Termina a terceira edição do All Stars e o sentimento de frustração que começa agora só reforça o maior intuito de Ru: provar que nenhuma delas, no fim das contas, está pronta para ser uma verdadeira rainha.

A ladainha vai começar e Ru não pode nem dizer que não foi avisada. Talvez a melhor coisa a se fazer no início desse texto – para que possamos respirar e nos concentrar em outras coisas – seja extravasar aquilo que todos estamos sentindo: ESSA COROA ERA DA  SHANGELA E NEM MIL TRIXIES VÃO ME PROVAR O CONTRÁRIO. COMO RU FOI DEIXAR ISSO ACONTECER? NÃO DAVA PARA DAR SÓ UMA MANIPULADINHA NAS COISAS? NENHUM SER HUMANO DA ESTRATOSFERA VAI ME CONVENCER QUE ERA TRIXIE QUEM RU QUERIA GANHANDO O PROGRAMA. E TENHO DITO.

Pronto, vamos superar esse sentimento de revolta um pouquinho e pensar friamente no que aconteceu. Sim, porque independente dos nossos gritos de indignação, o que o All Stars nasceu para ser já foi estabelecido lá atrás, na segunda edição, quando Ru passou parte do poder para as próprias competidoras, que se embananaram inteiras deixando questões pessoais e emocionais afetarem seus julgamentos sobre quem era melhor. Quando Ru se distancia, quando ela se torna quase um ser inatingível com quem as meninas só falam quando estão no show, está também estabelecendo um limite seguro de ação: para tomar grandes decisões é necessário estar disposto a fazer os sacrifícios e lidar com consequências.

Sei que já falei sobre isso antes, mas preciso reiterar: O All Stars é uma experiência pela qual passam as queens retornantes e que no decorrer do processo, revela que elas dificilmente gabaritam a prova. É CLARO que a fórmula do programa também é um incitador de desentendimentos, mas esses desentendimentos fazem parte do aspecto científico da coisa. No miolo das colocações sobre o formato está a evidência de que ao dar às meninas o poder de privilegiar talento, elas escolhem privilegiar vingança.

Talento X Vocação

Não é uma questão de desmerecer Trixie, pelo contrário. Existe uma diferença clara entre talento e vocação e tanto ela quanto Shangela compartilham das duas coisas. Nem sempre a pessoa com muito talento consegue administrar de modo prático o que isso significa e isso é falta de vocação. Kennedy e Bebe, do outro lado, tem muito mais vocação que talento, já que são uma reprodução constante, em looping, dos mesmos códigos artísticos que estabeleceram lá atrás.

O desafio do episódio 7 foi um bom exemplo do quanto a vocação te mantém no mercado, mas sem a mesma relevância dos que transbordam talento. Respeito imensamente o trabalho de Morgan, Bebe e Kennedy. Mas, não podemos negar que na maioria dos desafios que exigem pensar um pouco fora da caixinha, elas deixam a desejar. Essas queens geralmente são pegas em desafios de atuação, de comédia, e raramente seus ótimos looks conseguem salvá-las da limitação. Também existe o contrário, quando uma menina cheia de talento cênico não entrega um bom look. Porém, a incidência de looks ruins perdoados por causa de uma boa atuação é bem maior.

Nas paródias promovidas pelo desafio, Kennedy e Bebe passaram raspando no limite da dignidade. Morgan, contudo, fez sua despedida do programa em maus termos e será para sempre lembrada como um pato desengonçado. E se tivesse permanecido na competição, Morgan teria se dado mal em todos os desafios cênicos, mas teria lutado, porque sua vocação é ser drag, mesmo que lhe faltem alguns importantes talentos.

Essa “semi-final” foi tomada de estranhos sentimentos, porque Ben havia desistido, Morgan estava nadando contra uma forte correnteza e o trabalho de Kennedy e Bebe era extremamente dedicado, mas incapaz de acompanhar Shangela e Trixie em tudo que elas tinham de instigante e provocativo para oferecer. Era como se já estivesse certo, já estivesse determinado, e aquele lipsync de Shangela foi provavelmente uma das coisas mais geniais que já assistimos na história da Drag Race.  Aquele era o momento em que ela se marcava definitivamente, em que ela largava anos luz à frente de Trixie. Foi lindo de se ver… Lindo.

Entretanto, nessa dinâmica de julgamentos propostas pelo formato, as meninas sempre travam nas questões pessoais. Bebe, por exemplo, estava certa na sua estratégia de não revelar quem ia eliminar. Ela faz o discurso errado, mas com tanta gente querendo vingança, não mostrar o batom é esperto. Porém, inflamadas e sedentas de revanche, as meninas deixam esses itens estratégicos escaparem da perspectiva certa. Tudo é sobre reagir e todas elas caem nesse mesmo abismo, se achando justiceiras, quando na verdade estão fazendo exatamente o que os produtores querem que elas façam.

