Fargo é, de fato, uma série peculiar e The Law of Non-Contradiction é uma grande prova disso. Noah Hawley talvez seja um dos showrunners atuais que menos tem medo de arriscar na linguagem de suas histórias. Se a primeira temporada de Fargo não foi tão fora da casinha, o mesmo não se pode dizer da segunda. E o mesmo definitivamente não se pode dizer de Legion. O fato é que ele se sente cada vez mais seguro para ousar no modo de mostrar a trama na tela para o espectador.
Aqui temos um episódio inteiro focado em Gloria e sua busca por respostas no passado de seu padrasto, visando esclarecer a tragédia presente. Abrindo mão da trama principal e dos protagonistas Stussy, fica claro que a policial não tem carga o suficiente para sustentar um episódio sozinha – embora tenha ajudado a aumentar a empatia do público com ela – de modo que o episódio acaba dividindo o tempo de tela com duas “tramas” paralelas. E é aí que reside o grande trunfo do mesmo. Os flashbacks de Thadeus Mobley são importantes para desvendarmos um pouco mais este personagem, entretanto a história em si não prende tanto o espectador. Nesse núcleo, a forma como a história é contada é muito mais importante do que a história em si. O flashback se passa na década de 70, e a granulação, enquadramento, fotografia e o recurso da tela dividida remetem à temporada passada, cuja trama, lembremos, se passou nesta mesma década. Ponto para o diretor John Cameron, que produziu o filme de 96 e as temporadas anteriores, mas ainda não havia assumido o posto de direção.
Outro ponto que se destaca em The Law of Non-Contradiction é a narração em animação do livro de Mobley. Para quem acompanhou Legion não deve ter estranhado a mistura de linguagem em cena, já que a série de heróis abusou deste recurso. Embora o roteiro seja assinado por Matt Wolpert e Ben Nedivi, a identidade de Hawley se faz presente, como não pode deixar de ser. Por mais que pareça deslocado em um primeiro momento, é fácil traçar um paralelo entre a história do simpático robozinho e da policial, uma vez que ambos estavam em busca de um sentido maior para os acontecimentos ao seu redor.
The Law of Non-Contradiction também se destaca ao trazer à tona a tecnologia como um dos pontos narrativos, ainda que de forma não tão incisiva. Em um mundo em que qualquer coisa é vista como “isso é muito Black Mirror“, Fargo resolve entrar também na brincadeira. Seja na tomada com movimento em travelling da câmera na lanchonete mostrando clientes em seus celulares sem se falarem ou numa divertida conversa sobre Facebook, a crítica sobre como redes sociais e tecnologia podem servir tanto para aproximar quanto afastar pessoas é sempre atual e pertinente, principalmente àquelas sensíveis a ela.

O cenário em que ocorre a trama do episódio também serve para nos mostrar a diferença gritante que existe entre a “Cidade dos Sonhos” e a cidade pequena na qual normalmente acontecem as histórias. Gloria é a típica interiorana que não manja das maldades da cidade grande, de modo que é irônico que quase todos sejam ainda mais frios com a policial do que a neve e o clima congelante de Minnesota. Novamente é possível traçar um paralelo entre a trama vivida por Gloria, mas desta vez com a do próprio padrasto, que foi passado para trás em um golpe.
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Apresentando um bom episódio, mas cuja protagonista não consegue segurar a trama sozinha, Fargo avança muito pouco em sua narrativa. Desvendamos um pouco o passado de Ennis (e de onde ele tirou seu novo nome), mas de que forma essas peças se encaixarão na imagem final do quebra-cabeça, somente o restante da temporada conseguirá dizer.
Em tempo 1: Para quem acompanha a série desde sua primeira temporada, já deve ter notado que ela adora fazer uma auto referência, principalmente com as frases “what a heck?” e “ok, then“, ambos eternizadas por primeiro pelo personagem de Martin Freeman, na season 1. Ambas foram ditas pela Gloria, mas a auto-referência que eu mais gostei foi “Digam UFOS!” no momento da foto. Puro amorzinho essa referência.
Em tempo 2: Eu ri com a piada do fax. Escatológica, mas eu ri.
Em tempo 3: Muito medo daquela caixa que sai a mão. Muito medo.
Em tempo 4: “Nós vamos transar ou o quê?” / “O quê.” Gloria ganhou um pouquinho meu coração depois dessa.
Em tempo 5: No início do episódio: “Os eventos retratados ocorreram em Los Angeles em 2010…”. Simplesmente adoro esta atenção aos detalhes.
















