Para quem estava se sentindo um pouco perdido, com dificuldade de unir algumas pontas soltas, o sétimo episódio do retorno de Twin Peaks deve ter ajudado bastante. Nos 57 minutos de projeção, Frost e Lynch não só deram uma aula de roteiro, como mostraram que escolheram um time de atores e atrizes de fazer inveja.

Ainda nem estamos na metade da temporada e já podemos dizer que a série vem nos colocando diante de grandes atuações. MacLachlan, Dern, Naomi e Ashley tiveram grandes momentos e fizeram da sétima parte a mais dramática até agora. Quem estava reclamando da ausência de Twin Peaks, ficou nítido que a atmosfera da cidade vem sendo resgatada gradativamente (nesse com maior força) e que eventos importantes devem acontecer nela.

Vamos aos plots!

Diane e o evil Cooper

Antes do encontro mais que esperado da televisão, precisamos falar sobre Gordon (Lynch), assobiando o que eu acredito ter sido “Engel” do Rammstein, banda que o Lynch parece ser fã, por sinal uma música deles está em Estrada Perdida. Vi algumas pessoas dizendo que se trata na verdade do tema de Amarcord, filme do diretor surrealista Federico Fellini, outro por quem David tem bastante afeição.

Evil Cooper e Ray saindo da prisão
Evil Cooper e Ray saindo da prisão

Finalmente conhecemos um pouco mais sobre Diane, que já se mostra uma grande personagem. Percebam que mesmo com pouco tempo de tela, as habitantes do universo de Twin Peaks não são nada superficiais. Apesar da personalidade forte que ela mostrou inicialmente, logo vamos percebendo que estávamos, na verdade, diante de uma mulher traumatizada.

Na conversa com o evil Cooper/Bob descobrimos que o último encontro entre eles foi devastador, causando inclusive fortes danos emocionais em Diane. As teorias indicam que ele pode até ter cometido algum tipo de violência, o que é bem triste, mas não sabemos se essa despedida foi antes (com o Cooper bom) ou depois dele ter saído de Twin Peaks (Bob), fico com a segunda opção. Sendo isso ou não, a verdade é que Diane percebeu que estava diante de alguém que não era seu antigo parceiro e isso ajudará Gordon e Albert nas investigações.

Por falar no evil Cooper, estávamos certos quando apontamos que ele iria chantagear o delegado Warden Murphy com essa história de “ strawberry “e foi exatamente com essa carta que ele deixou a prisão, tendo Ray Monroe ao seu lado. Fortes indícios nos levam a acreditar que algo pode levá-lo a Twin Peaks, o que deve render fortes emoções.

O corpo sem cabeça – Dakota do Sul

O mistério em torno do possível corpo do Major Briggs  continua abalando as estruturas até do pentágono e detalhe para a cena em que aquela figura horrorosa que está rondando a prisão vai se aproximando da tenente Cynthia Knox. Suspeito que se trata de alguma entidade da Black Lodge, por sinal parece o mesmo que apareceu na cela ao lado da que Bill Hastings está. Vamos combinar que a Black Lodge está uma bagunça, um descontrole total, salve-se quem puder.

Twin Peaks

Tivemos Andy investigando a morte da criança que foi atropelada no episódio anterior. O delegado Frank e Hawk finalmente tentando compreender o que dizem as páginas encontradas do diário de Laura. Mais um acerto quando pontamos que podia se tratar da passagem em que ela relata o que Annie pediu que fosse escrito (evento narrado em FWWM). Agora o mistério está posto, de que forma essa informação pode ajudar o bom Cooper, visto que ele já está fora do Lodge?

Frank fala com o Dr Hayward via Skype
Frank fala com o Dr Hayward via Skype

PS: Que linda a participação do Dr Hayward, Warren Frost, pai do Frost, que faleceu em fevereiro desse ano. É ele quem narra uma das últimas aparições do Cooper duplicado e nos deixa com o coração na mão ao afirmar que o evil esteve no hospital e provavelmente teve contato com Audrey Horne, confirmando assim que ela esteve hospitalizada (e em coma) após a explosão no banco (fato que ocorre no último episódio da segunda temporada).

Agora vamos falar do Great Northern, o lugar onde as paredes parecem falar e sabemos quem mora nelas: Josie Packard (Joan Chen), personagem que teve um fim trágico na segunda temporada e acabou ficando presa nas madeiras do hotel. Essa é apenas uma boa teoria, visto que a atriz não foi confirmada no retorno. Vamos reforçar que a Beverly Paige (Ashey) estava sensacional nas suas cenas, mostrando que sua personagem será desenvolvida e a trama parece bastante promissora.  Vibrei bastante vendo Ben Horne recebendo as chaves do antigo quarto de Cooper, mais uma peça que avança no quebra-cabeça.

Josie Packard presa nas madeiras do Great Northern hotel.
Josie Packard presa nas madeiras do Great Northern hotel.

