O drama do canal americano FX inicia sua temporada final de forma pungente, contundente, avassaladora, catártica e pesada, o que não poderia ser melhor!
Dead Hand abre o ano derradeiro de The Americans com um salto temporal, recurso bastante explorado pelas séries. A diferença aqui que isso é feito de forma elegante pelo roteiro, sem ser explicitado por diálogos expositivos e/ou por aqueles letreiros horríveis e preguiçosos de “cinco meses depois”.
Podemos perceber o avanço no tempo através das ações dos personagens em tela. Pesada e melancólica, a sequência inicial mostra Philip vivendo o “American Way Of Life” 100% do tempo, tentando viver uma vida normal comandando a agência de viagens dos Jennings, que obteve um grande crescimento de espaço. Observem o discurso totalmente corporativista e capitalista que ele entoa algumas cenas depois para estimular e motivar seus funcionários a vender e produzir. Assustador!
Por outro lado, Elizabeth está visivelmente exausta, física e mentalmente, se desdobrando em vários disfarces para alcançar os objetivos das missões, já que não possui mais Phillip para auxiliá-la nos trabalhos. O silêncio retumbante quando chega em casa e não dirige a palavra ao marido diz muito. O que ressoa mais ainda é seu diálogo visceral com o marido, que deseja conversar, e Liz rebate insistentemente que só anseia por dormir. Poderoso!
Outro destaque foi a evolução de Paige, bem mais madura e já participando de suas primeiras missões. O diálogo no jantar já demonstra o envolvimento com teóricos na universidade, a postura mais adulta e que não mora mais com os pais. Ao ser abordada pelo militar, ela pensa ter arruinado a missão e conta para Elizabeth. O contraponto, a conclusão foi dramaticamente impressionante: de maneira fria e violenta, Liz elimina o marinheiro, que viu o rosto da filha e poderia colocá-la em risco.
Cheguei a crer por um momento que Liz ia deixar passar, mas fui positivamente surpreendido. Não sei se haverá consequências no curto prazo na relação das duas. Pela lógica, Paige não deveria fazer vigilância novamente naquele mesmo lugar. E, naturalmente com o tempo, ela irá descobrir que para cumprir seu trabalho deverá fazer “o que for necessário” para proteger os ideais soviéticos.
Claudia é outro ótimo retorno e a interação com a jovem recruta dos Jennings serviu para mostrar como a menina passou a pensar por si própria após alcançar os portões do ambiente acadêmico, quando questiona o papel da mulher na sociedade soviética.
Com a presença de Oleg em solo americano, as tramas russas devem ficar mais movimentadas e interessantes, já que no velho continente andavam bem enfadonhas e sonolentas na última temporada. De cara ele já interage com um relutante e aposentado Phillip, e mal posso esperar para ver as consequências desses encontros. Está claro que, assim como a série, o regime comunista soviético como conhecemos está em seus dias finais e que há pensamentos e ideologias antagônicas entre os que ainda estão no poder na Mãe Rússia.
O pouco destaque dado a Henry cumpriu a missão de situar o personagem no espaço e no tempo dentro da trama, que está no colégio interno que os pais decidiram colocá-lo no decorrer da quinta temporada. Serviu também para salientar o ninho vazio e silencioso que é o lar dos Jennings no momento.
A mudança da namorada de Stan para sua casa demonstrou o aprofundamento da relação dos dois. Foi engraçado acompanhar uma curiosa Elizabeth tentando ouvir a conversa das esposas dos agentes do FBI para tentar pescar alguma coisa. As palavras proferidas por ela no diálogo ainda deixam em dúvida se ela é ou não uma agente infiltrada do Centro coletando informações sobre Stan.
A sequência final do episódio mostra o adiado embate entre Philip e Elizabeth. Ela distante e evasiva durante todo o capítulo. Ele pisando em ovos, medindo palavras e tentando não ser muito invasivo, dando espaço para a esposa. O encontro com Oleg foi o gatilho para que Phillip quebrasse o silêncio e pedisse a palavra para uma exausta Liz à uma da manhã. Ela, irredutível, pediu apenas para dormir, com seu “Let me sleep!” me relembrando o clássico “Am I under arrest?!” gritado por Skyler em um restaurante ao ser confrontada por Hank em Breaking Bad.
A cena final mostra, de forma preocupante, uma Elizabeth com ideações suicidas, encarando o comprimido recebido pelo agente no México. Talvez Phillip tenha razão e os anos de profissão e vida dupla finalmente atingiram-na emocionalmente de forma irreversível.
Sempre calcada nas impecáveis atuações de seu excelente elenco, The Americans retorna de maneira magistral e triunfal, provando mais uma vez porque é um dos dramas mais aclamados e sólidos dos últimos anos da televisão a cabo premium americana. A estrutura permanece a mesma, com um grande evento futuro de dimensões políticas guiando a missão principal até pelo menos metade da temporada. A reconstituição cenográfica interna (estúdio) e externa (locações), assim como a trilha musical continuam soberbas. Mal posso esperar pela merecida e apoteótica conclusão que essa jornada incrível deve nos proporcionar!
















