Centralizado em James Olsen, Supergirl tenta colocar relevância nas identidades secretas, em The Fanatical.

Quando estava sendo exibida pela CBS, em sua primeira temporada, Supergirl sabia exatamente como dosar a vida dupla de Kara Danvers. Bem dividida entre dois núcleos completamente diferentes, DEO e CatCo, a série demonstrava exatamente as nuances entre heroína e mulher “comum”. Com a mudança para a CW, seguindo o padrão do restante do Arrowverse, Supergirl deixou de tratar sua personagem como uma divisão entre duas personalidades. Hoje, apenas a heroína existe. Claro, Kara ainda aparece para dar as caras na CatCo, mas sejamos honestos, quem ainda se importa com aquele lugar? Bom, The Fanatical é um episódio que força a premissa, mas em cima de outro personagem, James Olsen, e se não estava funcionando com a protagonista, imagina com um personagem que nem é tão popular com os fãs?

Trazendo de volta a presença do culto de adoração a Supergirl, agora direcionado a Régia, The Fanatical existe apenas para salientar quão perdida a série está, atualmente. Retirando o foco da Destruidora de Mundos, mas ainda com a imagem viva, o décimo nono episódio fez uma excelente escolha. Ao optar por trabalhar a questão da identidade secreta, enquanto ainda fala sobre sua vilã central, o foco, usualmente perdido entre várias instâncias, pareceu ter sido encontrado pelo time criativo da série. Mas então por qual motivo eu chamei a série de perdida? Bom, tão próximos do final não me parece muito coeso dedicar um episódio para o Guardião, desenvolver outras temáticas e ainda propor uma viagem para o espaço, enquanto trabalha Ruby e M’rynn jogando pebolim. E com a vilã cada vez mais acuada e apenas mais 4 capítulos, eu me pergunto o que estão planejando com o pouco tempo que resta.

James Olsen é um personagem que nunca funcionou bem com nenhuma personagem feminina da série. Lucy, Kara, Lena, a verdade foi apenas uma: o ator não tem química para tensão amorosa. Pensando por esse lado e seguindo a regra básica de que todo mundo, em uma série de super-heróis, terminará colocando um uniforme cedo ou tarde – até a Felicity de Arrow já colocou máscara e sobretudo de couro em um mundo paralelo – James ganhou a alcunha de Guardião. E por Rao, que sofrimento foi a história do fotógrafo que virou herói enquanto tentava ser CEO de uma empresa de mídia. Felizmente o episódio da semana conseguiu superar algumas barreiras, mas ainda falhou com o personagem. Novamente, por causa da idealização da identidade secreta, um fator que já não funciona em Supergirl, porque ninguém se importa.

Kara anda livremente pelos corredores do DEO com suas roupas civis. O mesmo vale para James. É impossível conceber que para proteger sua identidade, você irá confiar cegamente em pessoas que mal conhece. Lembra quando o M’rynn usou seus poderes telepáticos e deixou todo mundo do DEO bem doido? O que impede de um vilão entrar lá dentro e descobrir a identidade de todo mundo? O que impede um dos funcionários de se rebelar e espalhar o nome da Kara, James e Mike (Mon-El) para a imprensa? Obviamente Supergirl nunca pensou em lidar com esse assunto, mas continua tratando a identidade secreta de seus heróis como um bem muito precioso.

O grande problema com a identidade secreta é que este fator funciona muito bem quando estamos lidando com um elenco mais reduzido, como o de Raio Negro, por exemplo. A interação humana que existe fora do uniforme perde qualquer necessidade de um núcleo externo, quando você tem outros cinco personagens de prontidão. Como Supergirl se relaciona afetivamente com pessoas que dividem a mesma “paixão” que ela, não existe porque a série tratar um ambiente que não seja o DEO. O mesmo vale para Arrow e Flash. Ambos os heróis operam com uma quantidade gigante de coadjuvantes que sabem de suas identidades secretas e participam do mesmo grupo. A diferença, neste ano, foi a profissão de Oliver Queen como prefeito, que forçou o roteiro a dedicar considerável atenção para o lado humano do personagem – e mesmo assim o resultado foi limitado. Supergirl e Flash fingem que lidam com esse assunto, mas nunca entregam algo competente quando tentam.

Então, quando a série escolhe uma temática relevante, conversando sobre a questão racial de um herói, que é respeitado apenas por não ter “cor”, mas mistura o assunto com uma carta que ninguém mais valoriza, o que eu vejo é falta de foco. Supergirl precisa de histórias mais humanas, precisa dividir seu elenco entre herói e civil, é através destes elementos e dessa divisão que as melhores histórias da produção já foram apresentadas. Lembra da Alex e da Maggie, uma narrativa que começou graças ao DEO, mas que ficou tão humana e privada, que excedeu expectativas? Lembra quando a Kara começou a trabalhar com o Snapper no CatCo, mostrando seu lado jornalístico? Bom, tudo isso já morreu. O que temos hoje é muito DEO, pouco CatCo e uma insistência na identidade secreta que ninguém mais se importa. E a Lena que teve um arco comprando o CatCo? Alguém ainda lembra?

A trama de The Fanatical ainda toma um caminho bem mais longe, quando opta por colocar Mon-El e Supergirl em uma nave, em direção ao desconhecido, para localizar uma pedra que poderá impedir a Destruidora de Mundos, que estava em um livro o tempo todo – livro esse que ensinava a criar Destruidoras como a Ana Maria ensina a fazer brigadeiro de abóbora. Lentamente Supergirl está adicionando elementos religiosos a sua trama, o que não seria nenhum problema, se o pedido de fé já não estivesse maculado por decisões estranhas e temáticas sem graça. Faltam apenas três episódios para o season finale e eu não tenho a mínima ideia do que a série irá fazer até lá. Geralmente o fator surpresa é algo bom. Em Supergirl tem sido um sinal de falta de coesão.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorO Mecanismo é renovado para a segunda temporada pela Netflix
Próximo artigoThe Good Fight 2×13: Day 492 [Season Finale]
supergirl-3x19-the-fanaticalCentralizado em James Olsen, Supergirl tenta colocar relevância nas identidades secretas, em The Fanatical.