Rachaduras no Hall da Fama

Seguindo essa lógica – de que Ru usa o All Stars para estudar os limites de comprometimento das meninas – faz todo sentido para mim que elas decidam parte da vitória. Não é um conceito tão estranho, porque quem escolhe o campeão do Survivor são os participantes eliminados e isso obriga todo mundo a fazer jogo social. Aqui Ru ainda resguarda parte do poder e pode deixar o resultado menos bizarro quando ao menos um dos lados é justo. Mas, sim… A escolha do Top2 ser das eliminadas é totalmente coerente com o formato e eu aplaudo a iniciativa.

Aplaudo também a produção impecável do número final. Foi maravilhoso. O plano-sequência, a música, as coreografias, as participações… Foi tudo perfeito e à altura do que se tornou a corrida. Os looks de passarela também eram bons, mas representavam, novamente, a distância que separa Trixie e Shangela de Bebe e Kennedy. Bebe foi monotemática, como sempre; e Kennedy usou uma roupa com o mesmo conceito e formas semelhantes ao que usou na final da sétima temporada. A sensação de “estamos vendo crescimento” só veio nos desfiles de Trixie e Shangela e isso diz muito sobre porque as eliminadas – que acompanharam performances e desfiles – foram nas direções opostas às evidências.

Bebe foi estratégica de novo mentindo na maior cara de pau sobre as meninas terem concordado que ela não deveria mostrar seus batons no episódio passado. E quando ela diz que todas as perguntas têm cunho pessoal, que não investigam sua performance na temporada, ela está certa. Tudo ali é pessoal. Kennedy fez o discurso errado, fez parecer que merecia por pena, por ter conquistado menos. Shangela fez sua última analogia com Game Of Thrones e também a última leitura correta da situação. Ela era, estatisticamente e emocionalmente, a vencedora óbvia. Mas, Trixie era a única que não tinha mandado nenhuma daquelas votantes embora. A única. E elas foram rancorosas e fizeram sua escolha baseadas nisso. Ao menos quase todas elas, porque foi com renovado respeito que vi Thorgy escolher o batom de Shangela.

Quando assistimos o vídeo liberado pelo WoW, que mostra quem votou em quem (dado importante para manter a integridade do processo), é assustador ver quase todas votando em Kennedy. Há uma condescendência absurda nisso, porque todas elas sabem que Kennedy, das quatro, é a menos coroável (por uma questão estatística e artística). Então, para não darem a coroa para a merecedora (que eliminou algumas), elas vão pelo caminho que de certa forma as protege: elegem aquela que “precisa mais”, num assistencialismo medíocre, que nem mesmo honra o trabalho de Kennedy. É tão emblemático, porque é o rancor e o ressentimento que as move, enquanto elas tentam se convencer que se trata de justiça.

Então, depois que o Top2 foi anunciado, pouco importava o que vinha depois. Mesmo que Kennedy tivesse feito a dublagem de sua vida, Trixie ia vencer, seria a forma correta de consertar um pouco o que as eliminadas tinham provocado. Para ela, Miss Mattel, além de amargar uma vitória ofuscada pela desistência de Ben agora também aturará uma vitória ofuscada pela derrota de Shangela. Digam o que quiserem, mas por mais que Chad e Alaska não sejam as preferidas de todos, elas tiveram uma trajetória quase perfeita em suas temporadas e Trixie, ao contrário disso, foi se encontrar no All Stars. A coroa não era dela e todos sabem disso.

Encerrada mais uma edição do All Stars e a polêmica é certa. Essa temporada será considerada a pior, a vencedora a mais “comprada”, Ru a pior pessoa do universo e dá-lhe “Drag Race tá uma bosta”, Drag Race se vendeu”… Enfim. Eu aceito a ideia de que o All Stars além de ser um belíssimo de um fan service (não há nada de errado nisso), não tem o mesmo peso da corrida original e pode brincar do que quiser, sendo manipulado, nesse caso, para evidenciar as fragilidades das participantes e o quanto elas são incapazes de tomar decisões sem cunho pessoal. O All Stars 3 foi tão bem-sucedido quanto o segundo, menos cheio de talentos, mais cheio de rancor, mais entretenimento garantido e com ótimos e memoráveis momentos.

Semana que vem começa a Season 10 e estaremos juntos aqui para celebrar. RuPaul’s Drag Race pode te decepcionar, pode te frustrar e como com todo reality, está cercado de mitos e ambiguidades. Mas, ele é uma vanguarda, um patrimônio da comunidade gay e pelo amor de Deus, é divertido pra cacete.

Nos vemos lá.

REVISÃO GERAL
Nota:
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rupauls-drag-race-all-stars-3x0708-my-best-squirrelfriends-dragsmaid-wedding-trip-season-finaleEu aceito a ideia de que o All Stars além de ser um belíssimo de um fan service (não há nada de errado nisso), não tem o mesmo peso da corrida original e pode brincar do que quiser, sendo manipulado, nesse caso, para evidenciar as fragilidades das participantes e o quanto elas são incapazes de tomar decisões sem cunho pessoal.