Supergirl consolida seu pior vilão em 4 temporadas, a intolerância.
Como série temática, centralizada em uma super-heroína, Supergirl nunca pareceu muito preocupada em criar vilões marcantes. Claro, tivemos Régia na temporada anterior, mas o que haviam prometido como a grande antagonista da Supergirl, com uma história rica e missão fundamentada, era na verdade uma mulher sendo controlada por uma entidade mística. Então entre a decepção com o fim abrupto de Astra e a trama requentada da invasão daxamita, com Rhea (Teri Hatcher) sendo o único atrativo, o quarto ano está se provando muito competente na composição de seu vilão, o sentimento de medo e intolerância, aliados ao terrível Agente da Liberdade e seus asseclas.
A sensação de um inimigo que você simplesmente não consegue impedir, pois tem um alcance muito grande e é internalizado, opera como uma ameaça bem grande para Supergirl, em escopo principalmente. Kara não pode simplesmente rasgar sua camisa e revelar o S como escudo, quando a intolerância internalizada e o preconceito velado figuram como ameaças. O que a série está fazendo, então, é apostar no poder da imprensa, casando um dos itens mais importantes da premissa levantada quando ainda fazia parte da CBS, com o CatCo e a função de Kara como humana e não alienígena.

Claro que utilizando seu viés político, Supergirl fez questão de colocar os Filhos da Liberdade com tochas compradas em mercados (tiki torch), fazendo alusão aos grupos de supremacistas brancos em Charlottesville – que inclusive rendeu uma declaração da empresa fabricante, se desassociando de qualquer ação de intolerância praticada por estas pessoas. É a maneira mais didática de traçar uma linha e se posicionar politicamente. Neste quesito, a série sempre foi bem leve em suas considerações, mesmo ao usar sua plataforma de divulgação mais objetiva para expor exatamente o que estava pensando, a respeito do machismo, homofobia e agora xenofobia e intolerância contra imigrantes.
E mesmo que seu presidente eleito seja um verdadeiro palhaço, não muito diferente do nosso recém-eleito Bolovo, a série optou por entregar todo o discurso e dialética para um homem capaz intelectualmente, ameaçador e nada bonachão. Seria muito fácil criar uma caricatura do Trump, destacando seus discursos patéticos e comportamento volátil no Twitter, mas a série optou por levar com socos no estomago a realidade cruel de quem se alimenta desse discurso, muito mais de que o profere.
Ter uma representação literal de um presidente que obviamente não sabe o momento de calar a boca, que bloqueia seus eleitores quando confrontado e que cria situações de embate com a imprensa assim que suas ideias são questionadas, seria muito fácil para criar uma polarização. Supergirl não está almejando a saída fácil. Ben é um professor universitário, com amplo conhecimento e que sabe distorcer a realidade para encaixá-la em seu discurso de ódio. Este é o lado mais perigoso de pessoas que usam plataformas online para despejar informações falsas e o pior de tudo, conhecimento embasado em estudo e que dificulta bastante o questionamento.

Exatamente por esse motivo James está com sua história intimamente ligada a das chamadas ‘Crianças da Liberdade’, enquanto Ben Lockwood, interpretado pelo ameaçador Sam Witwer, continua jogando como uma figura de manipulação e dominação. Este é o primeiro arco realmente relevante de James, um que também pode estar apontando para sua eventual morte. Desde a primeira temporada James Olsen está sendo questionado quanto a sua função dentro da série. Após a compra do CatCo pela Lena, sua posição como namorado da dona da empresa e agora como figura de inspiração de um grupo de ódio, traçaram um caminho bem difícil de evitar. A frase profética “é assim que jornalistas terminam mortos”, talvez realmente termine se concretizando.
Call to Action também oferece uma valiosa lição quando analisamos as distorções propostas por grupos de intolerância e como eles modificam discursos existentes, pegam fatos históricos e o que mais for necessário para validar seu ponto de vista. É possível concordar com o que o ex-professor universitário disse. Sim, os nativos americanos foram exterminados e o feriado de Ação de Graças tem em sua história uma narrativa sangrenta. Contudo, a proposta do Agente da Liberdade, escondido por seu rosto amigável e retórica inflamada, porém embasada, é a de promover um extermino, reconhecendo certa responsabilidade histórica, mas apenas para justificar o ódio e o medo.
O problema é que ao invés de se segurar na narrativa sombria do episódio, a série optou por desviar do caminho para oferecer um fechamento menos realista, com Supergirl enfrentando um dragão. Eu compreendo que a série tenha optado por transformar esse momento sombrio em algo mais esperançoso, com a Supergirl enfrentando uma criatura digna de contos de fadas, para depois fechar sua interação tranquilizando a fera, que só queria proteger seus amigos, mas esse desvio poderia ter sido deixado de lado. O episódio em si já havia exposto seus momentos de leveza, com a Alex fazendo várias menções a Harry Potter e Brainy lutando apenas com o poder da física (e cálculos matemáticos). Logo oferecer um “apoio” para o telespectador com um dragão terminou se provando como um excesso de açúcar em um prato que estava melhor amargo – e já que falei em comida, eu também entendo que o paladar da grande maioria tenha uma inclinação mais forte para a sobremesa.
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Supergirl está muito afiada em sua trama nesta quarta temporada, com temas que falam intimamente com absolutamente todo mundo neste período. Da América do Norte com seu muro e agentes do governo cada vez mais empenhados em separar famílias, elevando o grau de suspeita e preconceito, ao Brasil concentrado em figuras populistas de apelo público e pouco conhecimento, conectando também a Europa e a questão dos refugiados, a série pode ser conectada a vários conflitos existentes. Sim, achei a luta contra o dragão boa, porém desconectada da trama, mas isso não tira o mérito de uma temporada que está caminhando com passos bem confiantes e uma linha moral traçada sem qualquer conexão com a neutralidade que tantos preferem. Colocar o dedo na ferida é necessário e consequentemente causará dor.















