No premiado décimo quarto episódio da terceira temporada de Arquivo X, denominado “Grotesco”, os agentes Fox Mulder e Dana Scully são requisitados em um caso no qual um serial killer alega que fora possuído pelo espírito de uma gárgula e que ela cometera os crimes dos quais ele é acusado. O homem é, ainda, um artista que tem as paredes de seu estúdio decoradas pela referida figura. Esta, monstruosa, responsável pelo título do episódio e por se tornar uma obsessão ao criminoso, é associada à decoração na área da arquitetura, presente em diversos templos que remetem à Idade Média.

“Por mais de 1.200 anos, a imagem grotesca achou expressão em pedra, argila, madeira, óleo e grafite. Como se estivesse ressuscitando através da expressão da tortura humana, quase como se existisse, assombrando o homem de dentro para fora.”

Fox Mulder em Arquivo X (03×02: “Grotesco”)

Em sua narrativa, evocando a pesquisa realizada para entender a mente do artista e assassino, Mulder se refere à imagem, que é um recorte de uma estética muito maior. Mesmo assim, podemos tomar como base sua reflexão para analisar esse contexto gigante do qual as figuras fazem parte. Seu maior questionamento é se o impulso que levou o homem a tais ações existe e está presente em todos nós, disparado por conta das circunstâncias. A conclusão do episódio não é muito positiva, nesse sentido.

O aparecimento da palavra grotesco (de grotta, italiano: “gruta”, “porão”) data do final do século quinze e se relaciona às escavações realizadas na Itália nesse período, que revelaram diversos ornamentos esquisitos e inspiraram os artistas da época. O estranhamento causado pela reprodução desse visual tão diferente dos padrões estéticos influenciou no repúdio que as obras ganharam da igreja, de outros artistas e do público. Isso não impediu que o grotesco prosseguisse como matéria de pesquisa, estudo e trabalho para diversos profissionais.

“De um substantivo com uso restrito à avaliação estética de obras de arte, torna-se adjetivo a serviço do gosto generalizado, capaz de qualificar […] figuras da vida social como discursos, roupas e comportamentos.”

— Trecho de “O Império do Grotesco”, Muniz Sodré e Raquel Paiva.

Espalhando-se pelo mundo e ganhando nomes associados (burlesco, arabesco, brutesco), a estética atravessou os séculos e foi refletida em diversas áreas da arte, não se limitando à pintura e à escultura. Um estudo aprofundado sobre o assunto, como o feito pelo teórico de literatura Wolfgang Kayser, alemão responsável por Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, que completa sessenta anos de seu lançamento em 2017, navega pelo uso do termo na literatura, apontando para sua presença no Romantismo, nos contos de horror, no texto dramático e na literatura moderna. Ou seja, grotesco não é apenas uma palavra forte que os políticos usam entre si para se digladiarem.

Grotesco: Um Princípio Estético

Depois do aparecimento e da permanência de diversas figuras e formas que provocavam a repulsa e o descumprimento de certas regras clássicas de estética, não só na pintura, mas na Literatura, era inegável dar ao grotesco sua própria classe, sua categoria. Ele, então, foi reconhecido não só como um símbolo encontrado em algumas obras, mas a própria categoria a qual a obra poderia pertencer. O autor Victor Hugo elucidou essa questão, escrevendo um prefácio para sua peça, Cromwell (1987), com ares de manifesto e que provoca uma reflexão sobre o modo como a tradição escrita não reflete a complexidade humana — hoje publicado separadamente no Brasil como Do Sublime e do Grotesco.

Muniz Sondré, jornalista e sociólogo brasileiro, pesquisador da área da Comunicação, trouxe o assunto para os anos dois mil. Tendo abordado o assunto em A Comunicação do Grotesco (1983), que fala sobre o conteúdo televisivo voltado às massas no Brasil, o autor publicou em 2002 um seguimento para o debate, O Império do Grotesco, tendo como coautora a professora Raquel Paiva (UFRJ). O livro pode ser tomado como base para elaborarmos uma definição:

No que diz respeito ao discurso, o grotesco pode ser: representado, suporte escrito ou imagístico; ou atuado. Neste segundo caso, subdivide-se de forma espontânea (“episódios ou incidentes da vida cotidiana, geralmente expostos na mídia, que apontam para o rebaixamento espiritual ou a irrisão […], características do grotesco”), encenada (característico de peças teatrais) ou carnavalesca.

