A vida em Fortitude, cidade localizada no arquipélago de Svalbard, território ártico norueguês, pode ser descrita de diversas formas, menos como agitada. Os habitantes se conhecem e vivem suas vidas sem grandes novidades, acostumados ao frio e ao modo como as coisas operam por ali. É por isso que todos ficam tão surpresos com a notícia da morte brutal de um cientista na localidade, o tipo de coisa para o qual os policiais não estão acostumados e que mudará radicalmente a dinâmica de relacionamento entre os cidadãos.
No primeiro momento, Fortitude é uma série de mistério que se foca na investigação sobre o cientista e as pessoas que teriam motivos para assassiná-lo. Ao mesmo tempo, o enredo desenvolve histórias menores, relacionadas às pesquisas científicas na região, à política local, à economia que o projeto de um hotel por ali irá alavancar, entre outras, que parecem deslocadas, mas aos poucos convergem com a trama principal, mostrando que o roteiro é bem elaborado e, na maioria das vezes, dá tempo em tela àquilo que precisa de tempo.

Conforme avançamos, o seriado ganha novos contornos, elementos de horror, surpreendendo o telespectador com cenas cruéis, sangrentas e difíceis de assistir. As cenas fazem a produção esbarrar na estética do grotesco, principalmente quando reduzem o humano retratado à condição de animal afetado pela natureza do lugar em que vive. O desenvolvimento de tramas paralelas, ligadas à obsessão no relacionamento entre algumas personagens, traz o terror psicológico para o gelo, oferecendo-o como recheio para dramas delicados e bem explorados.
Fortitude é uma série britânica criada por Simon Donald, roteirista e dramaturgo, responsável pelas séries The Deep (2010) e Low Winter Sun (2013), ambas sobre temas vistos, de alguma forma, na série deste texto. Ela, aliás, estreou em janeiro de 2015 no canal Sky Atlantic, fez uma temporada com doze episódios e retornou este ano para mais dez episódios que compuseram sua segunda temporada. Os episódios possuem em média quarenta e sete minutos no primeiro ano e quarenta e cinco nesse retorno.
A Primeira Temporada

A primeira temporada tem alguns focos narrativos. Além do ataque selvagem sofrido pelo cientista, acompanhamos uma família que está se adaptando ainda à Fortitude. O recomeço deles não é muito positivo porque Liam, filho do casal Frank e Jules Sutter (Nicholas Pinnock e Jessica Raine), desmaia e entra em um estado de coma, do qual acorda em uma noite e, não tendo os pais por perto, caminha desorientado sobre a neve de pés descalços, resultando em um congelamento (frostbite).
Hildur Odegard (Sofie Gråbøl), a governadora, é peça essencial para a história, principalmente porque é chefe do departamento de polícia local, para quem se reporta o xerife Dan Anderssen (Richard Dormer). Este possui os próprios segredos, que incluem o modo como tenta constantemente atrair a atenção de Elena Ledesma (Verónica Echegui), garçonete com um passado oculto da maioria — mesmo da governadora.
Outros destaques incluem:
O detetive Eugene Morton (Stanley Tucci), que alega ter chegado à cidade para investigar a morte do cientista, mas que tem outros motivos para estar ali. Ele é possivelmente a melhor personagem da série e o modo como desafia as regras estabelecidas pelos cidadãos para conseguir seus objetivos, mesmo que pareça muito desinteressado quando faz isso, apresenta-nos alguém inteligente e experiente na profissão.
A dupla Vincent Rattrey (o maravilhoso Luke Treadaway, atualmente visto em Mr. Mercedes) e Natalie Yelburton (Sienna Guillory) parece à parte em alguns momentos, mas protagoniza diversos seguimentos importantes e é responsável pela grande explicação por trás de algumas descobertas. Michael Gambon interpreta Henry Tyson, um velho fotógrafo apaixonado pelo local e que gostaria de morrer por ali — o que não é possível, afinal, ninguém pode nascer ou morrer em Fortitude: assim como não há uma assistência social muito forte na região, o solo não decompõe os corpos dos falecidos.

