Castle Rock vai de um extremo a outro, mas faz isso no melhor estilo Stephen King de ser.
Uma das histórias mais bacanas para se conhecer Castle Rock em sua essência é a que foi terrivelmente traduzida no Brasil para Trocas Macabras (Needful Things, no original). Essa foi a última história de King passada exclusivamente na cidade e é também a mais rica nos detalhes. Nela, uma nova loja é aberta no centro e o dono, o sinistro Leland, parece ter à venda tudo aquilo que os moradores mais desejam. O livro é longo e por mais da metade do tempo, King só faz preparar o leitor para o que vai explodir no fim. Os moradores são lentamente manipulados para que seus anseios com relação aos artigos da loja se tornem incontroláveis, enquanto Leland estuda atentamente as rivalidades e mágoas entre eles. É tudo minucioso e planejado, mas exige paciência.
Castle Rock, a série, parece querer fazer as coisas do mesmo jeito. Em seu quarto episódio, apresentou poucos avanços em seus mistérios, mas exibiu o resultado de uma longa preparação emocional e que explodiu num evento extremamente surpreendente e violento. É a máxima da trama entrando em ação: coisas ruins acontecem nesse lugar; e o estilo de King passa por essas repetições quase ritualísticas. Para reforçar um universo, uma atmosfera, é necessário criar referências e recorrências que “materializem” a ficção. Era como ele fazia em O Iluminado, por exemplo, quando a palavra Redrum surgia em todo tipo de contexto, apenas para nos informar que aquele era um momento de perigo ou um momento sobrenatural.
Os personagens do escritor também são construídos quase sempre com bases humanas atormentadas. Em 90% dos casos, enquanto vivem a história, eles precisam lidar com uma doença, com um trauma passado ou até mesmo com uma dor constante em algum membro do corpo. Isso é repetido várias vezes, até que se torna parte da mitologia e nos transporta mais facilmente para o universo proposto. Henry, o protagonista de Castle Rock, é um típico protagonista de King, com seu trauma, seu mistério, sua dor. Até então, Dennis soava como o outro tipo clássico do autor: a testemunha do mistério, afetada por ele, como bem vimos em A Espera de um Milagre, por exemplo. O estranho encontrado na prisão liberou uma energia densa e Dennis vinha há algum tempo sendo incapaz de ignorar o quanto aquilo o estava transformando.
As Caixas
The Box é um título que serve como metáfora para tudo que ronda a série. Pode ser o lugar na prisão onde o estranho foi encontrado, pode ser o lugar encontrado por Henry na residência de Desjardin, pode ser simplesmente uma ideia de lugar onde se guardam coisas, sentimentos, segredos, terríveis e latentes. Castle Rock não é só uma série de easter eggs e a relação entre trama, texto e trilha ajuda a compor os objetivos dramáticos. Dennis, por exemplo, começa ao som de Clap Hands e termina ao som de Crying, ambas canções que reforçam a trilha que ele percorre e que vai do delusional de que algo está mudando para melhor, até o descontrole, até ceder ao karma inevitável. Mais interessante fica porque desde que estreou, Castle Rock tem uma atmosfera atemporal e oscila entre a necessidade moderna e a ambiguidade de um passado sem recursos.
Ainda assim, temos alguns problemas na carpintaria do texto. The Box é um episódio cheio do hermetismo viciado das produções de mistério de hoje em dia. Os roteiristas complicam de propósito, fragmentam de propósito, causam uma sensação constante de confusão e por vezes isso atrapalha nosso envolvimento. Foi um episódio quase exclusivamente centrado na busca de Henry por respostas do próprio passado e essas respostas não vieram com a importância esperada. Soubemos que os Desjardins podem tê-lo mantido preso na propriedade e sabemos que Alan não continuou com as investigações porque o pai de Henry teria-o acusado antes de morrer. Para Alan foi Henry quem matou o pai, quando sabemos que quem fez isso foi Molly.
A ideia de que matou o próprio pai deixa Henry perdido e isso tem coerência com o que estamos vendo até aqui. Molly poderia resolver a questão num instante, mas sabemos que ela não fará isso. Henry não tem muita ajuda de nenhum dos lados… Alan o considera culpado, Molly lhe esconde a verdade e Ruth está mais interessada em falar de futuro. Quando ele decide abandonar o caso do rapaz da prisão é que o episódio chega no ponto principal: a reação de Henry ao assassinato do pai é coerente, mas quando ele avisa isso a Dennis e ele surta, não seria exagero dizer que isso foi simplesmente uma reação a achar que o estranho da cela era sua única motivação de vida? Ou na verdade Dennis não seria só mais um dos “amaldiçoados” pelo rapaz?
De fato, a sequência do surto de Dennis foi perturbadora. Em tempos de massacres acontecendo frequentemente em solo americano, a direção do episódio foi sábia ao “suavizar” o efeito dramático fazendo com que víssemos o que aconteceu pelas telas do circuito interno de TV. Foi inteligente e ainda assim teve impacto. A morte de Dennis era inevitável e também foi surpreendente. A prisão é notoriamente sinistra e tem um passado de eventos sombrios. Castle Rock adicionou mais um elemento mitológico de grande importância. Foi uma ruptura que provavelmente afetará tudo daqui para frente e que impactará Henry da maneira que o planejamento da série precisa.
> 3 SÉRIES IMPERDÍVEIS DA NETFLIX!
A um episódio da metade da temporada, o show tem feito um trabalho sensível na transposição dos métodos de Stephen King para a TV. Talvez melhor que qualquer outro seriado baseado em sua obra tenha feito até aqui.
Lost Pages
- O sobrenome Desjardins é familiar para quem leu The Body e Carrie. No primeiro o próprio Vince Desjardins fez parte da gang de Ace em The Body. Ace, aliás, também aparece adulto em Trocas Macabras.
- Já em Carrie é a professora da protagonista quem tem o sobrenome. Essa professora parece ter quebrado o karma de gente ruim na família. Ela era bacana com Carrie.
- Na sequência em que Molly tenta vender a casa de Lacy ela fala de um homem que se enforcou ali. É uma referência a Frank Dodd, de Dead Zone.
- Na mesma sequência há alguns balões na frente da residência. É inevitável não pensar em It.
- Há várias coisas escritas na cela do estranho da prisão e tentei pegar referências claras. Só encontrei uma pequena referência a The Reaper’s Image que não tem muita importância aparente.
- Na sequência em que Henry e Alan estão a caminho da mudança de local do corpo do pai de Henry, eles passam pela Maple Street, que é o título do conto A casa em Mapple Street.
















