Precisamos prestar mais atenção nas pistas fornecidas. Quando Better Things decide usar como tema “Mother“, canção composta e cantada por John Lennon, praticamente uma carta aberta aos pais: a maior dica está aí. Assim como a música fala sobre quando o lado materno não se interessa, por mais absurdo que isso possa parecer à nossa concessão tradicional da relação entre mãe e filho, a série não facilita em sua jornada. Temos aqui o retrato da vida como se ela pudesse ser capturada em sua essência, fazendo-nos muitas vezes tão mergulhados na história a ponto de nos distanciarmos da ideia de ficção. Não é um retrato perfeito porque a vida não é perfeita. Assim, Pamela Adlon compartilha com Lennon a sensação de não falarem apenas sobre si e sua família em suas obras, mas sobre 99% daqueles em contato com elas.
Better Things voltou em setembro para mais dez episódios em sua segunda temporada, transmitida às quintas-feiras no FX. Contando com a mesma parceria da temporada anterior, a diferença está na direção dos episódios, todos ao cargo de Pamela. O clima contemplativo foi mantido, com muitas cenas silenciosas e preenchidas pelas reações das personagens ou com longos diálogos, simples, mas eficazes. A estrutura, portanto, não variou muito: episódios curtos, focados em poucos acontecimentos. Mesmo assim, é notável o crescimento da série e o amadurecimento de seu ponto de vista sobre as pessoas retratadas e a complicada convivência entre elas.

Nós, adultos, longe da adolescência, seres ditos e acreditados como já formados, não suportamos com facilidade as três garotas da série. Há aí diversos motivos para explicar como somos afetados pelas adolescentes, desde o interesse quase coletivo em dar opinião sobre o comportamento alheio ou mesmo a projeção de nosso passado em tela. Muitas pessoas, portanto, vão reconhecer nas ações inconsequentes e no capricho juvenil das meninas algo feito, visto ou passado. Sendo assim, em muitos momentos, eu preciso conceder à série uma indulgência racional. Isto é, depois de perceber o quão irritante são, reflito o retrato de como essa geração se comporta fora das telas — em alguns casos bem pior.
Assim, seria mesmo justo não usar o conhecimento sobre o assunto, adquirido por experiência própria da atriz e criadora, e se juntar ao grupo que recria os jovens em fantasias mirabolantes? O jovem da ficção tem passado por mutações estranhas, em descompasso conosco e que não fazem referência à nada além de desejos irrealizados de alguns roteiristas. Explico: as personagens têm textos lindos, emocionantes, filosóficos, seguros e caprichados, mas os jovens da vida real não são assim — não todos. São criaturas inseguras, falam e fazem besteira, têm medo do futuro e nem sempre possuem um relacionamento perfeito com os pais. Adlon, então, vai em busca do genuíno. E, no fim das contas, nós somos conquistados por ele.
(Antes de continuar, se você não leu o apanhado geral da primeira temporada, te aguardo aqui).
A Segunda Temporada de Better Things
Nessa segunda jornada, todas as personagens tiveram os seus momentos. Sam, sempre em tela, nos conduziu entre os diversos polos da história, muitas vezes ficando de lado para que outra personagem pudesse ter a série para si. Isso mostra uma grande maturidade não só como roteirista (ela atuou também como co-roteirista na maioria dos episódios), mas como artista. Desses dez seguimentos, há diversos momentos marcantes e pelo menos três episódios para se destacar e deixar carinhosamente na memória. Aqui, no entanto, vamos conversar um pouco sobre cada um.
September inicia a temporada da forma caótica típica da série, presente em sua última season finale. A festa serve para nos reapresentar às personagens e à personalidade delas. A câmera passeia pela casa, seguindo Sam, enquanto lida com os diferentes conflitos vividos e apresentados pelas filhas. Encontramos Duke, tantas vezes posta de lado em nome das brigas das irmãs com a mãe, tratando seus amigos de modo questionável. A menina, claramente na fase de descobertas e de achar graça mesmo no som das palavras, tem momentos divertidos e quebra a seriedade do restante. Frankie, enquanto isso, tem momentos delicados, transparecendo o talento de Hannah Alligood com o canto.