Quanto às espécies, e o que ajuda a esclarecer para continuarmos essa conversa, Muniz e Raquel o classificam como: escatológico (referência a dejetos humanos, secreções, partes baixas do corpo, etc), teratológico (monstruosidades, aberrações, deformações, bestialismos, etc.), chocante (também visto como “grotesco chocante”, encontra-se quando relacionado ao impulso sensacionalista de apenas chocar e pode ser associado aos dois anteriores) ou crítico (utiliza aspectos grotescos para levantar discussões sobre aquilo que retrata; pode ser encontrado em paródias ou caricaturas).

“Grotesco é quase sempre o resultado de um conflito entre cultura e corporalidade.”

— Trecho de “O Império do Grotesco”, Muniz Sodré e Raquel Paiva.

Assim, fica fácil identificar que o grotesco é muito utilizado para provocar o riso, afinal, faz o rebaixamento da figura humana, remetendo-a aos seus aspectos fisiológicos e instintivos. Abusa da figura do palhaço, em alguns momentos, para provocar a repulsa a partir de um texto que indica às pessoas, usando sempre uma linguagem escancarada como meio, seus membros sexuais e seu comportamento como sociedade. Indo além disso, o grotesco aparece na associação de pessoas com animais, na deformidade do corpo humano, tido por tanto tempo como sagrado.

Fechando os exemplos nos próximos parágrafos, utilizo as referências de Sodré e Paiva, novamente, para destacar a literatura de Lima Barreto, na qual há um constante deboche e rebaixamento da figura humana na descrição de suas personagens. Diversas obras de outros autores contêm princípios que podem ser lidos assim, por mais que não tenham em sua totalidade os aspectos dessa estética. Ou seja, ela aparece em alguns momentos. Isso ocorre com Machado de Assis, na poesia de João Cabral de Melo Neto e na obra quase satírica de Hilda Hilst.

O cinema, que cresceu junto com a tecnologia, foi fazendo reflexões sobre ela e o corpo humano, em trabalhos que não ficam apenas no campo da ficção científica e do horror, mas às vezes entre ambos — caso de The Fly (David Cronenberg, 1987). Sodré e Paiva: “o grotesco centra-se no ‘corpo pós-biológico’, isto é, aquele que ultrapassa pouco a pouco a dimensão biológica ou físico-química da vida em função da mescla entre o natural e o artificial-tecnológico”. Exemplo mais simples é a aclamada animação Shrek (Andrew Adamson e Vicky Jenson, 2001), que não só faz uso de uma comédia com um pé na escatologia, apoiada na percepção do repulso a algumas situações relacionadas ao corpo, como propõe a humanização de figuras animalescas e o relacionamento entre uma pessoa e uma figura grotesca — o ogro, protagonista. Aqui, entre outros temas, há uma crítica ao ideal de fantasia voltado ao público infantil.

Sendo, então, a deformação de uma estética (comportamento, linha de pensamento) estabelecida, o grotesco precisa de contexto. Utilizando de um exemplo pessoal, a primeira vez que eu esbarrei de forma direta na abordagem do assunto, em aula sobre teoria do teatro, um colega de classe deu um exemplo qualquer à professora e perguntou se aquilo representava o grotesco. Para ela, na verdade, não. O exemplo da professora, para ajudá-lo na compreensão, abordou o relacionamento entre alguém bem mais velho e outro bem mais novo. Há um contexto cultural, social e legal para que esse pensamento seja tido como grotesco — o que não faria sentido, por exemplo, em culturas antigas, como se pode pesquisar. 

O Domínio do Grotesco

Quando os autores do livro no qual se baseia esse artigo se referem a um império formado pelo grotesco, pode ocorrer um estranhamento por parte do leitor, afinal, alguns exemplos aleatórios não constituem um império, de fato. Baseado nisso, e para complementar os exemplos dados pela publicação de dois mil e dois, resolvi pesquisar, durante essa semana (registra-se 24 a 30/09/2017), o que se consome como produto, artístico ou não, atualmente.

