Emocional episódio de Westworld sublinha a inusitada escolha de aperfeiçoamento dos criadores.
Uma das grandes ambiguidades de Westworld sempre foi a forma como ela lida com profundidade emocional numa dramaturgia que é dominada por androides, essencialmente. A ideia de que o parque acorda o que existe de “real” no senso primitivo humano proporcionou aos criadores explorar a dinâmica conceitual do “o homem é frio e cruel e são as máquinas aquelas que se tornam capazes de demonstrar afeto”. A questão da emoção aqui é muito importante, porque ela vem sendo usada na série como signo maniqueísta. Todos os humanos parecem horríveis e todas as máquinas soam como vítimas. O episódio dessa semana reforçou essa ideia ao extremo, concluindo que essa é uma história sobre o homem (essa criatura terrível), que foi capaz de produzir um semelhante melhor que ele, o que não deixa de ser ligeiramente egocentrista.
É sintomática a maneira como os criadores do show parecem já ter escolhido seu lado nessa guerra. Os seres humanos são violentos e cruéis por escolha, as máquinas o são porque são programadas. E em forma de texto ou de técnica visual e sonora, os episódios costumam sublinhar muito bem o quanto eles se tornam vítimas por conta disso. É uma questão de perspectiva, não se trata de ser errado ou não. De fato, não é. Westworld não é imparcial, ela tomou uma decisão filosófica e se mantém nela com mais força conforme o tempo passa. Numa temporada sem muitas brechas para mistérios incessantes, os roteiros têm precisado ir dentro dos impulsos emocionais e por causa disso, esses posicionamentos ficaram mais claros.
Eu já repeti isso algumas vezes, mas vou reforçar: a dramaturgia de Westworld se vende como uma dramaturgia dada a complexidades e por conta disso a análise precisa ser mais rígida. Destrinchar seus pormenores não é o mesmo que invalidar sua qualidade. Seria loucura dizer que a série é uma série ruim, porque de tudo que está na TV, Westworld tem um dos trabalhos técnicos mais apurados. Mas, proporcionalmente falando, o exercício analítico é uma resposta a tudo que ela vende enquanto entretenimento intelectualizado. Numa temporada sem muitos mistérios para resolver, com uma estrutura narrativa cada vez mais parecida com a de Lost e que se arrisca em storylines muito passíveis de serem chamadas de filler, a série também se coloca em posição de julgamentos mais severos. Tecnicamente ela é impecável, mas as informações realmente relevantes para o andamento da história são cada vez menores.
The Memory Remains
Outro grande recurso usado pelo show desde seu começo foi correlacionar memória com humanidade. Os roteiros sempre usaram isso para reforçar as diferenças entre anfitriões e visitantes. É curioso, porque os visitantes chegam ao parque para esquecer suas próprias vidas, enquanto os anfitriões se debatem para lembrarem-se de tudo que os constitui. Cada vez mais, a tristeza cortante de não ter mais o direito à memória, se torna a grande força emocional da série. E foi através dessa ideia que a história de Akecheta foi apresentada ao público, numa decisão inesperada de aprofundar um personagem que sempre esteve na base da pirâmide do show. Mesmo Hector, que não aparece há semanas, tem um nível a mais de participação até mesmo na nossa memória (que ironia dizer isso). Essa foi a grande surpresa que o episódio nos reservou.
A ideia de surpreender a audiência com um episódio todo focado em um personagem, na forma de um longo flashback, é velha conhecida dos fãs de Lost. O recurso foi usado da mesmíssima forma, adentrando o passado do personagem através de uma conexão afetiva e usando esse passado para dar alguma resposta ao público seja sobre o próprio personagem ou sobre a mitologia. Ao final, uma surpresa precisa encerrar o trabalho do dia. Sei que falar sobre essas semelhanças pode aborrecer aqueles que querem considerar Westworld a grande reviravolta dramatúrgica da televisão mundial, mas ignorar que ela apenas está reproduzindo métodos seria negligência. Ela o está fazendo de forma muito competente, mas está (e todo mundo faz isso). A história de Akecheta ainda é bela e muitíssimo triste, mas representa um momento de refração para o show.
Akecheta ser o personagem a ganhar a lupa narrativa pareceu muito correto, sobretudo quando o roteiro voltou aos eventos da primeira temporada, contextualizando o símbolo do “labirinto” com o universo tribal do show. A coisa toda do escalpo não deixa de ser mitológica e ao sabermos como o labirinto começou a ser “tatuado” nos membros da nação fantasma, fomos transportados para um bem-vindo senso de continuidade. O roteiro foi atencioso com relação a isso, não podemos negar. A trajetória de Akecheta passou pelo labirinto, pelo passado de Maeve, pela sala de controle e pelos dois momentos de massacre do parque. Um que eliminou Arnold e o outro que eliminou Ford. Em ambos os casos, Akecheta fez interpretações míticas adequadas ao meio onde estava inserido e numa análise direta, esses foram momentos que apesar de não oferecerem avanços dramatúrgicos, compõem um quadro de planejamento seguro.
No encontro com Ford, o protagonista da semana ganhou sua cena enigmática recorrente. Dramaturgias como a de Westworld sofrem dessa síndrome. As conversas não podem ser diretas, tudo tem que ser cifrado e aqui não foi diferente. Contudo, não há nenhum avanço significativo para o arco principal. A aparição de Ford, assim como a descoberta das salas de controle, foi usada no roteiro muito mais como elemento passível de metaforização, para ser chamada de porta, outro mundo, deuses… Nem mesmo a “surpresa” final – a de que Maeve era a pessoa para quem ele contava a história – tem real importância para o que está por vir. Chamar um episódio como esse de filler me faz sentir injusto, porque ele é muito bonito. Mas, por definição, ele é um filler. Se não tivesse existido, não teria sido requisitado.
Enfim, discutir a “necessidade” de uma narrativa é algo extremamente enfadonho. A necessidade de uma narrativa – seja ela qual for – é simplesmente ser narrativa. Esse é um episódio que não avança em informações, mas que avança em apelo emocional. Akecheta ter ficado quase dez anos evitando a morte para não ser resetado (e com isso esquecer da amada) foi realmente triste. Foi um pedido silencioso para o universo, desesperado, de um homem apaixonado. A conclusão derradeira? Dolores busca pelo pai, Maeve pela filha, Akecheta pela amada… Anfitriões que são guiados pela memória de uma emoção, enquanto os seres humanos surgem como animais selvagens que não são parados nem pela lembrança mais terna. O maniqueísmo continua vigente em Westworld, junto com uma definitiva visão pessimista da humanidade.
> ATLANTA, dica de série imperdível
Westwords: O que mais me emocionou nesse episódio não foi a jornada de Akecheta. A reação de Lee ao ver o estado de Maeve tomou apenas alguns segundos de tela, mas me trouxe lágrimas aos olhos.
Westwords 2: Grace disse que o castigo que ela dará ao pai será pior que qualquer coisa que a Nação Fantasma faça. O que será?
Westwords 3: Belíssima iniciativa de fazer quase todo o episódio ser falado em língua nativa.