Vou destacar algo desde agora: foi a temporada de Max. Se a gente fizer um esforço, também dá para se lembrar de seu protagonismo em um dos grandes momentos da primeira temporada, em Future Fever. A construção de sua relação com Sam é uma das mais críveis entre mãe e filha da televisão. As cenas por elas divididas sempre elevam os episódios e se destacam como as melhores. Isso porque conseguem nos fazer compreender o quão complicado e delicado é essa dinâmica, o quão longe dos filhos são a realidade e as certezas dos pais e o quanto a mãe precisa ceder para manter em paz a convivência de sua casa.
Ainda na premiere, Phyllis tem seus costumeiros diálogos esquisitos, amparados pela ótima Celia Imrie, responsável por certo estranhamento quando está em cena. O destaque vai para a relação de Max e um cara mais velho. Este leva seu irmão “charmoso” (tire as aspas se desejar) para tentar seduzir a sogra. A parte mais divertida é constatar que aqui, assim como fora das telas, os filhos acabam recorrendo aos pais, mesmo quando passam boa parte do tempo brincando de ser adultos. São os mais velhos, na maioria dos casos, indicadores de uma resolução, uma saída rápida, para as encrencas nas quais os mais novos se metem.

Os amigos de Sam têm uma participação maior e mais importante nessa temporada. Não faria sentido que a vida deles fosse abordada separada, mas eles não estão ali apenas porque a protagonista precisa ter com quem conversar, em quem depositar seu humor desajeitado. Eles compõem, da forma mais natural possível, sua rotina. Com o tempo, ficamos familiarizados com seus rostos, com suas histórias e funções. Lá no season finale, quando há uma cena envolvendo algumas tarefas, percebemos a importância deles porque ela foi construída a partir daqui.
Period, na sequência, pode ser interpretado como um episódio dividido em três partes. Nos primeiros nove minutos, a vida amorosa de Sam ganha o foco e acompanhamos a estranha noite com um cara sensível demais. Nos dez minutos seguintes, ela tem alguns diálogos com a família e com Jeff, personagem importante no decorrer da temporada. Os quatro últimos minutos, nos quais ela divaga, são o epílogo da história e nos explicam qual era a intenção do roteiro em conectar esses momentos: o episódio mostra como ela nunca consegue escapar do ideal de si. Sam age sempre da forma que acha correta, seja dando conselhos aos conhecidos, seja saindo com um cara por pena. O final é a maior prova disso, e ela não deixa de lado a própria essência, a preocupação e zelo materno, pouco aproveitando essa solidão.
Entre tramas menores, os três episódios seguintes constroem a curta relação entre Sam e Robin (Henry Thomas). A química entre os atores e as personagens funciona e torcemos, em algum momento, para que ambos possam ultrapassar as barreiras impostas por Sam a si mesma e aos relacionamentos. O trio de episódios elabora situações ao redor das diversas sensações da protagonista a respeito do possível compromisso, seja antes, durante ou depois.

No terceiro (Robin), nós a vemos ainda se espreguiçando dentro desse novo ambiente: insegura, surpreendida. A atriz jamais se colocaria em uma situação que a levasse a algo mais sério. Por conta disso, a direção e o roteiro se esforçam para nos convencer de que fora acidental. Sick e Phill, episódios seguintes, mudam o foco por alguns momentos, mas ainda elaboram o romance inesperado. No quarto episódio, percebemos o medo e a angústia de Sam ao se perceber apaixonada, enquanto no quinto ela decide deixar de lado o que poderia ser para trabalhar com as preocupações de agora, preocupar-se com as mulheres de sua vida. O ator Diedrich Bader, Rich, faz uma ótima parceria com Adlon em Sick, sendo um bom suporte tanto à personagem, explicando à amiga qual o real problema da situação, quanto na atuação.
Não dá para resumir Phill, entretanto, no descrito acima. É um dos destaques da temporada justamente porque faz aquilo que eu comentei antes: retira a protagonista para abordar a rotina de sua mãe, como o próprio nome do episódio dá a entender. Phill é tão complexa quanto a filha e as netas. É interessante ver como se formam suas decisões equivocadas e como ela costuma passar seu tempo. O relacionamento com o filho, Marion (Kevin Pollak), marcado por alguma briga do passado, é sutil e nunca sabemos ao certo o que ocorreu. Este recurso do texto torna-o instigante e anula a necessidade de ser muito explicativo. Outro destaque é a conversa com a amiga, Tressa, que rende à atriz Rebecca Metz uma cena emocionante.

