Dentre inúmeras séries no catálogo da Netflix, é sempre interessante sair do eixo Estados Unidos/Reino Unido afim de procurar novas produções de diferentes países, tanto para sair do “mais do mesmo” da televisão americana quanto para conhecer mais o estilo de produções televisivas de outras pátrias. A Louva-a-Deus tem recebido atenção nas últimas semanas após sua estreia na Netflix, uma produção europeia que se trata de uma serial killer francesa que tentará ajudar a polícia de Paris a capturar um copycat quando a A Louva-a-Deus já está 25 anos fora da ativa.
O roteiro opta em construir uma personagem feminina para ser a serial killer A Louva-a-Deus, escolha que não é habitual devido a maioria dos assassinos em série violentos serem do gênero oposto. Servindo como uma espécie de justiceira, Jeanne Deber cometeu uma série de 8 assassinatos contra homens comprovadamente abusadores; obviamente se tratando de uma sádica que acredita punir quem deve, a louva-deus espera que seus assassinatos sejam vistos mais levemente por aqueles que a cercam. Outro fator relevante para a construção de Jeanne é que ela tem um filho, Damien.
Apesar da série partir dos crimes de Jeanne, o foco do protagonismo da série é Damien Carrot o filho da famosa serial killer. É esperado que Damien queira manter o segredo sobre a identidade de sua mãe, ainda mais quando por ser um policial. De início o roteiro leva a pensar que Damien está feliz e sem lembrar da mãe, mas ao decorrer da série e do retorno de Jeanne a sua vida é notável que o efeito é completamente negativo e a insistência da mãe em só ajudar se Damien se envolver no caso é um estressor a parte.
Uma nova onda de crimes, praticamente idênticos aos que Jeanne cometeu décadas atrás, assola novamente a polícia francesa. A equipe liderada por Dominique Feracci é encarregada de apreender e solucionar esta série de assassinatos, a chegada de Damien Carrot abala o equilíbrio da equipe quando Szofia Kovacs se vê preterida pelo novato; sem saber que Damien é uma peça chave para a captura deste.
Em meio a algumas reviravoltas, como dois suspeitos logo nos primeiros episódios, a construção de A Louva-a-Deus é bem equilibrada e o ritmo é muito diferente dos procedurais comuns que a América tanto ama. Alguns erros como algumas obviedades – como a da captura do primeiro suspeito a copycat da A Louva-a-Deus tão no início da série – podem ser ignoradas facilmente, no entanto outros assuntos abordados não são tão facilmente perdoáveis como a leve transfobia mais para o final da minissérie.

Os personagens em geral apenas estavam na série, sua história foi ignorada, talvez pela pouca quantidade de episódios ou por não darem créditos suficientes aos 90% restante do elenco. Damien, Lucy e Jeanne são os que mais tem plots fora a da captura do assassino e apesar de ter grande potencial, a história de Damien ficou um pouco superficial (talvez com a adição de mais flashbacks da infância com Jeanne ou sua adolescência com o avô, Charles). Enquanto a de Jeanne poderia ser mais completa, os típicos sinais de um serial killer foram escolhidos para a “construção do monstro” que quiseram retratar; o abuso pelo pai quando criança, o incidente violento (assistir a morte da mãe) e afins.
Com a caçada pelo novo assassino, Damien e Jeanne tiveram a oportunidade de começar a se acertar, o que parece improvável devido à natureza fria e calculista em que a mãe cometeu todos os crimes. Apesar da crescente relutância de Damien, ele queria respostas sobre o porquê sua mãe fez tudo aquilo e não ter podido cria-lo como em uma família normal, porém o tamanho da disfuncionalidade de sua família só foi demonstrado quando descobriu o abuso que a mãe sofreu pelas mãos do próprio pai. Outro sinal clássico para a “criação de um monstro”, que muitas séries gostam de recorrer; mesmo que seja verdade em muitos casos, poderiam recorrer a outras alternativas diferentes.
Nem tudo foi seguido pelo copycat, suas vítimas eram muito diferentes da louva-deus original. Eis que resolvem criar um plot mirabolante com indícios de transfobia que realmente não era necessário, dentre inúmeras motivações que poderiam utilizar para descrever a natureza insana de Virgine, escolhem logo uma improvável. A rejeição e raiva que uma pessoa trans pode sofrer não vai fazer com que ela seja uma serial killer sádica beirando a insanidade, poderiam ter trabalhado melhor a personagem já que escolheram uma pessoa bem próxima de Lucy e Damien Carrot.
O clima de thriller juntamente com a alta eficácia de incrementar plots que pareciam apenas filler – como Charles cuidando da enteada de Damien, Ninon – e adicionar certo mistério a eles fez com que nenhum episódio fosse repleto de insignificâncias. A estruturação e conexão de todo o enredo foi realmente surpreendente, compor o assassino em série ligado extremamente a vida de Jeanne sem que nem ela soubesse foi uma ideia competente, executada com excelência pelos protagonistas e todos os atores envolvidos.
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Seguindo o desfecho, a série saiu com o saldo positivo. A parte investigativa não foi muito bem o foco na série, uma escolha que funcionou até certo ponto – se tivessem adicionado mais plots contando sobre os personagens, isso poderia ser justificado – e também serviu para diferenciá-la das várias produções criminais que saem a cada ano. Como o formato é de minissérie, vale a pena investir tempo na história dos Carrot, o elenco é repleto de bons atores e o roteiro é interessante e independentemente de alguns erros e falhas na construção dos plots, é uma boa opção pra quem cansou um pouco da previsibilidade das produções americanas.
#1: o trabalho dos atores foi excelente, a escolha do elenco foi muito bem pensada;
#2: a trama consegue empolgar muito, é difícil não terminar rapidamente a minissérie;
#3: a produção e todas as locações foram uma ótima ambientação para o desenrolar da trama.