(Antes de ir aos exemplos, vale sublinhar que aqui o objetivo é puramente encontrar possíveis associações, não deixando o grotesco como sinônimo daquilo que tem ou não qualidade artística, afinal, o artigo não se propõe a isso. Não está sendo feita, de maneira alguma, um julgamento moral/artístico sobre o mencionado.)

Indo ao iTunes norte-americano, maior centro comercial de música, reconheço o novo single de Taylor Swift, cantora do país, no topo. Isso me lembra que o clipe da música, incontestavelmente uma das ferramentas para sua promoção, começa com ela ressuscitando em forma de zumbi e mesclando o visual monstruoso com o humano. Cardi B, rapper que a desbancou do topo da parada da Billboard com “´Bodak Yellow”, tem uma música apoiada na provocação de seu gênero, na qual se utiliza palavras que podem soar ofensivas ou não. Imagine Dragons, não muito atrás, tem uma música simples, mas que no videoclipe que a acompanha torna-se fundo para artistas de contorcionismo que, justamente, manipulam o próprio corpo para causar a sensação de estranhamento e deformação. Algo que aparece no trabalho do artista Portugual. The Man (o clipe “Feel It Still”). Ou seja, por mais que as músicas não façam referência direta a aspectos do grotesco, fazem parte deste contexto quando partem para a linguagem visual em outras plataformas.

“O grotesco é o nosso mundo — e não o é.”

Wolfgang Kayser, O Grotesco.

Talvez porque é o que funciona no YouTube. Isso se reafirma quando Whindersson Nunes, talvez o maior nome atualmente no que diz respeito aos criadores de conteúdo na plataforma, encabeça a lista dos maiores influenciadores do país em pesquisa recente da Google. Com uma busca rápida, através de uma filtragem de visualizações, verifica-se que seu humor, apoiado na escatologia, na exploração do corpo como instrumento para o riso, ganha milhões de visualizações em vídeos que exploram o absurdo de alguns contextos sociais. Isso porque, novamente, dentro de nossa realidade, a pobreza é muitas vezes vendida em programas de tevê, ou explorada em stand ups, naquilo que aflige a pessoa em sua condição de humano e a ridiculariza em relação às demais.

Esse é o reflexo de outros YouTubers, e é o que constantemente aparece na zona “Em Alta” do site brasileiro, onde pegadinhas, notícias absurdas, títulos apelativos e propostas que saem dos contornos daquilo que temos como padrão se destacam. Uma das consequências desse sucesso é o mercado literário frequentado por essas pessoas, como o recente “livro” (aspas por conta do formato, que lembra uma revista) de Felipe Neto, sucesso na Bienal e que desbancou todo e qualquer livro oferecido no evento.

Ainda no YouTube, mas fazendo uma ponte com a música, temos o vídeo para a música Despacito (Luis Fonsi em parceira com Daddy Yankee), lançado em janeiro desse ano, que alcançou três bilhões (!) de visualizações nesses últimos meses. Bem produzido e iluminado, penso no vídeo como o grotesco atuado, aquele carnavalesco já citado e que transpõem as descrições da letra. Uso Sodré e Paiva para complementar: “(o grotesco carnavalesco) Aparece nos ritos e festas regidos pelo espírito carnavalesco e circense, desde festejos populares até o Carnaval propriamente dito. Essas manifestações — que remontam à Idade Média europeia […] — são hoje típicas de espetáculos circenses, das feiras urbanas (Brasil e México), das festas de largo, de festividades religiosas com forte participação popular”. Esse trecho praticamente define o clipe e sua animação, talvez a explicação para parte do número de exibições obtidos.

O filme que mais arrecadou esse ano, Beauty and the Beast (informação do Box Office Mojo), retrata um de seus protagonistas como uma figura monstruosa que faz alusão à fusão entre um animal e uma pessoa. Não é um acaso quando pensamos que diversas pessoas (pelo menos dentro de minha bolha social e pelo pouco que acompanhei na internet) foram ao cinema ver a Fera em seu aspecto atualizado.