Como afirmado em entrevistas pelo criador, a parte do mistério que se refere a quem matou não é tão importante quanto o porquê. Quando esse pedaço é desvendado, ainda estamos na metade da temporada e há muito para acontecer, incluindo novos e inesperados eventos. A produção britânica tem sua força na decisão do roteiro de não solucionar seu crime como os desfechos conhecidos em outras séries, mudando seu gênero no processo.
Um grande problema na primeira temporada, e facilmente resolvido na segunda, é a família protagonista, principalmente Frank. As personagens chatas não se resumem a ele, mas a outros policiais locais, ao velho fotógrafo e seus dramas irritantes ou a uma jornada inteira feita por um pai e sua filha que tomam tempo demais. Mesmo assim, a temporada tem qualidade sólida. Os momentos de destaque são sempre quando o roteiro nos surpreende — como exemplo, digo apenas que há um casal que tem certa relação com comida (só assistindo para entender) e que protagonizam cenas tão incômodas e perturbadoras que o impulso de pausar a série pode surgir.
Elena é outro ponto positivo. A independência da personagem e seu poder de charme e manipulação são bem construídos e a fazem funcionar tanto sozinha, quanto quando divide cena com o xerife. Fortitude, ainda, não tem pena de se despedir de personagens importantes e carismáticas, algo que acontece nas duas temporadas e com a mesma força. Nesse sentido, a confiança que o roteiro tem em si é total para que não sinta medo de matar as personagens pelas quais torcemos.
A Segunda Temporada

Sem entregar muitas informações comprometedoras sobre o retorno da série, dá para destacar a entrega da produção ao horror. O primeiro episódio inicia com uma cena terrível de canibalismo, seguida por corpos sem cabeças que são achados pela cidade e um mascarado com perfil de filmes slashers andando por aí. O clima sobrenatural toma conta da cidade, porque, dessa vez, quem está por trás de tudo tem uma crença forte no mundo espiritual. Ao mesmo tempo, os cientistas se preocupam em continuar as investigações que podem explicar muito do que está acontecendo na região.
Se a temporada anterior possuía alguns defeitos, a temporada mais recente os conserta (pelo menos a maioria) e eleva o enredo. Algumas personagens que não eram tão interessantes, aqui ganham diversos desdobramentos e protagonizam boas cenas, a começar pelo xerife, que se torna peça essencial no desenrolar da história — além de uma das melhores personagens do ano dentro deste gênero. Ganhamos uma nova família também, esta composta por Michael e Feya Lennox (Dennis Quaid e Michelle Fairley), que lidam com a doença degenerativa dela. Há alguns momentos, aliás, em que a crença na qual a personagem deposita suas esperanças é bem utilizada como ferramenta para criar um vínculo com o público.
O fato desta temporada ter menos episódios também ajuda. A maioria das séries deveria ter dez episódios, porque a noção da dezena ajuda a estabelecer o começo, o meio e o fim. O gore (leia-se exploração do sangue) está mais presente. Destaco a cena que se passa em uma banheira (episódio nove) como uma das mais perturbadoras exibidas na televisão em 2017. Diferente da season anterior, aqui ganhamos antagonistas de forma mais escancarada e que cumprem o seu papel diante do público, recorrendo a diversas escolhas questionáveis e colocando personagens que gostamos em perigo. Vale sublinhar que esses vilões são bem introduzidos e conduzidos pela história.
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Enquanto a primeira temporada falou muito sobre ciência, essa fala bastante sobre fé e a crença local, mesmo que os estudos científicos continuem como parte importante da trama. O desfecho traz bons momentos e deixa espaço para novas temporadas e histórias. Há uma transformação visível na comunidade conforme os episódios passam, marca de que essa temporada poderia servir como a transição perfeita para uma definitiva.

Bem recebida por público e crítica, Fortitude é essencial para aqueles que acompanham produções britânicas. Além de um drama poderoso e um mistério bem construído, a série é também sobre horror como não estamos muito acostumados a ver. A mistura de tantos elementos se sai bem na primeira temporada e se consolida na segunda ao se permitir de vez os horrores possíveis dentro da cidade fictícia. Esta deixa de ser pacata para se transformar no palco principal de um festival de crueldades, onde homem e natureza disputam o posto de mais assustador e nocivo.
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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.















