Enquanto trabalha o relacionamento entre pais e filhos, Fugitivos atrasa a questão fundamental da série em Fifteen.

Fugitivos é a série da Marvel baseada em um grupo de adolescentes que decide fugir de casa quando descobrem que seus pais fazem parte de um culto/organização criminosa e perigosa. Bom, pelo menos nas páginas das histórias em quadrinhos é assim que funciona. Contudo, Fugitivos (série) ainda não permitiu que seus personagens principais realmente cumprissem com a premissa original do material proposto. Se lá no primeiro texto da série eu elogiei a produção por sua decisão de manter a fidelidade do que foi criado por Vaughn e Alphona, aqui precisarei tecer comentários mais duros quanto a “enrolação” e o ritmo lento que a série está adotando.

Quando decidiu que não iria fazer com que seus personagens fugissem, pelo menos não agora, Fugitivos tomou a decisão de trabalhar algumas questões de descobrimento usando a ótica de confronto familiar e não a que foi pensada na nona arte, com o desenvolvimento surgindo sem nenhum suporte emocional e com esses adolescentes fazendo a transição para a vida “adulta” sem apoio. Esta era a maior e melhor parte da HQ, que fez com que estes personagens recebessem todo um desenvolvimento centralizado no ver e agir, ao invés daquele que adotamos quando estamos vivendo com familiares, que é o do exemplo – do que fazer e do que não fazer, dos sermões… Até agora, porém, o não fazer surge apenas dentro do limite do: não mate ninguém.

Ainda estamos aprendendo algumas informações importantes enquanto a série começa seu processo mais intenso de desvio do material de origem. Nos quadrinhos, por exemplo, os Yorkes nunca chegaram a soar tão compreensivos e relutantes como na série. Gert descobre o dinossauro e foge logo em seguida, sem qualquer chance para que o confronto entre ela e os pais comece a ser trabalhado. Não existe nenhum problema em distanciar do material de origem e não foi por ser tão similar que terminei me apaixonando pelo piloto de Fugitivos. Na verdade, o que vale mais é a apresentação dos personagens e a maneira que cada um deles conversa com a versão criada incialmente para o papel.

Neste quarto episódio o que prepondera é exatamente a exploração da individualidade destes adolescentes, mesmo que pareados com outros. Chase não vê necessidade de manter qualquer amizade com Gert, porque para ele fazê-lo seria algo questionável – nada pode mudar. Karolina está descobrindo mais do seu poder de virar um jogo de luz de balada, enquanto Gert e Molly começam a investigar os pais e são apresentadas a Alfazema, a dinossauro fêmea e “cão de guarda” dos Yorkes. Sem também esquecer de Nico e Alex, que começaram a fundamentar o motivo que deverá levar estes adolescentes a fugir de casa.

O Orgulho, agora bem mais balançado pela falha da máquina, começa a apresentar as rachaduras causadas pela pressão. Não sei exatamente o que a série fará com os pais dentro da primeira temporada e nas próximas, mas estou gostando do que está sendo desenvolvido até agora. Enquanto procuram outro sacrifício, estes adultos estão cada vez mais desajeitados e perigosos. Victor Stein e Robert Minoru tentando encontrar um novo sacrifício após o primeiro ter escapado do carro de Victor apenas salienta quão desesperados eles estão. Só que até agora a série não nos ofereceu nenhuma compreensão em cima do assunto. Victor está amedrontado, mas qual o motivo? Esse ritmo menos acelerado é um pouco destoante com o que a série estava fazendo até então, mas compreendo que entregar todas as respostas agora terminaria matando qualquer futuro para a produção, especialmente porque estes pais nunca conseguiram qualquer história e base aprofundada nos quadrinhos.

Na relação entre os adolescentes, também existem vários pontos que conseguem separar Runaways de um drama adolescente comum. Gert está claramente sentindo algum tipo de paixão por Chase, é tão evidente que a montagem das cenas nem ao menos faz questão de deixar a personagem fora do quadro enquanto Karolina e o rapaz estão conversando. Contudo, Gert também é uma menina muito inteligente e com discurso cheio de identidade, ativismo. Quando percebe o que aconteceu com Karolina, seu quase estupro na festa do piloto, ela deixa de lado qualquer sensação de ciúmes e faz o possível para se aproximar da amiga de infância.

Também é por causa desta cena que o lado menos estável de Chase surge. Ele é um rapaz que precisou suportar momentos de abuso e negligência. O pai agressivo e a mãe inexpressiva definitivamente ajudaram a moldar a personalidade mais explosiva do rapaz. A união no final do episódio me parece como um movimento de desespero do pai, que tentará usar a inteligência e sentido de inovação do filho para seu intento. Não consigo imaginar essa situação indo para outro lado e a interpretação de James Masters, assim como sua caracterização, estavam ameaçadoras.

O quarto episódio de Fugitivos é um pouco inferior a seus antecessores, porque ainda insiste em segurar seus personagens centrais. Será que a série conseguirá se desprender do drama adolescente e do ensino médio? Ou precisaremos perdurar por mais um tempo com estes núcleos ainda presos, ao invés de fugindo dos pais? Enquanto a produção estiver pintando estes pais e mães como pessoas compreensivas, sentimentais e cinzas, os adolescentes não terão qualquer motivo para escapar. Alex e Nico já começaram a chegar mais perto deste ponto, mas só a compra de policiais não é o suficiente. Cada um deles precisara quebrar o vínculo familiar e ao que tudo indica ainda não estamos próximos do ponto de quebra.

Easter eggs e outras informações:

– Não sei exatamente como anda o mundo político da Marvel, mas a série fez menções aos Obamas, o que é complicado, porque na temporada passada de Agents of S.H.I.E.L.D. o presidente dos Estados Unidos ainda era o Ellis, que também estava exercendo a função em Homem de Ferro 3, que é de 2013…

– Nos quadrinhos Chase não inventa as fistigonas, mas as rouba dos pais. Existe um desvio bem grande do personagem, que até agora apresentou não várias discrepâncias com o Boca-Dura das HQs.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorYoung Sheldon 1×05/06: A Patch, a Modem, and a Zantac®
Próximo artigoSurvivor 35×10/11: Buy One, Get One Free
runaways-1x04-fifteenEnquanto trabalha o relacionamento entre pais e filhos, Fugitivos atrasa a questão fundamental da série em Fifteen.