Chapter X segue um caminho diferente de seus antecessores e entrega um episódio anticlimático para o final do V. 2 de Cara Gente Branca. Ao focar em diversas tramas simultâneas, o último capítulo pareceu corrido e acabou não entregando as resoluções esperadas. Com apenas 35 minutos de duração, ele se propôs abordar vários temas discutidos durante a temporada, deixando um sabor agridoce.

Comecemos pelos casais formados pela série. Enfim, Reggie e Joelle, Sam e Gabe, parecem ter chegado a um acordo. Depois de idas e vindas, e do excepcional Chapter VIII (não cansarei de dizer isso), Sam e Gabe se resolvem e estão juntos novamente. Reggie e Joelle saíram do platonismo e partiram para ação. Confesso que fiquei incomodada com a resolução rápida para esse casal. Reggie sempre aparentou gostar muito de Sam e se declara pra Joelle afirmando que ela sempre foi o seu objetivo? Foi uma resolução fácil do roteiro, porém gostei de ver os dois juntos, enfim. Por último, temos Wesley e Lionel. Aparentemente, eles estavam se entendendo, no entanto, uma declaração contra a monogamia de Wesley, deixou Higgins extremamente inseguro. Algo completamente natural levando em conta o passado do rapaz. Um casal inesperado se formou com Coco e Kurt… Confesso que por essa eu não esperava, vamos aguardar mais dessa interação em uma possível nova temporada.

Em outra ponta, temos uma agitação latente no campus com a chegada de Rikki Carter (Tessa Thompson). Depois do cancelamento de Carson Rhodes, Carter é trazida para dar uma palestra com o aval do horripilante Cara Gente de Direita. O objetivo da Convenção Negra é sabotar a palestra e todos os grupos se reúnem com esse propósito. Uma das cenas que fez minha espinha arrepiar (não de um modo bom) foi a dos guardas do campus tratando de maneira pejorativa a possível manifestação dos jovens negros. Tudo piora quando o reitor Fairbanks entrega a demissão do guarda Ames (o mesmo que sacou a arma para Reggie no 1×05). O tratamento desdenhoso dele e a informação de que ele iria para polícia fez meu sangue ferver de raiva. A punição não veio da forma esperada.

Cabe a Sam confrontar Rikki Carter antes da sua palestra. Em um diálogo cheio de simbolismos, Carter afirma que faz o que faz para conseguir seu lugar ao sol e joga Samantha contra a parede, fazendo-a repassar muitas de suas posturas, como por exemplo, a continuidade do programa de rádio Dear White People. Para a surpresa de Carter, Silvio e os Jovens Republicanos de Winchester, a Convenção Negra se organizou e adquiriu todos os convites para participar da palestra deixando todos com a cara de tacho. Confesso que adorei essa situação.

Para fechar as tramas principais desse episódio, temos Samantha e Lionel investigando as sociedades secretas de Winchester. De posse do livro encontrado na casa de seu pai, Sam está convencida que existe uma sociedade secreta formada por negros com o objetivo de melhorar a situação dos negros da universidade, a Ordem do X. Seguindo as pistas que encontraram, os dois acabam chegando em uma antiga rota criada por ex-escravos embaixo da Casa Armstrong-Parker, porém não encontram nada. Pontuo aqui uma coisa que me chamou a atenção nesta trama. Todos nós buscamos sentido na vida e um lugar, um grupo para chamar de nosso. Por isso, a frustração dos dois ao não encontrar nada é totalmente compreensível. A grande surpresa vem no aparecimento de Giancarlo Esposito (ator que deu voz ao narrador da série, nas duas temporadas). Utilizando a seguinte frase: “vejo que vocês têm prestado atenção”, o episódio se encerra deixando todo o arco da Ordem do X para próxima temporada. Será que ela existe mesmo? Se sim, quem será o personagem de Esposito?

Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:

– Além de todas as tramas acima, tivemos Al e um grupo mais radical tentando roubar as filmagens da noite do incêndio na Casa Davis. Tudo para descobrir que Clifton acabou colocando fogo na casa por puro descuido. Foi bom perceber que nem tudo foi parte de um plano mirabolante. Acidentes acontecem.

– Por falar em Clitfon, ele aparece em dois momentos nada engraçados. Ele chama Kelsey de Coco e a Sam de Kelsey. Cara Gente Branca aproveitou o momento para criticar a ideia preconceituosa de que “todos os negros são iguais”.

– Troy continua tentando se encontrar. Ele produziu charges e apresenta para Kurt postar no Pastiche. Aparentemente seu caminho será de um ativismo mais pacifico ligado à comédia. Aguardemos.

– Não poderia deixar de citar, Sorbet. A cadela apareceu em momentos cruciais dos episódios e dessa vez não foi diferente.

– Personalidades afro-americanas citadas no episódio:

  • Huey Newton: revolucionário norte-americano, co-fundador, líder e inspirador dos Panteras Negras
  • Medgar Evans: ativista afro-americano do Movimento dos Direitos Civis do estado norte-americano do Mississippi
  • Barack Obama: advogado e político norte-americano que serviu como o 44.º presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo. 

Considerações Finais – Por Sthefani Cordeiro:

Cara Gente Branca encerrou seu segundo ano de maneira consistente e sólida, aprofundando as discussões em torno do racismo e com episódios magistrais (estou falando de vocês, Chapter VIII e IX). Mesmo com um episódio final cheio de tramas, tornando as coisas um pouco atropeladas, o balanço geral foi extremamente positivo. Ao dar voz as suas personagens coadjuvantes, a série ganhou dinamismo e profundidade.

