Jessica Jones desenvolve seus coadjuvantes enquanto trabalha em um não tão forte AKA Pork Chop.
A segunda temporada de Jessica Jones demorou muito para começar, em vários sentidos. Foram dois anos e meio até a sua estreia, após a finalização do ano inaugural e mais seis episódios praticamente desperdiçados nesta. E quando a série finalmente parecia ter encontrado a história que queria contar e após um episódio muito bem estruturado com AKA Shark In The Bathtub, Monster In The Bed, Jessica Jones volta a mostrar o mesmo ritmo confuso e histórias pouco interessante. Por outro lado, o trabalho executado com a trama de Jeri Hogarth foi simplesmente uma das melhores explorações de um coadjuvante nas séries da Marvel Netflix, rivalizando apenas com a protagonista de Punho de Ferro, Colleen Wing – você pensou que eu ia falar Danny Rand, né?
É estranho notar após o final de AKA Pork Chop e apenas 3 episódios antes do fim da temporada, que a história melhor estruturada deste ano de Jessica Jones, é a de Jeri Hogarth. Jessica ainda mantém justificada sua posição de protagonista, mas a sua trama está flutuando cada vez mais entre o marasmo e a falta de informações coesas. Jeri, porém, conseguiu um segmento bem definido desde o primeiro episódio e uma conclusão bem agridoce neste. Inicialmente apresentada apenas como um amontoado de clichês de uma mulher poderosa no mundo empresarial, Jeri conseguiu um arco muito sensível, com um final doloroso, mas que garantiu para Carrie-Anne Moss uma chance de brilhar em uma série de super-heroína.
Enquanto a história da IGH e da mãe da Jessica se perdem em um emaranhado de más decisões e Jessica termina o dia afundando após um episódio dedicado para a definição do que é ser uma heroína e suas responsabilidades morais, se desviando bastante da proposta apresentada inicialmente, Jeri seguiu bem uma única nota, aprofundada de maneira exemplar e que culminou na poderosa cena da Jeri encontrando seu apartamento completamente roubado e sua doença tão presente quanto antes. É doloroso ver como Jeri mudou de um ano para o outro e como ela aprendeu a confiar em pessoas, redescobriu sua própria fé em algo além do dinheiro e do poder, tudo para ser traída e mais uma vez assombrada pelo fantasma da falta de controle. Seu desespero e também esperança foram o suficiente para que ela desprezasse sua característica mais marcante, o ceticismo e em uma temporada centralizada em desmoronar o que estas personagens acreditavam de si mesmas, o resultado para ela poderá ser tão devastador quanto o de Jessica.
E falando em Jessica, toda a trama que ela e sua mãe dividiram até o momento havia sido bem interessante. Existia, até então, uma compreensão a respeito do dever, moralidade, assim como a cruel distância entre o que é certo e o que cada um merece. Após passar 17 anos acreditando que sua mãe estava morta, Jessica ganhou uma segunda chance. Mas estamos falando de uma série adaptada de uma história em quadrinhos e bem sabemos que não existem relações simples entre filhos e seus pais. Logo, Jessica termina entregando sua mãe para a polícia, mas consegue, graças a uma renovada Jeri, a chance de mantê-la perto, tão somente Alisa denuncie o paradeiro de Karl e seus crimes. Esta é uma decisão estranha porque reinicia o status quo da série, forçando a história a pausar em um momento em que ela deveria estar avançando consideravelmente.
Quando inserimos Trish no meio do tema, tudo fica ainda pior. Foram tantos desvios e pouca realização, que lembrar que Trish estava falando da IGH no seu programa de rádio e que isso motivou Alisa a sair de seu esconderijo para matar outras pessoas, neste ponto da trama, é surreal e um pedido bem generoso do time criativo da série para nossa memória. Pior ainda, uma personagem desenhada para motivar torcida, terminou completamente detestável e com um gritante desejo de morte. Se a ideia é garantir a Trish os mesmos poderes que sua contraparte nos quadrinhos, destruindo seu carisma e substituindo por erros e estupidez, parabéns roteiristas, objetivo alcançado com sucesso.
É estranho ver como Trish e Malcolm passaram de personagens com boas intenções e relação valorizada, para dois completos idiotas. Enquanto trabalhava questões de abuso de substâncias, a tentativa de superação e a importância de Jessica na vida de Trish, a série conseguiu ótimos momentos. Entendo que para avançar a trama é necessário que existam problemas, afinal estes personagens progridem durante suas provações, mas não considero uma boa decisão a de inserir Trish dentro do rol de personagens usados para prejudicar Jessica. É um caminho extremamente arriscado e que pode terminar drenando qualquer simpatia da personagem para com o público. Você realmente quer ser forçado a escolher entre a relação de uma mãe e sua filha, e os desejos de uma mulher egoísta? Aparentemente é o que a série decidiu adotar como trama.
Jessica Jones está bem perto da conclusão de sua segunda temporada, mas eu sinceramente não consigo enxergar o que poderá acontecer no futuro. Jessica termina matando um guarda, abusivo, babaca, sadista e criminoso, mas de maneira acidental. Após tanto discurso sobre matar e não matar, poder e não fazer, é bem questionável ter a personagem principal cometendo o crime por acidente, mesmo tendo várias “justificativas” para fazê-lo de outra forma – testando assim sua própria moral. Jessica jamais mataria o guarda em qualquer outra situação, mas este teste precisava ser completamente dela. Quando a série decide criar um acidente, parece que ela está apenas forçando um tema para se encaixar em tudo o que foi apresentado antes, sem deixar a história fluir naturalmente, como fizeram com Jeri.
Easter eggs e outras informações
– A droga criada pelos militares e usada por Trish leva em sua composição uma planta misteriosa e desconhecida. Em época de Pantera Negra, poderia este composto vegetal ter vindo de Wakanda e certa flor roxa?
– A segunda temporada de Jessica Jones foi dirigida inteiramente por mulheres. O episódio número 10 teve direção de Neasa Hardiman (Z: The Beginning of Everything, Inhumans). Por seu trabalho em Z, série original da Amazon, Hardiman foi indicada ao prêmio irlandês “2017 Irish Film and Television Awards”, na categoria de melhor diretora.















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