Supergirl continua a construção de uma sólida quarta temporada.

Depois de um terceiro ano conturbado, com sua parcela de problemas por trás das câmeras e algumas decisões inconsistentes na retomada da temporada, Supergirl está trabalhando com um empenho digno de celebração. Com dois ótimos episódios a série expos mais da sua trama inicial, que deverá mudar em algum momento para acomodar a história da outra Kara, a russa. E entre problemas de agenda da Melissa Benoist, novas adições e um pouco de excesso, a série mais política do Arrowverse continua não se intimidando frente aos desafios de um mundo cada vez menos amistoso para as minorias.

Ahimsa, capítulo que continuou trabalhando para aparar as arestas da falta presencial de sua protagonista, introduziu um novo personagem para o elenco de apoio da série. Manchester Black, interpretado pelo carismático David Ajala, surge como uma incrível adição ao time. Como uma espécie de Spike, de Buffy a Caça Vampiros, Ajala aparece com sobretudo de couro preto, sotaque britânico e uma pegada de garoto mau, porém charmoso, que eu não sabia que Supergirl precisava. Seu debut, então, não poderia ter sido melhor, especialmente por concluir a trama de Mercy e seu irmão com um final bem agridoce, para eles, mas satisfatório para nós, além de provar que a série não pretende cometer o mesmo erro que fez com Régia, ao alongar demais sua presença.

O maior acerto do quarto episódio da série foi ter conseguido convergir o drama emocional de Alex e J’onn, os personagens com maiores histórias neste capítulo, sem desviar o foco do que estava acontecendo em National City. Ambos os personagens estão passando por um período de luta e redefinição de suas identidades. Alex batalha para manter seu papel de diretora do DEO em um período em que seus próprios amigos de trabalho/funcionários, não sabem ao certo que norte seguir. Já J’onn, após ter abdicado de uma vida de violência para seguir a função deixada por seu pai, precisa questionar suas escolhas quando a única saída possível parece ser exatamente aquela que ele renegou. Some isso ao surgimento de Manchester Black, e cenas calorosas de troca entre Alex e J’onn, e Ahimsa conseguiu usar bem seus coadjuvantes, de uma maneira que eu não imaginava ser possível após as saídas nada interessantes da temporada passada.

A escolha de lidar com arcos menores também tem beneficiado e muito a série. Estamos lidando com uma trama de monstro da semana, mas ao convergir sua história e seus personagens para um objetivo comum, a série conseguiu estruturar sua dinâmica para que tudo recebesse uma luz de conexão que definitivamente não permitiu que nenhum destes episódios se saísse como um filler. E estamos falando de uma sequência que precisou desenhar seu panorama sem a presença da atriz principal, escondendo-a em uma armadura e com montagens dignas de Homem de Ferro.

Também tivemos uma oportunidade de continuar acompanhando o crescimento de Brainy, com uma cena bem competente ao lado de Lena. Tudo, claro, foi graças ao modo magistral que Katie McGrath e Jesse Rath encontraram de transformar um roteiro um pouco apressado, com soluções bem imediatas, em uma cena bem competente. Felizmente até mesmo James e o Guardião conseguiram servir a um propósito maior, além de me irritar profundamente como sempre fazia, em um arco que eu estou ansioso para ver o desenrolar, pela primeira vez desde que o fotógrafo reformado surgiu no CatCo para fazer a Kara babar de emoção. E em se tratando de James Olsen, ficar animado por um arco dele é muito bom.

Parasite Lost, diferente de Ahimsa, faz uso de Supergirl e também de Melissa Benoist, mas não consegue me vender exatamente o que o roteiro pretendia. Tudo porque, aparentemente, este foi o episódio em que o time por trás da série, criativamente falando, decidiu testar todas as cartas sorteando no velho chapéu da falta de ideias, as tramas e elementos que dominariam o capítulo. Então tivemos, no sorteio, as seguintes adições: Domo de Under the Dome, mochila de os Caça Fantasmas, Parasita, Alienígena com discurso e poderes dos X-Men e trama política do Guardião. É, ninguém disse que seria fácil.

O grande apelo deste quinto episódio, porém, está no fato de que essa versão da Vampira dos X-Men não permite que Supergirl, a grande defensora de National City, enfrente o inimigo em um embate corpo a corpo. Logo, dependemos unicamente do DEO, a força humana – que ajuda a alimentar mais do discurso de ódio contra alienígenas na cidade e que, inteligentemente, foi utilizado pelo Agente da Liberdade ao forçar James a colocar a imagem do Guardião como a de um baluarte da resistência humana frente a “invasão” dos imigrantes de fora do planeta e com poderes fantásticos, um combustível para o inimigo da semana.

Contudo, o capítulo ainda cometeu alguns erros primários. O mais forte deles, após tanta antecipação, foi ao redor da carreira de jornalista da Kara. Sim, aquilo que eu mais queria, foi apresentado de maneira errada e conturbada em Parasite Lost. Kara, que nunca trabalhou como repórter por tempo suficiente para nos provar seu valor, hoje já é vista como uma força a ser reconhecida na cidade. Seu trabalho de entrevistar um alienígena curandeiro vem cheio de boas intenções, mas vocês já conhecem o ditado: de boas intenções o inferno está CHEIO. Ela não apenas falha em sua pesquisa, já que precisou recorrer as entrevistas dadas por Amadei dez anos atrás, aparentemente repórteres nessa Terra não precisam pesquisar sobre seus entrevistados antes da entrevista, como também não considerou que fazê-lo terminaria colocando um alvo nas costas daquele homem – um erro que ela cometerá novamente, já que a personagem confessou a Nia seu desejo de continuar fazendo perfis destas pessoas no site.

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Mesmo com seus deslizes, ambos os episódios foram satisfatórios e demonstraram onde está escondido o poder da atual temporada, em seus arcos centralizados que continuam explorando a história central mesmo quando investem em desvios para centralizar outros personagens. Alex e sua nova supervisora prometem uma interessante sincronia para o DEO e Kara com o CatCo finalmente ofereceram algo diferente e mais parecido com a primeira temporada da série. Com Sam Witwer utilizando todo seu potencial para criar um vilão ameaçador e o próprio ódio do ser humano trabalhando como máquina de oposição a toda a esperança da heroína, estou bem satisfeito com o que Supergirl tem construído para seu quarto ano. São vários acertos e a promessa de que momentos melhores definitivamente virão – e nem estou contando o hype para o crossover deste ano, que parece estar mais surtado do que nunca (o que sempre é bom quando consideramos o Arrowverse).

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