Foi um prazer imensurável fazer essa cobertura com a minha amiga Vera Tocantins. Ela é o exemplo de mulher negra que objetivo ser. Forte, decidida, engajada e inteligente. Fazer parte do seu círculo de amigos é um presente para mim.

Obrigada a todos que acompanharam essa cobertura e até a próxima! 

Considerações Finais –  Por Vera Tocantins:

Falei no texto da première que a segunda temporada de Cara Gente Branca tinha  em suas mãos três desafios extremamente difíceis: a) diferenciar opinião pessoal de liberdade de expressão e de discurso de ódio; b) continuar sendo relevante mantendo o foco no seu tema principal, contudo, sem apelar para a repetição das circunstâncias ou para as saídas fáceis de roteiro; c) dar o devido destaque aos personagens que deveriam ser coadjuvantes, mas que ganharam vida própria no decorrer da primeira temporada. Agora que chegamos ao final da citada temporada, me sinto à vontade para avaliar a segunda temporada de Cara Gente Branca sob a perspectiva dos três aspectos elencados a priori.

Para início de conversa, esse show conseguiu estabelecer de diversas formas um ótimo parâmetro para diferenciarmos o que é opinião pessoal e o que se constitui liberdade de expressão. Através dos discursos de personagens como Silvio, que se utiliza da sua opinião pessoal carregada de ódio e de ressentimento para descaracterizar Sam no campo da pessoalidade; através da narrativa construída para o personagem P. Ninny (vivida pela excelente Lena Waithe),  uma MC presunçosa do fictício programa de televisão baseado em Empire, que usa a sua notoriedade para destilar o seu incomodo por se sentir preterida por causa da sua orientação sexual; através da pseudo liberdade de expressão formatada por Rikki Carter, que viu na postura conservadora e no discurso polêmico uma chance de galgar espaço midiático e construir um reinado; através dos questionamentos propostos pelo ativista Carson Rhodes, que flerta com ambas as situações e se coloca como alvo para os detratores. A própria Samantha White, vítima do uso errôneo da liberdade de expressão, também se confunde em alguns momentos quando faz o seu discurso ao pesar as nuances entre um extremo e outro.

É inquestionável que Cara Gente Branca ainda consegue ser uma série relevante, sem ser repetitiva, mesmo que o seu foco seja o mesmo apresentado na sua temporada inaugural.  A segunda temporada do citado show ainda está dentro do mesmo ambiente, ainda trabalha as mesmas circunstâncias, envolvendo os mesmos personagens – apesar da inserção de 2 ou 3 novos personagens -, mas algo está diferente, já que a diversidade de personagens foi atingida pelo mesmo acontecimento de formas diferenciadas. Aí entra em cena a não repetição do padrão apresentado na primeira temporada, já que agora todos os personagens estão quebrados e perdidos, em busca de autodescobrimento e redenção. Todas as certezas que Sam e a sua turma tinham foram lançadas por terra, a bandeira que eles defendiam foi metaforicamente queimada e o ideal perdeu a sua coloração, restando apenas um fragmento irreconhecível e descolorado. Palmas para Cara Gente Branca por mostrar a sua relevância ao trazer para pauta temas como aborto, sistema de cotas, homofobia, discurso de ódio, seletividade racial, feminismo, misoginia e tantos outros temas que precisam ser debatidas pela sociedade contemporânea.

Cara Gente Branca conseguiu o feito de conceder o devido espaço dentro da sua narrativa para todos os personagens que julgávamos achatados e sem voz na primeira temporada. Foi muito interessante acompanhar os capítulos e ver o desfile de personagens e situações que nos fizeram rir e chorar, que nos levaram a reflexão e ao questionamento e que nos fizeram mudar de opinião e repensar as nossas próprias convicções e posturas. Confesso que ao perceber que teríamos capítulos direcionados aos coadjuvantes eu tive receio que a trama perdesse a sua força, que o discurso ficasse truncado e que Samantha White fosse engolida pela diversidade das narrativas propostas. Mas, felizmente, eu estava enganada e o show acertou em cheio ao sustentar a proposta de vermos os acontecimentos pretéritos e os formatados para o momento presente sob a perspectiva dos seus coadjuvantes, que na verdade sempre tiveram a força de protagonistas também.

Vencendo os três desafios propostos com mais acertos que erros, Cara Gente Branca, nos entregou uma excelente segunda temporada, conservando o fôlego para uma possível terceira temporada, caso a Netflix não a cancele. O show nos mostrou que essa nova forma de encenar uma comédia dramática inteligente, quebrando a quarta parede ao final de cada capítulo, entregando um humor crítico e ácido é viável e talvez a melhor forma de tocar em pontos tão sensíveis mesmo dentro de um produto comercial de entretenimento.

Agradeço imensamente a maravilhosa Sthefani Cordeiro pela parceria na construção dessas 10 reviews carregadas de significados, de história pessoal, de anseios e da certeza que é possível construir um mundo melhor, com menos ódio e mais amor. Gratidão ao Michel Arouca pela possibilidade de exercitarmos aqui no SM a nossa respeitosa liberdade de expressão. E a minha imensa gratidão a todos que se dispuseram a leitura dos nossos textos. Nos veremos na terceira temporada de Cara Gente Branca, caso a Santa das renovações nos ajude!

REVISÃO GERAL
Nota:
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cara-gente-branca-2x10-capitulo-x-season-finaleChapter X segue um caminho diferente de seus antecessores e entrega um episódio anticlimático para o final do V. 2 de Cara Gente Branca.