Se eu fizesse um breve resumo sobre a primeira e única temporada de Blood Drive, talvez pensando naqueles que só leem um parágrafo, teria que afirmar que a série não faz sentido. Não por ser distopia, mas por estabelecer regras para si que ela mesmo não cumpre — uma das principais reclamações dos fãs de Game of Thrones sobre a última temporada se me permite desviar o assunto. Eu adicionaria que as personagens não são bem desenvolvidas e as reviravoltas são bizarras. Vale mencionar o apoio na escatologia e em deixar o telespectador desconfortável, a constante dependência da menção ao sexo como apelo (e não como contexto) e a falta de definição no próprio foco. A pergunta, depois do mencionado, é como a série consegue ficar, ainda assim, entre as melhores produções de horror deste ano na TV.

“Isso é arte, não forragem para as massas”.

Julian Slink, Blood Drive.

A história se passa em 1999, mas em uma realidade distópica. Nos Estados Unidos, uma rachadura, conhecida como cicatriz, foi aberta atravessando o país. Este lida com a catástrofe de uma nação assolada pelo crime, afligida pela falta de água e por um clima escaldante. Para sobreviver e conquistar um futuro promissor, diversas pessoas se inscrevem no reality de competição chamado Blood Drive, clandestino e transmitido para assinantes pelo mundo, no qual os competidores participam de uma corrida que atravessa os estados. A diferença é que os carros não são alimentados por gasolina, mas por sangue humano.

Dentro dessa realidade, encontramos Arthur Bailey (interpretado pelo ator Alan Ritchson), policial que tenta manter certa ordem pelas ruas de Los Angeles, lutando contra o contrabando de água e outros crimes provindos desse ambiente caótico. Seu parceiro, Christopher (Thomas Dominique), ajuda-o como pode, por mais que deboche de suas boas intenções e do fracasso que é tentar subverter o comportamento que ambos testemunham diariamente. Juntos, os dois partem em uma investigação independente depois de receber uma dica e descobrem a corrida que nomeia a série. Lá, Arthur é obrigado a formar dupla com Grace (Christina Ochoa, atriz espanhola que estará em Valor da CW daqui a pouco, promo aqui), concorrente que está ali para conquistar a quantia oferecia ao vencedor da corrida: 10 milhões de dólares.

Blood Drive
Blood Drive

Com essa premissa, Arthur e Grace correm pelo país esbarrando em situações bizarras e enfrentando os companheiros de corrida. Conforme as semanas, ambos lidaram com canibais, passaram por uma aldeia na qual as mulheres reivindicaram o poder e só usam os homens para sêmen, encontraram dois irmãos cujo beijo tem efeito de droga alucinógena e afrodisíaca, entre outros pontos de parada não aconselháveis e que prestam homenagem aos filmes antigos com os quias a série se associa. Mesmo que não se entendam no primeiro momento, a dupla percebe que as intenções por trás do motivo de estarem ali podem ser parecidas e é nisso que devem focar.

Alan Ritchson tem em suas mãos uma personagem comum de filmes de ação, impulsionada por motivações que jamais farão sentido, tão presentes e há tanto tempo que não é possível que ainda nos importemos. A intenção do roteiro é mostrar como qualquer pessoa, mesmo a última pessoa boa no país (o último bom policial), pode se corromper. Quando avançamos na narrativa, vemos sua tentativa em mostrar essa luta constante do ser racional em deixar de lado aquilo que pode comprometê-lo. É a velha história das circunstâncias mudando o indivíduo. A personagem não exige muito, então o ator não incomoda. Na verdade, seu histórico com o absurdo e com o ridículo (seu videoclipe para uma música chamada Mojito, por exemplo) o ajudam a se sentir confortável no papel.

Christina está bem e só é desfavorecida quando a série esquece a importância que sua personagem tem e a coloca de lado, como o que ocorre perto do final. Acredito que ela teria potencial para ser a verdadeira protagonista, uma vez que o desenvolvimento de sua história, que envolve resgatar sua irmã, é o mais interessante. O destaque, quanto à atuação, fica mesmo com Marama Corlett, que interpreta um androide (?) que tem um jeito peculiar de andar e que faz parte de um dos casais mais bizarros possíveis, e Colin Cunningham, já habituado com o gênero. O ator interpreta Slink, o apresentador do programa no qual a corrida é transmitida. Não só a personagem mais bizarra (e às vezes unidimensional), mas a que ajuda a estabelecer o humor dentro da série. Há certa dose de exagero em ambos, mas Blood Drive é sobre exageros.

Blood Drive
Blood Drive

Pensando dessa forma, perdoamos e exaltamos o estilo da narrativa. Por mais que não seja uma série que agradará a todos pelo uso constante do grotesco (no sentido que conversamos por aqui), Blood Drive investe na própria proposta e tem consciência de seu universo. Por isso, a série utiliza da metalinguagem para criar uma linguagem própria, debochando das personagens, da trama, da estrutura clássica de desenvolvimento de roteiro, do público, do meio televisivo e de diversas convenções sociais que mesmo nesse mundo distópico parecem ter peso. Além das conversas que Slink traz, constantemente preocupado com a audiência e em agradar a emissora, temos comerciais bizarros que lembram aqueles também bizarros de Six Feet Under.

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Para deixar este texto tão franco quanto eu poderia, devo dizer que em alguns momentos as reversões de regras propostas pelo seriado não são tão bem-vindas. Ele estabelece seu mundo e seus critérios, mas se esquece deles como convém. A falta de desenvolvimento das personagens, ou pelo menos a forma como é feito, implica na perda de empatia quando algumas reviravoltas acontecem. É possível que o telespectador sinta que estão abusando de sua paciência em certo momento. Outro ponto é que o roteiro poderia ter explorado outros concorrentes nessa corrida e lhes dado mais espaço.

Como noticiado aqui no SM, a série foi cancelada depois de sua primeira temporada. Quando isso ocorre, a pergunta é sempre se vale a pena assistir aos treze episódios da mesma forma, se há conclusão. Há sim, e fica a recomendação da mesma forma. A corrida é concluída na própria temporada, e a jornada de diversas personagens têm um final — talvez não o que esperávamos, mas tem. A série ainda abre espaço para imaginar uma continuação, mas não compromete o estado em que deixa seu enredo.

Blood Drive
Blood Drive

Fazendo homenagem aos cinemas conhecidos como grindhouses, onde filmes do subgênero exploitation eram exibidos, Blood Drive não encontrou seu público provavelmente por isso. Seria preciso resgatar nas pessoas a diversão de assistir ao exagero encenado do sofá de casa; e com essa realidade cada vez mais temperada na violência, fica difícil comprar a ficção cegamente sem ficar surpreso, aqui e ali, com seu tom de realismo.

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ps:

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Anedota futil:

Eu costumo assistir às séries (também) fora de casa. Há uma reviravolta em Blood Drive envolvendo o diretor do programa que é tão absurda, mas tão absurda, que eu quase gritei dentro do ônibus. Vocês que assistiram, imaginam qual é?

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
blood-drive-repugnante-absurda-divertidaFazendo homenagem aos cinemas conhecidos como grindhouses, onde filmes do subgênero exploitation eram exibidos, Blood Drive não encontrou seu público provavelmente por isso.