Também tivemos aquela cena do bar, com dois minutos dedicados a varredura do chão, uma tomada que mostra o quanto Lynch está ciente das possíveis críticas que enfrenta por parte do público. Acredito que a série de alguma forma vem fazendo uma crítica essencial ao caráter vicioso presente nas construções narrativas da atualidade, que mastigam tudo e conquistam o público com constantes e forçados cliffhangers. Lynch nos coloca diante de uma cena sem diálogo, ao som da sua magnifica trilha sonora e isso pode parecer tempo perdido para muita gente; no universo criado pelo diretor esse é um momento especial, que promove antes de tudo a nossa imersão dentro do ambiente ficcional. Não foi uma grande surpresa saber que o Bang-Bang Bar continua sendo uma rota de prostituição e que é o Jean-Michel Renault  (parece que o tempo não passou para esse homem) quem está no controle.

O bom Cooper/Dougie

Esse bloco foi fantástico, Dougie/Cooper e Janey-E. já formam um dos meus casais preferidos da TV. Dei muita risada com o temperamento dela e com a forma com que ele continua reagindo apenas ao que de alguma forma está relacionado com o seu passado.

Dougie/Cooper e Janey-E
Dougie/Cooper e Janey-E

Quando Ike “The Spike”, que recebeu instruções para matar Dougie, tenta executar a ordem diante da multidão, eu quase acreditei que o nosso eficiente Cooper estava totalmente de volta, mas como visto teremos que esperar mais um pouco.

Aquelas cenas onde testemunhas são entrevistadas sobre a tentativa de homicídio são importantes. Uma das garotas acaba dizendo que Ike tinha um cheiro engraçado, o que nos leva a acreditar que ela pode ter sentido cheiro de combustível queimado, o que indicaria que o anão é uma entidade da Black Lodge.

A cena final + Trilha sonora

Primeiro dizer que escutar Laura Palmer’s theme novamente foi um deleite, essa é uma das músicas que consegue automaticamente nos transportar para o lado sombrio e oculto de Twin Peaks.

Segundo pontuar algo curioso, entre as músicas creditadas no episódio está Sleep Walk do Santo & Johnny e é quase possível ouvir também o tema de Windom Earle’s criado por Angelo Badalamenti. Como possivelmente não teremos o retorno desse personagem (que curto muito), creio que a música pode ter sido inserida para indicar, como costumava ser na temporada 2, que algo bem trágico vai acontecer na cidade.

Cena final, erro de edição ou adição proposital?
Cena final, erro de edição ou adição proposital?

Para encerrar trago a polêmica da edição presente na cena final do episódio, onde alguns defendem que pode ter sido apenas um descuido da edição. Percebam que quando o rapaz grita “Anybody seen Billy?” na porta do Double R Diner, a câmera acaba fazendo alguns cortes para mostrar a reação dos clientes e olhando atentamente para  Shelly, fica perceptível que ela muda bruscamente de posição. Por outro lado, tem uma galera acreditando que a tomada é proposital e que Twin Peaks anda tendo problemas com a questão do tempo, que parece não correr lá como acontece aqui na nossa “realidade”.

Fico com a segunda opção, a forma como Twin Peaks vem sendo retratada soa como se algo estivesse interferindo na dinâmica da cidade, claro que pode ser uma percepção equivocada, mas eu continuo indo nessa direção. Suspeito ainda que Twin Peaks possa ser uma realidade completamente conectada ao Lodge e que seus moradores possuem algo de “especial”.

Apontamentos do Log

  • O que vocês acham da evolução do braço ajudando Cooper no plano de cá? Apesar de ter gostado bastante, eu não confio naquela gente, não sei o que motiva e penso que vão pedir algo grande em troca.
  • Adorei a brincadeira que o Lynch fez na primeira cena do episódio. Com o tanto de gente dizendo que o seu trabalho não tem lógica e que é passam a sensação de estarmos drogados, dei risada com a câmera capitando algo que acreditávamos se tratar de uma ameaça ou algum mistério e Jerry Horne relevando que estava era em uma viagem alucinógena muito louca.
  • A forma como o evil Cooper se referiu a ter estado na casa de Diane, me lembrou muito a cena em que Mystery Man (Robert Blake), em A Estrada Perdida, diz a Madison (Bill Pullman): “Eu estou em sua casa”. Fiquei arrepiado.
  • O rapaz que passa correndo no Double R Dinner está creditado como Riley,o filho do Lynch que tocou na banda no episódio 5.
  • Eu estou muito ansioso para ver Audrey e acho que ficaremos tristes com as consequências do acidente que ela sofreu no banco e também com o que o evil Cooper possa ter feito com ela no hospital.
  • Outra questão curiosa é o lugar da tecnologia em Twin Peaks, estando sempre escondida. A sala onde estão os policiais com os computadores parece está localizada em um lugar bem reservado, assim como o computador do delegado; sem falar do comportamento de Lucy diante do celular, tudo bastante suspeito. Penso que isso pode ser uma grande jogada no final da temporada.
  • O rapaz que Andy questionou sobre o caminhão parece que se foi. A violência anda solta na cidade que tanto amamos.

Até a próxima pessoal.

REVISÃO GERAL
Nota:
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