Eulogy, o sexto episódio, é sem dúvida um dos melhores de 2017 — adquirindo, inclusive, um lugar no nosso ranking. Ele retrata Sam em sua profissão e em sua família, tentando dialogar com os colegas de profissão, com os estudantes de teatro e com as filhas sobre a importância da atuação em sua vida. Ao perceber o desdém das garotas sobre sua profissão, a atriz desabafa e deixa transparecer sua frustração a respeito disso, algo muitas vezes contido. A metalinguagem não está presente só para nos ambientar, como a própria série já fez na primeira temporada, mas para nos fazer entender o quão exaustivo é a rotina dela. Não dá para destacar nenhuma cena porque é tudo memorável, mas os seis últimos minutos são inacreditáveis.
Na sequência, Blackout apresenta em sua última cena uma das mais engraçadas da temporada, envolvendo Sam e Jeff e a estranha proximidade que vínhamos acompanhando há alguns episódios. Diferente das séries convencionais, não esbarramos em um romance proibido afetando a amizade com Sunny. É um alívio perceber que não foi esse o caminho escolhido pelo roteiro, até porque anularia o esforço da série em criar uma linguagem singular.

O oitavo episódio, Arnold Hall, tem, provavelmente, a cena mais irritante da temporada — e não me refiro à provocação feita por Frankie, mas à conversa entre Sam e o avô das filhas, Arnold (Rade Šerbedžija). Este pede que ela continue pagando pensão ao ex-marido, mesmo depois do tempo estipulado por lei. Novamente, vemos como ela não consegue não ceder às obrigações colocadas por outras pessoas sobre suas costas. Ela termina contemplando a possibilidade de ajudar Xander.
White Rock, a um episódio da season finale, parece, no primeiro momento, um curta metragem desenvolvido à parte. No entanto, são as características tão conhecidas dessas mulheres que fundamentam as histórias com ares de fantasia. Sam encontra um drama familiar complicado de sequer supormos entender. A descoberta, cuja aparição se dá ao acaso, nos ajuda a entender seu relacionamento com a mãe, e o tipo de pessoa que Phill é.
Rivalizando com Eulogy como o melhor episódio da temporada, Graduation tem tantos momentos bonitos que fica difícil destacar algum. Tudo é bem especial, bem atuado e bem escrito. Ao final, nós nos sentimos parte da família e ficamos felizes pela formatura de Max e tristes com as bobagens feitas por seu pai. É uma sequência perfeita de momentos delicados, recompensando-nos, assim como recompensam a Sam, a paciência necessária para acompanharmos essas meninas.

A segunda temporada de Better Things ficou em segundo lugar na contagem do Metacritic como melhor temporada do ano passado, atrás somente da derradeira de The Leftovers. É uma grande conquista — principalmente se lembrarmos seu posto (quadragésimo lugar) em 2016. Não evoluiu, entretanto, a posição referente ao “série mais comentada”, indo do #61 para o #56. É uma prova de que não estão falando o bastante da série de Pamela Adlon. Torna-se quase tesouro aos poucos telespectadores e à crítica.
A existência de Better Things na TV é tão absurda quanto necessária. As comédias (e as séries em geral) precisam dessa nova roupagem, desses pés fincados no chão e dessas histórias mais próximas de seu público. É o grande problema, se me permite opinar, de algumas produções nacionais: investir muito em conflitos mirabolantes e deixar de lado as questões humanas, peças essenciais para boas histórias. O efeito aqui conseguido é comprovado, ao fim da season finale, quando ficamos tão tocados que nos entregamos ao silêncio. Quase como aquele filme, aquele livro, aquela palestra, cujo término faz-nos ter uma vontade desesperada de ligar para a mãe e conversar. A produção, então, é essa mistura de realidade e ficção capaz de nos lembrar que somos filhos de alguém. Reafirma, ainda a relação entre mãe e filho como uma variável, não uma constante. Uma luta, sabe?

ps:
Mesmo depois de todo o escândalo, Better Things volta este ano para sua terceira temporada. Além do co-criador, a produtora foi demitida. Ou seja, pode ser que tenhamos algumas surpresas no formato da série. De qualquer forma, acredito bastante no talento de Pamela para manter a qualidade.
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Veep só volta ano que vem. A razão, infelizmente, é o tratamento de Julia Louis-Dreyfus, protagonista da série. Isso pode significar, a Better Things e a Pamela Adlon, uma brecha para receber o reconhecimento que merecem. Longe de mim apontar como positivo, mas fica a reflexão.















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