Tudo começou dois anos atrás, com a narrativa criada em torno de Leo versus Bruna. Ele, o bom moço injustiçado e herói; ela, a cozinheira competente, mas megera. Na narrativa do bem contra o mal desenvolvida pela edição da terceira temporada, a vitória de Leo pôde, enfim, ser celebrada por boa parte do Brasil. O bem venceu o mal, como em toda novela com a qual estamos acostumados.
Com mais de 80% do público satisfeitíssimo, os responsáveis pela edição do MasterChef Brasil sentiram que encontraram sua mina de ouro, e repetiram a formuleta nas temporadas subsequentes. Seja mais comedido, seja mais escancarado, o padrão estava lá para quem quisesse ver, em Dayse x Marcelo, em Michele x Deborah e em Pablo x Francisco.
Eis que chegamos a Hugo x Maria Antônia, que também seguiu a mesmíssima fórmula. Hugo era bonzinho, generoso, de uma fofura ímpar; Maria Antônia era a bruxa (chegou a ser chamada por essa exata palavra por Jacquin), a megera, a que ri da cara da melhor amiga do herói quando ela está em apuros. Estava escrito nas estrelas: pela quinta vez consecutiva, o bem venceria o mal, e o Brasil sairia satisfeito de sua longa e exaustiva jornada, certo de que tudo o que Maria Antônia fez de vilanesco era unicamente responsabilidade dela, com zero provocação da produção e da edição para criar material que rendesse tal narrativa.
Era uma vez um plot twist

Mas, para a surpresa de 99% dos fãs que acompanham o reality há anos e passaram a temporada inteira cantando a pedra de que Hugo tinha a edição do vencedor e Maria Antônia a de finalista derrotada (eu era um desses), o choque veio. Maria Antônia, a vilã, saiu vitoriosa. Em algum lugar, Bruna e Deborah devem ter gritado de satisfação (no caso de Deborah, foi no Twitter mesmo). Com elas, gritaram os fãs da imprevisibilidade, da surpresa, do foco no que interessa: a culinária, que, em nome da audiência, havia sido substituída pela narrativa.
De nada adiantou a forçada de barra de Katleen, na qual Hugo acabou embarcando, para as câmeras. Bondade, generosidade e força para aguentar as adversidades são características muito louváveis, mas essa postura de encarnar o herói sofrido que está sendo atormentado por um grupo de vilões precisa ser rechaçada. O vício da edição em construir heróis para vencer para seu público parece já ter sido captado pelos participantes do show, que tentam construir sua própria narrativa vitoriosa. Os chefs, ao optarem por dar a vitória a Maria Antônia, deram fim ao ciclo vicioso que pôs o programa em sua trajetória de declínio.
Agora, claro, o show está pagando o preço: muita insatisfação e muita reclamação nas redes sociais, pois alguém tão grosseira e maligna como Maria Antônia não poderia de forma alguma vencer. Muitos ameaçam parar de assistir. Ameaças vazias, claro. Boa parte deles voltará, firme e forte, em busca do seu próximo herói, deixando o embate entre Hugo e Maria Antônia cair no ostracismo. Vida que segue.
Doce sabor
A quinta temporada de MasterChef Brasil teve um bom elenco e ótimos twists, já começando com o BANG! de Eliane ao vetar que Dálvio subisse ao mezanino, mesmo tendo sido um dos três melhores pratos. Lili quase foi a grande vilã da temporada, mas, como de praxe, perdeu o papel para Maria Antônia a partir do momento em que a edição se deu conta de quem chegaria à final.
Além de Eliane, outros excelentes nomes disputaram o título: o carismático Major Thiago, o esquentado Vinícius, a mocinha de bom coração Katleen, a competitiva Ana Luiza e o colírio Rui (que ganhou um número exorbitante de seguidores no Instagram graças à beleza de seus… pratos?) são alguns deles. Rita, cuja eliminação chocou, revoltou e entristeceu o Brasil, foi um caso à parte, pois parte do prestígio que havia conseguido angariar em sua participação acabou sendo perdido devido ao seu comportamento destrutivo na grande final. Não que Maria Antônia tenha feito um comentário bonito a respeito disso, mas esse desabafo “ameaçador” só significa que as tentativas de Rita de desestabilizar psicologicamente a finalista foram bem-sucedidas.

Em retrospecto, a quinta temporada do MasterChef Brasil foi, sim, uma ótima temporada, com provas interessantes e criativas (destaque para a reprodução da sobremesa criada por Pablo, vencedor do MasterChef Profissionais – quem teve a ideia dessa prova merece ser promovido!), e twists que incentivaram, sim, a competitividade e a visão estratégica da concorrência, mas isso faz parte do jogo, e é válido.
Que sejam criadas torcidas, e que o público desenvolva empatia e paixões pelos participantes é até necessário, eu diria. O que precisava acabar, e espero que acabe, é essa narrativa engessada de bem x mal, de herói x vilão, numa tentativa de transformar pessoas reais em personagens de novela com narrativa piegas. Pessoas têm camadas, e todos somos cheios de qualidades e defeitos. Que os defeitos sejam mostrados em um reality é normal; que os participantes sejam retratados de forma superficial e maniqueísta, não.
Aliás, me chamem de sonhador, mas, já que estamos compartilhando desejos para o futuro do programa, que passemos então a ser um público que pare de culpar mulheres por todos os males do mundo, a começar por parar de xingar Paola Carosella nas redes sociais por favorecer Hugo ou Maria Antônia quando muito claramente há dois jurados homens ao lado dela cujo voto tem exatamente o mesmo peso. Paola tem suas preferências? Certamente. Todos nós temos, e não é porque estamos no papel de jurados que deixaremos de ter. Mas Paola, Jacquin e Fogaça deixaram claro nesta temporada que sua tarefa de avaliar os pratos de uma competição culinária não se dobra às suas preferências pessoais, e é isso que importa na hora de atestarmos a ética de seu trabalho no programa.
Felizmente, a vitória de Maria Antônia quebra um padrão de temporadas a fio no MasterChef, e me enche de esperança de que, diante da rejeição do público, os responsáveis pela edição aprendam a fazer um trabalho mais interessante e multifacetado. Assim, poderemos voltar a ter torcidas legítimas e um público dividido, mas sempre deixando claro para todos os espectadores o foco no que importa: a capacidade dos candidatos a MasterChef de ser, enfim, um chef de cozinha.















