reaproveitada, modificada e aprimorada. Desse movimento se origina a discrepância geracional. O velho sempre se prende aos costumes antigos, aos padrões estabelecidos, ao que é considerado correto. O novo se aproveita desses padrões e os modificam, quebram os parâmetros e os atualizam para uma nova visão, sempre guiados pela atração ao desconhecido, ao inédito. Isso ficou bem claro na pequena história do gênio da tecnologia e do pai, que se conecta diretamente com a própria gênese do Technical Boy. O deus da tecnologia é o advento de uma evolução, da constante sede da juventude em mirar o novo e esquecer o passado, pagando um preço altíssimo no percurso. Só que assim como os deuses antigos, a evolução é uma via de mão dupla que permite que o novo também se torne velho.

Toda a raiva e desconfiança do personagem com a nova encarnação da Media não era uma simples birra, mas a constatação de que o seu fim estava chegando. Foi uma sacada genial mostrar (ao mesmo tempo que critica) a questão da obsolescência programada como a nêmese do Technical Boy. As redes sociais e as novas formas de navegação de conteúdo cada vez mais se armazenam em locais etéreos, desprendidos do meio físico. O digital toma de supetão o que antes era feito por meios (e máquinas) reais. O hardware agora dá lugar à computação na nuvem. É um recurso narrativo poderoso, que mostra que Mr. World, em prol de sua vitória, não poupa ninguém e canibaliza sem pena aquilo que não possui mais funcionalidade, como descartamos um smartphone ou computador antigo que não aguenta mais a potência dos programas atuais.

Mas a grande carga narrativa do episódio foi claramente política, para não dizer social. Todo o diálogo contido na funerária foi pontuado e carregado de tanta assertividade crítica que em alguns momentos se tornavam verdadeiras (e necessárias) aulas. A vida surgiu na África, mas hoje consideramos o continente um local que só serve para extração de riquezas e mão de obra. Assim como na história e na sociedade atual, são os panteões europeus que possuem mais importância, mesmo que os africanos sejam mais antigos. Deuses morrem e são vingados, enquanto outros são esquecidos, negligenciados e diminuídos, tudo isso pela cor de sua pele, de sua cultura e do povo que a idolatra. Foi poderoso o discurso de Anansi (Orlando Jones inebriante no papel) sobre as condições dos negros e os paralelos com a escravidão, que como ele diz, é um estado mental imposto pela classe dominante que tolhe um povo de todas as oportunidades. Assim como a questão de Kali e toda a visão do povo indiano como uma nação imigrante e subserviente, relegada a papeis menores nos alicerces da sociedade. E mais importante ainda foram os diálogos de Bilquis com a mulher em luto. Todo o subtexto da força feminina, aliado também ao contexto racial foi perfeitamente encaixado na trama. Só tenho elogios em como o show colocou o tema com tamanha competência e respeito.

No entanto, a parte mais chamativa e de pegada mais insólita foi a sequência que envolvia “Mr. Money” e o encontro de Mr. World e Wednesday. Sem tantas lutas físicas, mas com uma carga de batalha mental sem igual, a reunião serviu para mostrar que há sempre alguém mais poderoso do que você, mesmo para os deuses. No mundo moderno a religião e a tecnologia se engalfinham pelas mentes dos homens, mas o único e perene “deus” é o dinheiro. Sem ele definhamos, com ele podemos realizar nossos mais impensáveis sonhos. Foi mais uma adição feita pela série que casa bastante com a contextualização que o show faz com a realidade atual. Guerra é lucro, mas o lucro não necessariamente investe naquilo que não tem retorno. Espero ver mais do personagem e das escoteiras/guarda-costas creepys.
> 3 SÉRIES CLÁSSICAS IMPERDÍVEIS!
“American Gods” parece ter aprendido a lição e conseguiu balancear o realismo do novo tratamento textual com os pontos fortes da parte mais onírica de sua temporada passada. Se o show continuar assim, podemos ficar tranquilos quanto ao futuro da série. Mas na constante torrente de evolução, qualquer mudança pode ser a preservação da espécie ou a completa extinção dela. Basta manter o compasso na frequência correta.
Pequeno Panteão
– Bast (interpretada por Sana Asad)
Origem: Egípcia
Deusa da fertilidade e protetora das mulheres na mitologia egípcia. Fazia parte do ramo solar dos deuses, tendo poder também sobre os eclipses solares. É representada como uma mulher com uma cabeça de gato ou simplesmente como um gato na iconografia da religião. O centro de sua adoração era localizado em Bubástis (atualmente as ruínas estão próximas de Zagazig, Egito), onde os gatos eram considerados como encarnações da deusa, sendo tratados com respeito e mumificados e enterrados em pirâmides após a sua morte. Também pode ser chamada de Bastet.
– “Mr. Money” ou The Bookkeeper (interpretado por William Sanderson)
Representado por um contador (ou talvez banqueiro), pode ser considerado a divindade do dinheiro. O status ainda não foi confirmado, logo as aspas na alcunha de Mr Money.
Anotações de Ibis 1: Bast atualizando as definições de “sex dreams”;
Anotações de Ibis 2: Prestaram atenção na planilha das escoteiras?















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