Vale adicionar que Game of Thrones, a série mais popular dos últimos anos, tem seu texto e diversos momentos de sua jornada apoiados no grotesco como aspecto ou comportamento. Das falas provocativas de suas personagens às ações, a produção apela para o lado mais selvagem e controverso do ser humano, complementando o debate com criaturas e seres (mais presentes nos livros) que ressaltam o instinto humano frente às percepções de moral estabelecidas no nosso contemporâneo, mas inválidas no mundo de Martin, que joga nossas regras sociais no lixo.

Apenas alguns exemplos, dentre tantos, mas que destacam não só a presença de ferramentas do grotesco (quando ele propriamente não está presente em sua totalidade), como o sucesso que se obtém utilizando dessa linguagem. Assumindo essa presença, resta fazermos uma reflexão sobre esse uso.

O Grotesco Como Possibilidade de Narrativa

Quando aparece isolado em um momento, não se pode dizer que uma obra ou conteúdo fazem parte do grotesco. Quando ele se torna a base, entretanto, temos aí a afirmação de uma linguagem que propõe se comunicar com as pessoas, através da pintura, do teatro, do cinema ou da internet, utilizando o repúdio, o escarnio, a sátira, entre outras características. É o caso dos citados vídeos da internet que se baseiam nisso, ou em pinturas que retratam aspectos do grotesco, como bestialismo (exemplo: a obra da artista Adriana Varejão, que se envolveu na recente polêmica em Porto Alegre).

“[…] A ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel.”

Machado de Assis, conto “Pai Contra Mãe”.

Provocando debate, repúdio e outras manifestações internas ou exteriorizadas, as obras do grotesco são usadas como parte da condução da narrativa que as pessoas que as manipulam desejam construir. A narrativa pode se dar pela provocação de um tema polêmico, mas existente, de forma que a sociedade veja um problema social retratado ali e, a partir desse incômodo, se manifeste para que haja alguma solução. Pode-se, também, debochar daquilo que é considerado “normal” e atribuir aspectos de belo a coisas que ignoramos ou repudiamos por conta da herança cultural que passa quase despercebida em nosso dia a dia.

Sobre caricaturas da obra de Lima Barreto, segundo Sodré e Paiva: “sublinhando até ao exagero determinados traços, o escritor radiografa o que, no ente ou no objeto, é incomodamente real”. Assim, o grotesco pode escancarar problemas que outras formas de manifestações artísticas, tão relacionadas ao belo (naquilo que até hoje se entende como arte), escondem. Ele coloca os pés do espectador no chão e seus olhos à sua volta, para que perceba o que sua alienação não permite.

Em outros casos, é evidente, o uso do grotesco é apenas uma construção de público, um apelo que não é apoiado por uma grande causa. É o apelo pelo apelo. Isso se vê muito nos programas de televisão, assustados com a concorrência o bastante para puxar o telespectador como pode. Os exemplos são vários, destacando-se Pânico na Band, programa começado na rádio e adaptado para a tevê no seguimento de Pânico na Tv. Nele, há um humor que se aprofunda no repúdio, na escatologia e no rebaixamento de seus próprios protagonistas.

Nos primeiros anos, era quase que uma forma de vingança de seus apresentadores e telespectadores aos formatos mais “convencionais”, debochando de celebridades ou figuras políticas e levando até elas aspectos que as rebaixavam ao mesmo nível dos cidadãos comuns. Ignorava-se, assim, por exemplo, a linha que separa a periferia dos atores globais. Hoje, o programa que já era controverso no que diz respeito à própria linguagem, aos aspectos hipócritas em seu conteúdo, ao uso da violência, entre outras coisas, se resume a um compilado de esquetes do grotesco chocante.

O Programa do Ratinho (principalmente nos anos noventa e começo dos anos dois mil), A Praça é Nossa, o Zorra Total (em seu formato antigo) são outros exemplos dentro da televisão, nos quais diversas figuras são trazidas como grotescas para que chamem a atenção do público e colaborem com o relacionamento que seus apresentadores criam com essas figuras. É através desse exemplo que se pode refletir por que, por muito tempo, diversos homossexuais não gostavam de como eram representados na tevê:

Não é que a personagem ali não existisse e não fosse a cópia de alguém que eles conhecessem. A questão é que ela não era trazida como um ser complexo e humano, mas a representação de algo que era grotesco aos olhos da sociedade e que, por isso, provocava o humor. Esse é o debate que diversas produções que tentam trazer representatividade para si causam. Não é a falta da figura marginalizada, muitas vezes, que condena as pessoas que ali deveriam se sentir representadas, mas a forma como essa figura ganha esses espaços.

