Pose chega ao meio de sua temporada com um episódio que estuda a dura realidade de um vírus e de um vício.
Há apenas alguns dias atrás Ryan Murphy recebeu um prêmio honorário pelo conjunto de sua carreira de grande apoiador das minorias e das mulheres. Seu discurso continha dados importantes, como o fato de ter 60% de mulheres, negros e gays em sua Iniciativa Half, trabalhando pela indústria do entretenimento, num movimento que abraça os excluídos de uma forma impossível em anos anteriores. Ele falou longamente sobre ter sido rejeitado muitas e muitas vezes. Falou sobre empregar pessoas acima dos 40 e sobre levar ao mainstream o que antes só poderia ser “nicho”. Para entregar-lhe o prêmio estavam no palco duas atrizes que fazem parte do elenco de Pose.
The Fever, o episódio que constitui a metade da temporada de estreia do show, tinha ido ao ar dias antes e é uma espécie de síntese do que Ryan disse no discurso. Por quatro semanas, a série não se maquiou de sua proposta e enquanto cada vez mais se comunica com seu público direto, também desbrava e cavuca seu lugar nas perspectivas da audiência como um todo. Pose quer ser vista pela maioria, ainda que fale sobre a minoria. E qualquer olhar mais atento vai poder conferir como o drama humano escorre em abundância de qualquer boa história que se tenha para contar.
Os objetivos específicos do programa são muito honestos com a gênese de sua criação. Se o cenário é a comunidade LGBTQ da Nova York dos anos 80, vamos falar então sobre o que essas pessoas viviam de verdade: a ocorrência assustadora e mortal do HIV, as dificuldades de estabelecer laços afetivos, a busca pela feminização do corpo, as dores físicas e as pancadas emocionais. Está tudo ali, cru e claro. Sem esquecer que há um objetivo geral, que é a educação de plateia diante de tópicos que até hoje ainda desconcertam os setores dominantes da sociedade.
Category Is… “Angry” Black Woman Realness
Curiosamente, esse episódio de Pose aconteceu também durante os efeitos das últimas duas semanas de RuPaul’s Drag Race, quando uma série de polêmicas raciais colocou em dúvida a credibilidade do show. Vixen, uma participante temperamental, falou durante sua estadia na competição, sobre como a edição tentava usá-la para reforçar o estereótipo da “angry black woman” que sempre vira a vilã desse tipo de competição, enquanto participantes brancas são sempre perdoadas pelas mesmas razões. A presença de Vixen ali levou a um longo debate sobre o quanto a história do racismo velado dentro da nossa cultura, contribuiu para esse tipo de comportamento tão defensivo.
Começamos The Fever com um tipo de Vixen. Aqui, no caso, ela se chama Candy e com um senso de pura anarquia, burla regras, não escuta e sai humilhada; decidindo-se logo em seguida, a fazer o que fosse necessário para provar seu ponto de vista. Não por coincidência, ela está junto com Angel na maioria desse enredo, porque Angel, assim como Candy¸também acha que precisa transformar algo para ser aceita. As duas querem um troféu. E ambas também reagem com agressividade ao menor sinal de rejeição. Da mesmíssima forma como Vixen agiu na Drag Race, elas lutam, gritam, berram, agridem, quando a possibilidade de rejeição bate à porta, porque foram educadas pela vida a se defenderem da hora que acordam até a hora que vão dormir. Um descontrole contextualizado, mas que infelizmente vão jogando-as no abismo cada dia mais. É como um vício comportamental insuperável e terrível. E que é culpa nossa… Completamente nossa.
Indya Moore desliza sempre linda pelas cenas, mas consegue construir uma Angel que oscila entre sensualidade, infantilidade e descontrole de formas sutis e interessantes. A discussão com Stan era seu “resultado febril”, um grito apavorado de alguém que não tem a menor ideia de como vencer a inevitabilidade da rejeição. E ela faz o caminho proporcionalmente oposto ao de Elektra, que está disposta a perder para se afirmar. Muito bom ver Elektra vulnerável, humana, na ótima cena com Christopher Melone (que eu sempre quis muito que trabalhasse com Murph).
Category Is… Be Positive Besides Positive
A outra face dramatúrgica desse episódio deu mais voz a Pray Tell, que defendido por Billy Porter já é um dos personagens mais interessantes da TV. Assim como com Elektra, ele tem uma persona expansiva e altiva nos bailes, mas vive e revive suas mazelas emocionais de maneira latente. Ele e Blanca partilham o HIV em segredo, numa época em que a vergonha também acompanhava a certeza da morte. O roteiro, contudo, faz um movimento certeiro ao escolher fazê-los enfrentar a ciência da sorologia como forma de incitar os jovens, mesmo que muito medo e dor estejam por trás desse simples saber.
Todo o discurso positivista é calculado e escapa do clichê jogando nos atores a responsabilidade de tornar tudo quente. E eles não decepcionam. A Febre (que também é o sintoma clássico dos que vivem com o vírus) toma cada um dos personagens em forma de anseio, de paixão. Elektra estava febril quando abriu mão de seu relacionamento de anos, Angel estava febril quando engoliu Stan numa conturbada mordida emocional e Candy, Damon, Pray Tell, todos estavam febris quando foram atrás de adequação e autoconsciência. Uma coisa bonita mesmo de se ver.
Há algum tempo atrás, tive um acidente numa transa e temi o contato sem preservativo resultante desse pequeno acidente. Resolvi fazer o PEP, que consiste em tomar um coquetel de medicamentos por 28 dias, a fim de impedir a reprodução do vírus HIV, que mesmo que entre no corpo, demora entre 24 e 48 horas para se espalhar na corrente sanguínea. Se ele não chega aos gânglios linfáticos ele morre. O coquetel, se tomado até 72 horas depois de uma relação de risco, pode matar o vírus antes que ele se dissemine.
Por 28 dias, então, você ingere um combinado de pílulas que é muito parecido com o que uma pessoa infectada toma. O teste é feito antes do começo do tratamento e mais uma vez, um mês depois, para que você confirme que ele foi eficaz e você não contraiu o vírus. Estamos em 2018 e a vida com o HIV é possível a longuíssimo prazo, a ponto de não dizer-se mais “tenho HIV”, mas sim “vivo com o HIV”. Porém, os temores culturais sobre o vírus são tão intensos que o medo de contraí-lo está estabelecido nem que seja pelo tanto de julgos comportamentais que se fazem a partir dele. Imagine na década de 80, quando ter o “câncer gay” era o mesmo que assinar uma sentença de morte?
> WESTWORLD é uma série complicada? \W/
The Fever encerrou a primeira metade da primeira temporada de Pose com o mesmo otimismo que Ryan Murphy disse buscar em toda a sua obra. Viver, intensamente, com júbilo, mesmo que pouco, mesmo que menos do que você gostaria. E essa é a premissa que torna essa história ainda mais comovente, porque mais do que viver, aqueles personagens fabricam a beleza. E somos nós, agora, no século 21, que podemos “comprar” essa mágica que eles produziram, num tempo de tempestades que ainda bem, não foram capazes de impedir a cor e a arte.















