Supergirl vai para marte em Far From the Tree, um episódio que poderia ter sido melhor dividido.

Supergirl cresceu bastante em escopo durante suas primeiras temporadas. Hoje, a série que começou como uma espécie de Diabo Veste Prada com super-heroínas e vilãs, já pode orgulhosamente apresentar seu portfólio com temas que vão da aceitação de filhas homossexuais, questões de imigração (agora parte do resumo da série) e reencontro de pais e filhos. E o melhor de tudo? Estes aspectos vêm acompanhados de uma temática de naves espaciais, marcianos e superpoderes. Resumindo, Supergirl é exatamente como uma história em quadrinhos – das mais antigas, com muito coração, mas que não se envergonha na hora de colocar um carro conversível em Marte, ao som de Britney Spears.

Far From The Tree é um episódio dividido entre duas linhas complementares. É tudo a respeito da aceitação e reconexão de pais e filhas/filhos. Temos a volta de Eliza Danvers, para fazer um paralelo entre a mãe que aceita a filha e celebra sua vida, com a entrada do pai de Maggie, que racionalizou a orientação sexual da filha como um desnecessário alvo apontado para suas costas. Ao mesmo tempo tivemos J’onn, que reencontrou o pai e também garantiu uma das cenas mais dolorosas que Supergirl já criou.

Só que o terceiro episódio do terceiro ano da série também terminou um pouco abarrotado. Com duas locações totalmente diferentes, a impressão final é a de que o roteiro tentou abraçar mais do que conseguia. Talvez o melhor, neste caso, seria encarar cada um destes assuntos de forma isolada. Contudo compreendo que em termos de narrativa faz mais sentido desenvolver estes temas em conjunto, assim a seriedade de Far From the Tree não precisa se dividir entre outras passagens. Este foi um erro do segundo ano da série, que constantemente tentava encaixar batidas cômicas do Winn com o James/Guardião, enquanto desenvolvia outras tramas mais importantes e com maior peso.

Começando pelo relacionamento de J’onn com o pai, a revelação da política dos marcianos brancos e do grupo de resistência foi interessante, com algumas ressalvas para o cajado místico e também para o tema da religião, que pareceu bem desconexo com o restante do episódio. No sentido geral, porém, este foi um dos momentos mais emocionantes, de um capítulo abarrotado de cenas emocionantes. Desde o relacionamento entre J’onn, Alex e Kara, como uma família, além do fato da Kara ter desistido do chá de panela (?) da irmã, que também teria desistido se conseguisse sobreviver na atmosfera de Marte, o valor da série estava todo ali, finalmente de volta como tema central. Temos uma família nada tradicional, com sentimentos que aquecem o coração.

Só que o fato marcante aqui não surgiu da vontade destas novas filhas do J’onn de o acompanharem, apesar deste peso ser bem grande para a construção dos três como uma família. O que mais teve impacto foi a triste cena em que J’onn precisa relembrar o pai de que ele é realmente seu filho, além da onda emocional que acompanhou cada um deles. A memória das filhas em um momento de afeto dividido entre aquelas gerações foi de partir o coração. Também ajudou o fato de Supergirl, fora do holofote neste momento, ter se emocionado com a aquela visão. A fala “elas são lindas” com certeza foi uma grande facada no peito.

Supergirl 3x03: Far From the Tree
Supergirl 3×03: Far From the Tree

Do outro lado, no planeta Terra, Maggie precisou se reconectar com o pai. É neste ponto que Supergirl avança novamente na trama recorrente de Maggie e Alex, além de pontuar exatamente o que fará com que o casal encontre seu fim. A história entre Maggie e Oscar é complexa, assim como toda relação entre pai e filha, especialmente quando a orientação sexual de um não é aquilo que o outro deseja – o que não importa, realmente, se o amor é mais forte do que o orgulho. E este orgulho é muito bem explorado ao termos Oscar, o homem que expulsou sua filha de 14 anos de casa, por ela ser lésbica, com uma foto dela na carteira ou acompanhando sua carreira pela internet. Esta decisão é agridoce e ajuda a compreender um pouco mais da Maggie, mesmo que a decisão de separar o casal por causa de filhos seja bem questionável. A nuance entre os aspectos humanos destes personagens, porém, foi bem acertada. Não existe um vilão determinado, como nas clássicas histórias em quadrinhos que Supergirl tanto gosta de se basear. O homem, errado em vários aspectos, ainda consegue demonstrar carinho e afeto pela filha.

Este discurso, especialmente antes do último adeus entre pai e filha, também reflete o atual período políticos dos Estados Unidos. Casualmente agentes de imigração estão indo contra a própria lei para fazer agir a decisão do Trump de catalogar imigrantes latinos (legais ou não) como assassinos e estupradores. O medo, usualmente usado em Supergirl através de alegorias de alienígenas (que também é o nome usado para imigrantes), dessa vez encontrou o tom perfeito dentro do discurso de um imigrante com uma filha nascida e criada dentro do país. É um soco no estômago e levanta mais uma vez a relevância que a série tem ao abrir espaço dentro da televisão em uma série de gênero para tratar assuntos tão relevantes que não seja o espírito emo de seu protagonista (ouviu Flash?).

Supergirl está a cada episódio mostrando com mais força que veio para passar uma mensagem – várias, na verdade. Sua escolha ao abordar temas como sexualidade, família e imigração foram decisões acertadas do time criativo da série. Não existe uma espécie de saída fácil ou final feliz, porque a vida de muitos LGBTQ não é simples e sempre feliz. Existem percalços e muito estigma colocado pela sociedade quando uma pessoa tenta apenas ser quem ela é. Esta saída mais dolorosa é em voga com a realidade atual e aplaudo a série por continuar mostrando esta faceta. Também existe esperança, com Eliza expondo que o erro veio de Oscar ao não aceitar a filha, e no fundo o que fica é a impressão de que Supergirl está aproveitando bem o espaço que tem e a audiência que a acompanha para tentar, mesmo que em um nível menor, fazer a diferença na vida de jovens e adultos.

Easter eggs e outras informações em Far From the Tree:

– Na mitologia marciana foram mencionadas duas divindades, Phobos e Deimos. Estes também são os nomes das luas que orbitam Marte.

– Phobos e Deimos também são deuses gregos, do medo e desespero.

– Supergirl chega ao som de Britney Spears. No videoclipe icônico a musa do pop canta Oops!… I Did it Again em Marte.

– Far From the Tree foi o primeiro episódio da série a não ter o D.E.O. como locação.

– Também foi em Far From the Tree que a atriz  Izabela Vidovic apareceu no pod kryptoniano, substituindo a atriz Malina Weissman.

> MINDHUNTER VALE A PENA? 🔪🚔 | SM Play #76 [4k] 

– Nas histórias em quadrinhos M’yrnn J’onzz foi morto por seu outro filho Ma’alefa’ak.

REVISÃO GERAL
Nota:
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