(Vale lembrar que, por mais que pareça um fruto da produção atual, o grotesco está presente no meio televisivo e no rádio há décadas.)

Na Literatura, às vezes o grotesco se faz imprescindível nas mãos de autores como Stephen King. Aqui, o grotesco tem um papel que dificilmente poderia se substituir por outro aspecto da narrativa. Partindo de minhas leituras pessoais do escritor, vejo-o utilizar-se dessa estética para perturbar o leitor e fazê-lo testemunhar as atrocidades que podem ser cometidas ou sofridas na experiência humana. Presente em figuras monstruosas, o grotesco de King também está na linguagem escancarada e que utiliza palavrões ou descrições minuciosas para compor o ambiente onde suas histórias se passam.

O uso se estende para programas de rádio, nos quais pegadinhas que ridicularizam suas vítimas vão ao ar. Está também presente em video-games e conteúdos gráficos, nos quais o grotesco ajuda na criação de mundo de seus responsáveis e em atiçar a curiosidade dos jogadores através desse espanto. A possibilidade de narrativa está presente em animes, nas performances de arte contemporânea, em HQs — e mesmo na não ficção.

Para pensar na não ficção e na presença do grotesco no jornalismo, cito Diante da Dor dos Outros (Susan Sontag, 2003), livro no qual a autora se propõe a refletir, através de artigos e ensaios, o uso de imagens de guerra que são divulgadas em revistas, museus e outros meios de exibição. O livro incia com citações ao repúdio que tais fotos despertavam na escritora britânica Virginia Woolf e segue por uma jornada que contempla o sofrimento do outro como interrogativa. Em alguns momentos, Sontag fala sobre como o choque que as imagens provocam pode ser utilizado para manipular as pessoas, tratando-se de uma guerra, mostrando as monstruosidades cometidas pelo outro lado. Esse, então, é um exemplo do poder de comunicação do grotesco — aquele que se relaciona à crítica; esta bem tendenciosa, é verdade.

Pensando assim, o grotesco é a estética na qual seu criador/artista tem, talvez, o mais próximo de uma propriedade total em relação ao que espera de seu espectador. Isso porque, assim como na Filosofia da Composição de Edgar Allan Poe, parte-se do princípio de explorar o que se quer retirar do outro como reação. O criador analisa a sociedade em que vive, os padrões estéticos e comportamentais tidos como certos e toma-os como rascunho. Essa tem sido, aliás, a plataforma política de muitos candidatos atuais, e reconhecer a estratégia nos ajuda a nos afastar de um pensamento movido pela emoção que o responsável pelo material queira nos provocar.

Grotesco e o Horror da TV

Assistindo à segunda temporada de Ash Vs Evil Dead, notei diversos aspectos que me chamaram a atenção. Não só o gore frequente estava presente. Não só as figuras humanas tornadas monstruosas através de demônios, características presentes no filme e na primeira temporada, mas uma constante referência à escatologia. O episódio que destacou isso para mim tem cenas que se passam em um necrotério (02×02: The Morgue). Lá, o protagonista precisa encontrar um objeto que está dentro do estômago de um cadáver. Para cumprir seu objetivo, ele utiliza a mão, vasculhando como pôde, e depois a cabeça. Sim, temos uma cena na qual sua cabeça entra dentro do corpo de outra pessoa através do meio mais improvável. A partir daí, citações a cheiros, visualização de textura, entre outras coisas, compõem momentos constrangedores e absurdos.

Na série de Ash, o grotesco é utilizado para celebrar seu absurdo através da comédia e provocar o riso do telespectador, afinal, a produção se classifica como comédia. Além de destacar o uso da estética em séries de horror, é importante perceber que esse uso não se associa à qualidade, uma vez que produções aclamadas recorrem a isso. A série da Starz tem suas duas temporadas aclamadas, unindo-se aos três filmes que foram bem recebidos.

Blood Drive, positivamente analisada em sua recepção, é outro exemplo. Nela, temos a clássica discussão entre bem e mal, o que é humano e o que é social, escondida em cenas que retratam a sempre presente escatologia, o sexo representado como animalesco, a monstruosidade em diversas esferas, etc.

