Quando idealizei o #MêsDoHorror, lá no final de 2015, minha vontade era que discutíssemos o maior número de séries voltadas ao horror e ao mistério que eu conseguisse, independentemente do quão bem ou mal elas fizeram seu percurso dentro dos gêneros. Para os anos seguintes, o segundo e o terceiro (este), repensei a ideia do projeto. Resolvi focar em recomendações — ou séries que, lá no fundo, eu reconheço que alcancem um público de alguma forma. São poucas as que eu apresento por aqui e não reconheço, no mínimo do mínimo, que rendem divertidas maratonas. Mas preciso deste mínimo, porque escrever sobre séries ruins (dentro do meu ruim), no fim das contas, é exaustivo.

No entanto, eu, que me proponho esse mestre de cerimônias do portal sobre séries de horror e mistério disponíveis por aí, mas fora do radar convencional, não posso deixar de fazer apontamentos para livrá-los de certos tormentos. Algumas coisas precisam ser pontuadas como prevenção. Não que meu voto reflita na sua decisão final, mas já que eu possuo esse espaço tão generosamente cedido, por que não te prevenir de gastar seis horas da sua vida com uma série britânica ruim? É hora, então, de falarmos sobre Requiem. Abaixo listo os motivos para te fazer reconsiderar (e partir para uma maratona de The Haunting of Hill House) ou para me entender com aqueles que já assistiram.

Requiem
Requiem

Não vou vestir o traje do crítico mal-humorado, entretanto. Requiem tem alguns pontos positivos, e pretendo reconhecê-los enquanto me pergunto o que deu errado. Até porque esta seja talvez a maneira mais interessante de fazer isso. Comecemos:

Durante os primeiros quinze minutos do episódio inicial, assistimos a duas cenas de suicídio. As mortes acontecem em lugares diferentes e por pessoas de perfis diferentes aparentemente. A ligação estaria no contato que fazem com o espelho, momentos antes, e daquilo que pode usá-los para lhes guiar até esse destino trágico. Enquanto demoramos para conhecer quem é a primeira figura, a segunda é a mãe de nossa protagonista, Matilda Grey. Esta é uma violoncelista de sucesso, premiada e pronta para iniciar uma nova temporada. Ao revirar as coisas da mãe, ela descobre evidências ligadas a um caso de desaparecimento que lhe faz viajar até uma cidade pequena e descobrir a verdade sobre si, sua família e o próprio lugar.

Como pode ser percebido, estamos diante de uma série de mistério com elementos sobrenaturais. Estes não são tão escancarados e demoramos a entrar em contato direto com eles. Nesse caso, os desdobramentos do mistério ganham espaço, e assistimos aos conflitos a partir das revelações que as investigações das personagens fornecem. Há um clima melancólico, afinal estamos liando com suicídio, que se estende para os moradores dessa cidade na qual Matilda e seu amigo chegam. A vila é marcada por diversos acontecimentos, entre eles o desaparecimento de uma garotinha mais de vinte anos antes. Assim, entre os diversos temas que Requiem tenta abraçar, está o retorno: como ele se dá e quais estruturas são abaladas quando ocorre. A trama também explora a memória como assombro, algo visto em Tabula Rasa e Mosaic, sobre a qual conversamos em outubro — e que são recomendações asseguradas.

Requiem
Requiem

Os seis episódios que compuseram a primeira temporada foram exibidos entre fevereiro e março, chegando mais tarde ao catálogo da Netflix, que distribuiu a série da BBC One internacionalmente. O roteirista principal por aqui é Kris Mrksa, que trabalhou em Glitch, série sobre mortos que inesperadamente retornam à vida, também disponível na Netflix. A direção ficou com Mahalia Belo, responsável por alguns curtas-metragens e um filme para tevê, trabalhos que perpassam de alguma forma os temas que vemos por aqui: desaparecimentos, segredos e relação familiar.

