Em suas duas temporadas anteriores a série construiu sua própria versão do livro escrito por Philip k. Dick, mas bebia diretamente de fatos e acontecimentos das páginas impressas. Nessa terceira temporada a série começa a seguir seu próprio caminho, expandindo o universo e criando suas próprias histórias. Claro que isso cobra um certo preço, porque tudo daqui em diante (a série já foi renovada para uma quarta temporada) vai ser criado do zero. Antes que o alarme de “fanfic” ative no seu cérebro, os dois episódios iniciais mostram que a rota trilhada não é tão ruim assim.
Encontramos os personagens onde eles foram deixados na temporada passada. Cada um deles precisa lidar com as consequências de suas decisões. Claro que alguns continuam com mais peso narrativo do que outros (Juliana e Smith), mas a adição de novas peças ao já complicado jogo de poder entre duas potências demonstra que o combustível da série foi renovado com efeitos satisfatórios (até o momento).
A Escolhida

A figura do herói é sempre complicada. A necessidade de se afirmar perante todos os percalços do caminho é algo que se não for bem trabalhado acaba minando as chances de empatia com o personagem e a missão. Juliana nunca foi uma heroína, ela sempre foi uma pessoa envolta em acontecimentos maiores do que ela. Na primeira temporada ela se envolve começa a desvelar as camadas do universo onde vive para na segunda temporada ela começar a agir efetivamente. Com os desdobramentos da finale passada ela ganha contornos ainda maiores. Imagine todo o universo criado pela série como um grande tecido. Aqui e acolá há corte, remendos e novas faixas de outros materiais que são adicionados ou retirados. Juliana acaba agindo como uma linha que une tudo isso. Não importa a realidade paralela, Juliana sempre será o ponto de convergência, o ponto de conexão onde tudo se encontra.
O que já era escrito nas entrelinhas agora fica explícito na cara do espectador que acompanha a série. Abendsen, Tagomi, Smith todos tem noção (ou pelos menos conhecimento) do papel que Juliana desempenhará em toda aquela realidade. Isso fica claro na cold opening do primeiro episódio onde ela é a líder do ataque da resistência (falarei mais a frente sobre isso) e como ela também age como uma âncora para a versão alternativa da irmã (que era uma saltadora no final das contas), se alimentando de suas memórias e impedindo o retorno da mesma. Mesmo que ela não queira assumir o papel na “profecia” que se desenrola sobre sua cabeça, ela precisará agir já que os pontos místicos da narrativa começam a ser conhecimento de outros personagens, o que fica claro na cena em que Kido vê a irmã que ele acreditava ter matado.
Ascensão externa, Queda interna
Smith por sua vez continua sendo um dos melhores personagens da série (e talvez da televisão atual). Suas motivações nunca são unidimensionais e apesar das atitudes, crenças e escolhas é aquele mais fácil de se relacionar dentro da narrativa. Dentro do partido nazista ele atingiu o ponto máximo que sua patente permite, se tornando uma das pessoas de confiança do novo führer, mas dentro de sua família tudo se despedaça em plena vista desde o sacrifício de seu filho. Toda a construção da cena na escola foi de emocionar e embrulhar o estômago em igual força. Tanto Smith como sua esposa sendo os únicos a realmente sentirem algo na cerimônia, agindo como um vértice da emoção, uma ferida aberta ainda sangrando pela perda do filho, enquanto todos ao redor se embebiam das palavras e ordem e poder é algo que mexe profundamente. E também serve como o ponto de ruptura entre os dois, cada qual a seu modo. Ele continua a usar a máscara da insensibilidade e agir segundo suas próprias ambições, enquanto Helen se torna aquilo que ela sempre odiou (ou preferiu ignorar) no marido, ao matar a mulher do médico que foi o primeiro a descobrir o segredo de seu filho. Segredo esse que começa a ser usado como moeda de troca e ameaça agora as duas filhas restantes do casal.
Novos Rostos

Mas se Smith pensa que sua tomada de poder se dará sem alguma resistência ele está enganado. Dentre os novos personagens apresentados os destaques ficam para as versões alternativas de Edgar Hoover e George Lincoln Rockwell. O primeiro foi o criador do FBI em nossa linha do tempo, que na narrativa é ao cabeça do ARBI (American Reich Bureau of Investigation). O segundo foi também outra figura real, o chefe do partido nazista americano, que aqui age como o representante supremo do partido na América. Ambos já mostraram que estão dispostos a irem aos extremos necessários para retirar Smith da posição onde ele se encontra e já começaram a armar a teia necessária para tal feito. Outra personagem que merece destaque é a jornalista Thelma Harris. Além de mostrar o lado da imprensa sensacionalista sob regime do Reich, a personagem também serve para exemplificar a questão homossexual dentro da história que até então permanecia de escanteio. Já vimos ela sendo manipulada por Smith para agir como agente dupla. Ela e o marido, como um casal de conveniência, foram engolfados pelo jogo mortal até então desconhecido por eles.

Outra coisa que ficou óbvia nesse começo de temporada é que a série se desprendeu das amarras de ficção histórica e começa a abraçar a ficção cientifica e o misticismo como grandes temas dessa temporada. Aquela Juliana que aparece aniquilando seus inimigos pode ser tanto um vislumbre do futuro, como uma nova versão da personagem que saltou de alguma das realidades existentes. E começamos a arranhar também o ocultismo nazista, seja em citações ou no exemplo de Helen, que deseja consultar um modo de falar com o além, com seu filho.
Livre de amarras a série começa a trilhar seu próprio caminho. Se será uma decisão sábia só o tempo irá dizer. Até a próxima review!
> Bom gosto pra SÉRIES é relativo? feat Alice Aquino!
Runa 1: As reviews serão feitas baseadas em duplas de episódios. Os próximos serão 3/4. Arcos narrativos são melhores trabalhados desse modo;
Runa 2: Efeitos especiais estão de parabéns nessa temporada. As cenas da frota japonesa chegando em São Francisco e da explosão da bomba Atômica não devem em nada a alguns filmes;
Runa 3: Joe voltou depois de passar o pão que o diabo amassou na mão dos nazistas. Mas aparentemente ele tem um plano correndo em paralelo. Aposto que vem vingança contra Smith e o Partido em algum ponto;
Runa 4: O personagem de Jason O’Mara, Wyatt Price, ainda não mostrou a que veio, mas promete ser alguém importante na season;
Runa 5: Mais uma vez “Cabaret” como trilha sonora na série. Que também contou com uma piscada marota pra existência de Elvis Presley dentro daquele universo;
Runa 6: Esquecível o plot de Childan e Ed.
















