Jessica Jones traz Kilgrave de volta e mostra considerável melhora em AKA Three Lives And Counting.

Jessica Jones já tirou três vidas, até agora. Reva, enquanto estava sendo controlada por Kilgrave; Kilgrave, no final da primeira temporada e Dale, no episódio passado, AKA Pork Chop. Apenas a morte do Kilgrave foi uma decisão de Jessica, as outras duas não. Estranhamente a série quer nos fazer acreditar que uma morte acidental e em legitima defesa seria responsável por trazer a presente alucinação de Kilgrave para a personagem e não o trauma imediato de ter tirado uma vida lá na conclusão do ano de estreia. Contudo, após o final do episódio e após uma lenta consideração, fica muito difícil questionar um capítulo com a presença de um dos melhores vilões já criados pela Marvel para a televisão – e que bate fácil em 90% dos apresentados no cinema.

O tema central da segunda temporada de Jessica Jones, por mais perdido que ele esteja dentro em imensos desvios, é o do heroísmo e sua representação na vida de uma mulher com poderes e que não se enxerga como heroína. Durante boa parte de sua vida adulta, após a morte do Sterling, Jessica acreditou ser um fardo. Deixando de lado a confusão criada pelos flashbacks apresentados, tanto desta temporada, quanto no da passada em AKA The Sandwich Saved Me, Jessica nunca conseguiu se enxergar como o tipo de pessoa que Trish idealizou para ela, uma salvadora. Mas aprendemos que por mais que ela não aceite e por mais que Jessica veja em si mesma uma vilã e não uma heroína, ela é extremamente altruísta e mantém várias qualidades que deixariam o Capitão América orgulhoso – menos a boca suja.

Trazer Kilgrave de volta como uma manifestação da voz que diz a Jessica que ela é uma pessoa má, foi um gigantesco acerto. Confesso que fiquei bem preocupado quando a fotos dos bastidores da segunda temporada começaram a sair e Kilgrave estava presente. Em se tratando de vilões, eu adoro Kilgrave e acho que ele tem o potencial para rivalizar e criar problemas para qualquer personagem das séries da Marvel. Sua morte com certeza foi um erro, apesar de ter apresentado uma recompensa para a personagem e também para nós, mas fazer dela uma alucinação motivada pela culpa foi muito mais inteligente do que simplesmente optar por trazê-lo de volta a vida. O problema? Também destacou a falta que uma figura antagonista faz e continua fazendo nesta temporada de Jessica Jones.

Este, contudo, é um episódio que deveria ter surgido logo no começo da temporada. O que eu percebi é que existiu uma confusão bem grande durante a reunião do time criativo e principalmente na hora de decidir o que seria explorado como primeiro arco e o que seria deixado para o segundo. Ver Kilgrave aqui é um alívio, apesar de sua presença tóxica, mas após tanta enrolação, um médico que está mais para médico do que para monstro e uma assassina misteriosa revelada como mãe e já presa, foi bom ter um personagem que realmente oferece desenvolvimento sentimental para Jessica, assim como toda uma contextualização fundamentada para seu medo.

Teria sido muito mais interessante e inteligente se a série tivesse usado Kilgrave para alternar toda a discussão apresentada anteriormente a respeito de ser ou não ser uma heroína e como não ser uma vilã, desde o primeiro episódio. Mas também compreendo que reutilizar um vilão morto na primeira temporada, já na segunda, é algo complicado de fazer e vender. Só que, após tudo o que vimos nestes dez episódios anteriores, eu não reclamaria nada se o fantasma do Kilgrave estivesse ao lado da Jessica, em momentos chave, desde o começo. Já que a grande história desta temporada está apoiada neste aspecto do heroísmo e suas ramificações, com Trish querendo ser uma, Jessica relutando em aceitar seu papel como uma e buscando formas de não se tornar uma vilã como sua mãe, oferece um combustível bem melhor do que as aventuras de Trish e Karl no laboratório.

E claro, não poderia deixar de falar da personagem que mais se transformou, negativamente, dentro de uma série. Trish e sua tentativa de ser uma heroína já era algo estúpido antes, apesar de fundamentado, mas atingiu uma conclusão extremamente irritante neste. Ver uma personagem interessante cometendo erros tão absurdos é doloroso. Não acho que ela deveria ter sido blindada de avanços questionáveis e momentos ruins, mas também não consigo visualizar a melhor maneira de lidar com seu desejo em ser uma heroína e sua luta contra os seus vícios, de maneira tão negativa. Eu sinceramente nem ao menos consigo torcer para que Trish consiga o que almeja. Na altura do campeonato eu queria apenas que ela morresse e bom, não é algo que nenhum roteirista tem em mente quando propõe uma história de origem para uma heroína saída das páginas de histórias em quadrinhos, certo?

Com a morte de Karl, porém, Jessica Jones troca a imagem de Kilgrave como vilão e devolve para Alisa, após cenas bem leves, o papel de antagonista da Jessica. É uma pena porque ambas realmente criaram laços válidos e mereciam uma história mais agradável, mas é uma pena maior ainda porque a grande culpada por tudo foi Trish. Jessica jamais deixaria alguém machucar sua irmã, mesmo que esse alguém seja sua mãe e após tanta moral e dilemas de como usar poderes, ter Jessica matando a própria mãe e emulando o que ela fez com Kilgrave, pelo bem maior, é uma realidade plausível. O problema é que eu vejo na morte de Alisa um caminho sem volta para o relacionamento entre Jessica e Trish.

Easter eggs e outras informações

– Entre os suprimentos escolhidos por Karl na clínica veterinária temos uma vacina para gatos. Nos quadrinhos Trish Walker atende pelo nome de Felina

– Alisa estava sendo mantida no bloco de celas D, o mesmo em que ficaram Wilson Fisk e Frank Castle.

– A segunda temporada de Jessica Jones foi dirigida inteiramente por mulheres. O episódio número 11 teve direção de Jennifer Lynch (American Horror Story, Once Upon a Time e Hawaii Five-0). Lynch, além de diretora, é autora e escreveu o livro The Secret Diary of Laura Palmer.

REVISÃO GERAL
Nota:
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