O espetáculo da punição para manutenção de um sistema.
Postpartum é um episódio um tanto atípico. Após a crescente do episódio anterior temos uma quebra para a retomada de assuntos inacabados que deveriam ter sido tratados antes. Se a imagem cíclica que tínhamos da série se fez presente por toda a temporada, permeada de altos e baixos pela figura de June, podemos dizer que esse décimo segundo episódio, mais uma vez voltamos ao ponto inicial, apesar da perceptível mudança de percepção da protagonista sobre si mesma.
June, finalmente, aprendeu a manipular as pessoas de Gilead, apelando para os sentimentos quando necessário, atrelando alianças que fez em ocasiões, dando conselhos descompromissados que são carregados de intenções… A hipocrisia se faz presente em um mundo que clama a verdade e a mesma inexiste. Como aceitar a simplicidade com a qual as pessoas fingem acreditar nas coisas dentro daqueles muros da falsa República? Waterford tem status, tem poder e agora tem a confiança das pessoas, crescendo, mesmo após erros consecutivos, simplesmente por ‘trazer uma criança ao mundo’. Dar a desculpa mais conveniente de que June saiu para passear, passou mal, teve contrações e um bebe numa casa abandona nas redondezas é tão infame que fica difícil acreditar a que ponto as pessoas chegam na manutenção de seus credos.
Não posso dizer que a decisão de retomar a história semanas após o nascimento de Holly me agrada, de fato, muita coisa fica mal explicada e, talvez, seja por isso que esse episódio pareça tão deslocado. Toda a situação de Nick foi resolvida em um diálogo e não fica claro exatamente como, apenas que foi devido ao poder de Fred dentro do status do governo. O mesmo se vale para Éden, que até então constituía em uma ameaça e foi reduzida a mero artifício de roteiro para chegar a um fim.
Sidney Sweeney merece menções por sua construção não tão clara da ingênua, porém crente, Éden. A garota seguiu o que lhe foi dito e perpetrada até onde conseguiu para, em seguida, escolher aquilo que lhe foi ensinado: amar a Deus e seguir seus ensinamentos, com verdade e obediência. A garota foi empurrada para um casamento com um homem que não a amava e não fez a mínima questão de lhe dar uma gota de compaixão, foi hostilizada desde o primeiro momento por todos por ser fruto do mundo que foi construído diante de suas ruínas, como bem pudemos ver em suas interações com June e Rita ao longo de toda a temporada. Essa repulsa ao que Éden era como pessoa, como prova viva de uma sociedade violenta como Gilead traz o questionamento principal: nós somos fruto do ambiente no qual somos criados?
Morrer por amor, de forma tão brutal, seguindo aquilo que lhe foi ensinado foi o maior alerta para as mulheres de Gilead: vocês não tem vez, vocês não tem voz; parafraseando James Brow em It is a Man’s Man’s Man’s World, esse é um mundo dos homens! Éden teve um entendimento único dos ensinamentos que lhe foram passados, sua lógica era de que se Deus amava a todos, o que ela fazia de errado em seguir o amor com um outro jovem que, finalmente, havia lhe dado aquilo em retorno? Mas para Gilead, a manutenção de um sistema onde a violência é a base travestida de misericórdia, onde a humilhação é constante, obviamente que jamais passaria impune.
As reações ao assassinato frio de Éden foram, sem dúvida, o ponto alto desse deslocado episódio, finalmente colocando em perspectiva o ponto de ruptura de tudo o que é vendido como certo dentro daqueles muros. Abre a repercussão, abre a alteração de status dos personagens, mas frustra pela facilidade e o simplismo que foi colocado ali. Éden merecia mais e foi sim sacrificada como artifício para que a trama se movesse.
Focando em June, ela volta para casa, volta para Nicohle (rebatizada por Serena) devido ao leite secando pela separação. A recusa inicial de Fred cai por terra em primeiro momento ao ver que pode ter o que quer: a Aia e a esposa, a filha que lhe faz crescer na popularidade e poder, entrando mais uma vez na manutenção de seu status.
Serena, como é bem de se imaginar, focada em seu amor pela criança não gosta nada, mas aceita, pois sabe que, por mais que lute, não terá como fugir disso afinal, seu poder é limitado. Passamos então pelo cotidiano, pela frustração dos personagens com aquela situação, com pontos já apresentados e que apenas se repetem no ciclo.
A única mudança verdadeira é Nick que se vê e sente responsável pelo ocorrido a menina Éden, dividido entre a derrubada daquele sistema opressor e a segurança, opta por manter-se focado no objetivo, executando sua tarefa e mantendo a lealdade inabalável que deseja que Waterford tenha nele. Nick controla Fred, nunca foi o contrário, por mais que o Comandante pense que assim o é.
Nesse penúltimo episódio tivemos também o quão dilacerante é para Serena ter a pequena em seus braços. O amor que ela tem por aquela criança é pulsante, é latente, seu desejo de ser o que nunca conseguirá é tão forte e sua preocupação tão extrema que ela se vê, mais uma vez, perdida dentro de si, destroçada e dando de mamar, querendo uma sensação da qual não pode usufruir. A dualidade dessa personagem é chocante ao perceber que, por mais imoral que ela venha a ser em suas decisões, não se importando com o quem ou o porquê, estamos num ponto em que suas decisões questionáveis são cobertas com momentos ternos e jogam com o espectador entre quais os limites do que somos capazes de fazer por quem amamos.
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Por fim, vamos falar de Emily, a Aia ‘agouro de morte’, reduzida a ser considerada uma ameaça após a morte de seu Comandante e recusada por 4 casas. Tia Lydia sabe tem uma ótica deturpada da verdade, mas busca o bem daquelas mulheres, mesmo compactuando com estupros, mesmo sendo o arauto de convencimento de uma sociedade disfuncional, ela realmente acredita que faz o bem e que os resultados são benéficos. Não acredito que Emily tenha ido parar por acaso na casa do Comandante Joseph nem por um segundo. Um local desarrumado, repleto de cor, de som… de vida como não se vê em Gilead. As intenções não ficam claras de cara, mas em verdade digo que, faltando apenas um episódio para o fim da temporada, essa inserção foi tardia para um desenvolvimento pleno de personagem.
Falta apenas um episódio e as consequências dos feitos de June, Fred, Serena e Emily estão a todo vapor. Aonde isso vai nos levar? Apenas o décimo terceiro episódio nos dirá com certeza.
NOS MUROS DE GILEAD:
I – Estranho notar a escolha de Serena para o nome da criança, Nicohle me remete muito ao pai Nick, seria coincidência?
II – A ferocidade de June não se apaga mais, depois de tantas idas e vinda e sofrimento, ela endureceu e não retrocede, vide a cena do bolo. June abaixa a cabeça, mas deixa claro o motivo de fazer isso.
III – O momento da amamentação de Holly/Nicohle com suas duas mães foi lindo demais, ainda mais sabendo toda a conturbação do ocorrido.
IV – Fred é o ser mais desprezível desse Universo e Joseph Finnes merece créditos por essa construção assustadora e realista de um abusador obcecado pelo poder.
V – Interessante notar que os dois bebês que nasceram em Gilead sob nossos olhos foram meninas, não?