Assim como o saudoso George A. Romero não deixava de comentar em entrevistas, o horror pode ser utilizado como alegoria para críticas sociais. O grotesco, então, ajuda os produtores a afundarem suas personagens em realidades que cobrem reações cada vez mais próximas daquilo que eles definem como princípios mais humanos do que sociais. Esse é o caso de The Walking Dead, série que tenta (às vezes só tenta) demonstrar que o grotesco humano é tão perigoso, ou mais, quanto o grotesco monstruoso que ameaça as personagens na figura de zumbis. A série, ainda, comprova que a percepção de grotesco, no que diz respeito ao comportamento, é questão de contexto, conforme falado anteriormente. Explico: o que é grotesco para um grupo de sobreviventes, não é para outro.

American Horror Story, que chegou esse ano a sua sétima temporada, assustou seus telespectadores durante muito tempo ao colocar em convivência personagens com alguma deformidade e as protagonistas. Essas figuras não só são utilizadas para vilanizar momentos, mas para criar um ambiente questionador da estética glorificada fora da série. Neste ano, além de utilizar a clássica figura do palhaço (ricamente presente no grotesco, como na nova adaptação de It), a série tem a interessante proposta de estudar o grotesco a partir do discurso das personagens e de situações criadas pelas crenças e convenções sociais.

Salém, que encerrou sua história na televisão em janeiro desse ano, também manipulava, muitas vezes, o grotesco com esse objetivo. A série se utilizava da crueldade obtida através da mágica para estudar a relação entre suas personagens e muitas vezes tinha no grotesco a provocação para o contexto pudico no qual elas viviam. Ele era, entre outras coisas, a representação da autonomia sobre o próprio destino. As bruxas da série abraçavam o grotesco como quem abraça aquilo que é arma diante dos outros, aquilo que é rejeitado e, por isso, passa a ser 100% de quem o acolhe.

“Não existe mais diferença entre a televisão e o público depois de algum tempo.”

Jacques Lacan, citado em O Império do Grotesco.

Black Mirror, que às vezes brinca com o corpo humano e o funde à tecnologia desde sua primeira temporada, chegou ao Channel 4 em 2011, nove anos depois da publicação de O Império do Grotesco, e, mesmo assim, conversa diretamente com o trecho já destacado por aqui. Tomando exemplos dessa última temporada, a série muitas vezes faz essa fusão para nos fazer refletir sobre o quanto essas duas coisas estão próximas e tratadas na mesma condição — cuida-se do corpo como cuida-se do celular. Alguns episódios que levantam essa crítica (Playtest, Men Against Fire) trazem elementos do horror para complementá-la.

O modo como o grotesco aparece de forma tão aberta e com tanta frequência em séries e filmes de horror se dá pela perspectiva dos idealizadores a respeito do público. Este, tratando-se de horror, não pode ser comparado a outro tipo. A exigência, o preparo e a expectativa do público de horror são diferentes de outros públicos. Nós, devoradores do gênero, estamos acostumados ao absurdo, ao sangue e ao exagero — quem está acostumado a ver filmes como Centopeia Humana (Tom Six, 2010), no qual pessoas são costuradas através do ânus para se construir um animal que faça referência ao título, não se impressiona com sequências de Ash Vs Evil Dead.

Por isso tudo, a pluralidade de séries de horror que não se acanham.

Perspectiva de Contemplação do Grotesco

Para o público geral, o grotesco chega disfarçado, como nos diálogos de Veep, na construção das cenas de Orange Is The New Black, com as conversas de Girls, nas personagens de Two and a Half Man, e outras dezenas de casos, às vezes mais claros. Isso ocorre porque o grotesco dá ao público a experiência que outras estéticas não permitem. Ele não faz o arroz e feijão para o público sair satisfeito. É no incômodo seu lugar de atuação. Seja na Literatura, na qual temos, por exemplo, uma personagem transformada em inseto (Metamorfose, Kafka) ou uma mulher em contato com uma barata durante quase duzentas páginas (A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector), o estilo não permite a fuga e o costumeiro desdém que guardamos para obras que não nos provocam reação.