A série britânica tem um sólido primeiro episódio. Nele, somos apresentados à protagonista, interpretada pela atriz Lydia Wilson, e à história. É meio óbvio desde o começo a conexão existente entre o passado da cidade e essa garota que chega de repente, cutucando a ferida de todos. As reviravoltas escondidas no roteiro não estão aí: o roteiro não tenta esconder essa relação. Conhecemos também o ajudante de Matilda, Hal (Joel Fry), amigo com quem ela tem uma interessante amizade que vai além da parceria na profissão. Começamos com eles e a exploração de sua química, mas esse laço é logo esquecido e cada personagem segue um rumo diferente dentro da história. Isso tudo porque a jovem que inicia sua jornada com muita lógica e motivações convincentes, entrega-se cada vez mais à paranoia geral e escolhe caminhos questionáveis. Depois de um tempo, fica muito difícil torcer por ela.

Para vender a ideia de uma pessoa perdida em suas lembranças, temos na série a mesma quantidade de cenas repetitivas e lentas que grande parte das séries de uma hora possuem. É um tempo contratual (provavelmente), mas ilógico para a narrativa. Ganhamos cenas e mais cenas de sonhos por essa razão e que (bem) lentamente levam sua narrativa de um ponto a outro. Ocupando o mesmo tempo cansativo, acompanhamos mistérios paralelos que envolvem, sim, as personagens que esbarram em Matilda, mas que em nada contribuem para o desfecho da história principal. Lembra um pouco aquela trama de Bates Motel sobre drogas, lembram?

Requiem
Requiem

O cansaço que as pessoas da cidade sentem com toda a história envolvendo a menina desaparecida sustenta até certo ponto as decisões das personagens. Depois de um tempo, porém, só conseguimos ver que tudo se resolveria com um exame e uma investigação mais atenta. No lugar disso, lidamos com alguns relacionamentos. Entre eles, o problemático casamento de Rose Morgan, a mulher que perdera a filha décadas antes e que a partir de então vivera atormentada. Sua relação é mostrada num drama novelesco e desesperançoso que não soluciona os problemas que cria, discutindo o caráter do marido ou as próprias escolhas.

Requiem dá um interessante passo ao falar sobre comunicação. Havia aí algo para se investigar, tornando a protagonista o veículo que pode transportar as mensagens que o sobrenatural teria para passar. No entanto, caímos em lugares comuns para dar desfecho ao enredo: cultos secretos, cerimônias misteriosas e uma filosofia que se exibe em diálogos pouco convincentes e mal elaborados.

Requiem
Requiem

Não quero ser injusto, então preciso destacar também a atriz Sian Reese-Williams, que tem boas cenas. Trudy, sua personagem, é nitidamente atordoada por uma culpa, mas se acomoda diante dos próprios erros. No fundo, ela também tem um certo rancor de estar presa nessa cidade onde todos mentem e ninguém se conhece tanto quanto acha. O citado Hal faz dupla com ela na insistência pela lógica que ambos tentam levar à musicista, amiga dele. Também positiva temos uma reviravolta na construção da antagonista ausente. Isto é, conhecemos as razões que levaram a mãe de Miranda a fazer o que fez no passado.

> A Maldição da Residência Hill – QUASE MORRI DE MEDO!!

De produção tão plural, é inevitável que a BBC erre aqui e ali com suas séries e minisséries. Assim como encontramos a excelência no canal, encontramos também o medíocre. Este tem exemplo em Requiem, agora parte do vasto catálogo internacional da Netflix. Pouco expressiva nos três gêneros pelos quais passa, horror, mistério e drama, diria que foi adquirida para fazer número, sustentar a ideia de se ter muita opção. Aos que pretendem se voltar à qualidade nas escassas horas vagas, a não recomendação é clara. Geralmente, eu deixo subentendido a recomendação ou aponto para grupos específicos. Aqui, não. Ela, não.

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Este post faz parte do terceiro ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2017 e setembro de 2018.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-requiem-nao-gastar-horasRequiem dá um interessante passo ao falar sobre comunicação. Havia aí algo para se investigar, tornando a protagonista o veículo que pode transportar as mensagens que o sobrenatural teria para passar. No entanto, caímos em lugares comuns para dar desfecho ao enredo: cultos secretos, cerimônias misteriosas e uma filosofia que se exibe em diálogos pouco convincentes e mal elaborados.