“Bem, Howard, acho que essa cruz é você quem terá que carregar” – Jimmy McGill
Após uma longa espera, Better Call Saul finalmente retornou com um episódio que, se por um lado não foi brilhante, por outro teve uma construção muito sólida num estilo típico dela própria e de Breaking Bad, sendo muito competente para revelar a grande dúvida do final da 3ª temporada: como Jimmy irá encarar a morte do irmão?
Dada a dúbia personalidade de Jimmy foi bastante difícil entender o que se passava na cabeça dele após a morte de Chuck. Estaria ele se sentindo culpado e com medo de ter sido ele o agente causador da regressão na saúde de Chuck? Ou na verdade Jimmy estaria procurando uma maneira de atribuir a culpa a alguém e seguir em frente sendo ele mesmo? Ao longo do episódio, seu comportamento apático e pensativo não dava pistas sobre o que passava em sua cabeça. A única informação dada por sua própria boca era a desconfiança de que Chuck na verdade havia se suicidado e que ele próprio não estava certo sobre o que tinha acontecido ao irmão, tendo em vista que o havia visto cinco dias antes e que ele aparentava estar muito bem.
A contradição na personalidade de Jimmy tem sido a tônica de toda a série, como se ele estivesse o tempo todo sob a clássica influência de um anjinho e um diabinho em cada um de seus ouvidos. Por um lado Jimmy se esforça para se tornar um bom advogado, para ajudar Kim e conseguir o respeito do irmão, porém sempre acaba cedendo às alternativas mais fáceis, aos tentadores atalhos e, principalmente, à ganância. No final percebemos que por mais que Chuck fosse um egoísta filho da mãe, o que ele disse a Jimmy na finale da última temporada é a mais pura verdade: magoar os outros faz parte da sua personalidade.
E a confirmação de que é essa a verdadeira índole de Jimmy veio instantaneamente após Howard confessar que não só acreditava que Chuck havia se suicidado, como também que teria sido ele o responsável pela sua regressão ao expulsá-lo da HHM. Para Jimmy, a confissão de Howard foi mais do que suficiente para retirar dele qualquer culpa pela morte do irmão. Ele não questionou, não ponderou que quando viu Chuck pela última vez ele já havia sido expulso da HHM e ainda aparentava estar bem e, ainda por cima, não mostrou compaixão alguma por Howard ao dizer que aquela cruz cabia a ele carregar. Além disso, era de se esperar que Jimmy continuasse triste pela morte de Chuck, porém de repente toda aquela introspecção e apatia demonstrada por Jimmy durante todo o episódio simplesmente desapareceu e ele instantaneamente voltou à sua rotina como se nada tivesse acontecido.
Enfim, a morte de Chuck e a demonstração da real índole de Jimmy o deixam mais próximo do que nunca de Saul, sendo que Kim provavelmente é a última amarra que o separa do já sabido destino do personagem. Assim, é de se esperar que a 4ª temporada desenvolva-se em torno do rompimento desta última barreira, com o destino de Wexler sendo a grande incógnita que teremos de agora em diante. O que será que acontecerá com ela, largará Jimmy ou morrerá como Chuck? Ou seria melhor nos questionarmos o que Jimmy irá fazer que acabará destruindo a única coisa que o ainda mantém no caminho correto?
E enquanto Jimmy buscava entender os motivos que levaram Chuck ao suicídio, Mike largava seu “emocionante” emprego de caixa de estacionamento para assumir a função de braço direito de Gustavo Fring, ou melhor, de Consultor de Segurança fantasma da Madrigal. Contudo, assim como no plot de Jimmy, durante quase todo o episódio as ações de Ehrmantraut foram uma verdadeira incógnita, sendo necessário vermos todo o processo desde sua entrada clandestina na empresa e sua a passagem pelos diversos departamentos, até a conversa final com o gerente local. Ok, nós entendemos que Mike esteja precisando de um pouco de ação e não deva ter gostado muito desse negócio de ser funcionário fantasma, mas tenho a impressão que Lydia Rodarte-Quayle e Gus Fring gostariam que ele não chamasse tanta atenção, não? No entanto, tendo em vista que o próprio Mike preza pela discrição, o que será que ele está pretendendo com isso? Criar um disfarce mais sólido?
Finalmente, com relação ao ”flashforward” que deu início à temporada, mais uma vez Better Call Saul conseguiu transmitir toda a solidão e o constante medo sob o qual vive Jimmy na pele do gerente da Cinnabon, Gene. Enquanto qualquer pessoa normal ficaria assustada após um alarme falso de ataque cardíaco, Gene, ou melhor, Jimmy, ficou aterrorizado que sua ida ao hospital levasse à descoberta de sua verdadeira identidade. Toda e qualquer coincidência, seja a presença de um policial na recepção do pronto socorro, a dificuldade da atendente em encontrar o registro da carteira de motorista de Gene ou ainda um taxista mal encarado com um penduricalho de Albuquerque no espelho retrovisor, foi suficiente para que Jimmy entrasse em pânico.
E isso nos leva a imaginar qual será o futuro que aguarda o personagem. Se o final da narrativa principal já nos é conhecido e sabemos que os acontecimentos ao longo da série levarão Jimmy a se tornar Saul e assinar sua total destruição ao envolver-se com Walter White, o futuro de Gene, ainda que provavelmente trágico, ainda é uma incógnita. Será que ele terminará sua vida na cadeia? Será descoberto por algum bandido de Albuquerque? Ou será que acabará morrendo do coração após alguma forte emoção causada por seu medo de ser encontrado?
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O que dá para perceber é que a vida em fuga é e sempre será um tormento para Jimmy. Até quando será que ele aguenta?
Observações adicionais
– Como já se imaginava, o plano de Nacho não deu certo completamente e assim Hector Salamanca permanece vivo, porém perdendo sua fatia do negócio para Gus Fring. Em princípio o personagem de Giancarlo Esposito parece preocupado com as conseqüências da ausência de Salamanca, porém se ele soubesse de seu próprio futuro talvez não tivesse prestado os primeiros socorros a Hector…