“Em sua modalidade crítica, o grotesco não se define como simples objeto de contemplação estética, mas como experiência criativa comprometida com um tipo especial de reflexão sobre a vida.”

Muniz Sodré e Raquel Paiva em O Império do Grotesco.

Pensando dessa forma, ele é ainda problemático para situações em que o público não possa se esconder. Assistindo a um filme ou a uma série, é possível ter a experiência com a obra, isolada, como indivíduo. Em performances de arte contemporânea, no teatro e em meios presenciais, ficamos com a sensação de que precisamos reagir àquilo, principalmente se estivermos acompanhados. A presença possibilita o contato, o tecido, o calor, o cheiro — alguns aspectos que o público nem sempre se vê preparado para testemunhar.

Os artistas insistentes, por mais que saibam que afastam parte do público ao investir na proposta, continuam a trazer referências diversas por acreditar que o grotesco é a forma correta para que o homem, que tanto se difere do animal, contemple as próprias falhas, o próprio estado de ser biológico que respira e tem necessidades. Na presença de algumas obras, itens necessários em nosso mundo, como dinheiro, conquistas e status tornam-se descartáveis e as pessoas se veem retratadas no coletivo em questões mínimas e abrangestes. Essa percepção, assumida por aquele que se manifesta contra e deseja o esconderijo, é, para ele, o maior horror que se pode experimentar em sua condição de ser racional, sensível e aberto ao estímulo provocado pelo alheio.

Vale ressaltar, como conclusão, que o grotesco muitas vezes é apenas chocante e não propõe nenhuma análise e nenhuma reflexão. Em uma época na qual há o reality show como o maior exemplo de como a televisão pode rebaixar as pessoas para exibi-las, é preciso analisar o sucesso de algumas coisas a partir do que lhes dá plataforma. Isso aumenta nossa compreensão sobre nossa própria cultura, nos estimula a quebrar regras sociais que não representam a todos — ou a buscar um entretenimento que não seja pautado apenas por estímulos que nos atiçam.

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Referências / Recomendações:

* “O Império do Grotesco”, Muniz Sodré e Raquel Paiva (Mauad X, 2002);

* “A Comunicação do Grotesco: Introdução à Cultura de Massa no Brasil”, Muniz Sodré (Vozes, 1983)

* “O Grotesco”, Wolfgang Kayser (Perspectiva, 2009)

* “Do Sublime e do Grotesco”, Victor Hugo (Perspectiva, 2014)

* “Diante da Dor dos Outros”, Susan Sontag (Companhia das Letras, 2003);

* blog: omundodogrotesco (alimentado por Fernanda Ferreira e Mirian Oliveira);

* site “A Escotilha”, artigos: “Pânico na Band e a Televisão do Grotesco”, “A Quem Acerta O Chute do Ratinho?” e “Não se engane: nós compactuamos com a humilhação de Rita Cadillac” escritos pela jornalista Maura Martins.

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ps:

(1)

Como as referências esclarecem, o artigo é um apanhado de informações adicionadas a percepções pessoais e relacionadas ao mundo do horror. Assim como os autores do Império afirmam que Victor Hugo não chegou às conclusões de seu Prefácio sozinho, mas apoiado pelo trabalho de quem o antecedeu, sinto-me na obrigação de destacar isso.

Novamente, o grotesco aqui referido não é em sentido depreciativo. Vale acrescentar, também, que eu não trouxe imagens clássicas da estética, facilmente encontradas no Google. Isso porque o objetivo é atualizar a obra de Sodré e Paiva, tentar definir o grotesco e procurá-lo em lugares incomuns e em nosso contexto.

(2)

Este artigo inaugura o segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. Assim como no ano passado, o objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) e que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017. Se você perdeu algum texto sobre as séries do ano passado, é possível acessar o conteúdo através da hashtag, que inclui uma breve cronologia das séries de horror na TV e uma reflexão sobre por que o horror fascina seu público.

Novamente, é preciso ressaltar, conforme ano passado, que o surgimento da proposta é influenciado por Tatiana Feltrin, que tem um canal literário no YouTube e recentemente completou dez anos explorando o tema. Já no quinto ano, ela costuma fazer vídeos sobre livros de horror em outubro e carinhosamente cedeu o uso do nome por aqui. Recomendo acompanhar!

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.