“If you believe hard enough, you can make it that way”
Devemos nos lembrar de que Bates Motel antes de tudo fala sobre um insano amor entre mãe e filho. Por detrás de todo o transtorno mental, os assassinatos e outras problemáticas ocorridas nos últimos 4 anos, podemos vislumbrar um amor doentio e imensurável que quebra as barreiras de frases clichês e mostra em prática que o amor é simples, mas capaz de causar os efeitos mais grandiosos.
Norman Bates desde criança vinculou a percepção de segurança à figura de sua mãe, enquanto imperceptivelmente e simultaneamente foi associando qualquer pequena ameaça a distanciá-lo de sua progenitora como algo ruim, perigoso e que ele precisava combater. As experiências infelizes sofridas pelo menino quando pequeno e na adolescência, servindo de apoio para a mãe até mesmo pelo simples ato de segurar sua mão embaixo da cama, levaram Norman a acreditar que a mudança para White Pine Bay permitiria que ele detivesse o comando e não deixasse mais sua mãe sofrer. Simples assim e extremamente complicado ao mesmo tempo.
Norman possuía o desejo de ficar com sua mãe e protegê-la de todo modo, uma motivação não muito incomum, nada surpreendente e inofensiva na grande majoritária das vezes. E foi esse o clima e a imagem retratada na final. Bates Motel nos apresentou um mundo virado de cabeça para baixo, com diversas camadas psicológicas de difícil entendimento e que nos obrigou sempre a pesquisar mais para entender o assunto, entretanto, a base da trama, o fio condutor de toda a estória, sempre foi simples, delicado e forte, como um cordão umbilical.

A morte de Romero, por mais estúpida que possa ter aparentado – afinal, quem dá as costas a um psicopata e deixa sua arma pronta para ele pegar – foi o rompante final necessário para danificar de vez Norman e levá-lo ao auto reconhecimento de sua patologia e de suas responsabilidades quanto a morte da mãe. Absurdos sempre aconteceram na série, dessa forma, dentre toda a trama de Romero na 5ª temporada, esse foi de longe o acontecimento menos problemático para mim, tendo em vista que o personagem se encontrava desequilibrado e tudo que lhe importava era focar seus olhos e sua atenção ao seu amor falecido.
Assim, achei de extrema inteligência e perspicácia dos roteiristas retratar a visão de Norman do que era sonho e realidade. Se antes ele transitava entre os dois mundos, bloqueando sua consciência quando as situações se tornavam perigosas; agora, ele enxerga o mundo de maneira invertida. Para Norman, a possibilidade de ele ter matado sua mãe é tão absurda e o consome tanto, que não existe explicação para que isso não seja apenas um pesadelo. Seu amor é tão grande e tão forte que seguindo a lógica, ele nunca seria capaz de machucar sua mãe, obedecendo a suas ordens mesmo quando não concordava, apenas para vê-la realizada, como quando se escondeu debaixo da cama ou se mudou de cidade e mergulhou em um plano arriscado de gerenciar um motel.
Entretanto, sonhos, por mais perfeitos que sejam e aparentem representar fielmente a realidade, nunca conseguem ser 100% fieis e não são capazes de controlar o que está do lado de fora. Todo mundo provavelmente já teve um sonho em que tudo parecia normal, menos um detalhe que o chamou a atenção e o fez começar a pensar, e assim acordar. Ou, mais comum ainda, todo mundo já acordou porque alguém o cutucou, falou mais alto ou fez algum barulho que o tirou do transe temporário. Esse detalhe, essa pessoa, esse elefante na sala do sonho de Bates Motel sempre foi, até o final, Dylan.

Acreditei por um momento que veríamos Norman suicidar, poupando o irmão um pouco de todo o sofrimento que ele teve e decidindo seu próprio caminho, pelo menos uma vez, porém, seria absurdo pensar que após todos esses anos ele seria capaz de passar por cima do seu outro eu. Assistir Dylan matar Norman e não ter alternativa a não ser encarar que seu irmão e sua mãe encontravam-se ali, mortos, impossibilitados de conheceram a nova integrante da família, de participarem da sua finalmente conquistada vida pacata e normal, doeu o coração, mas foi de uma beleza impecável.
Todos os detalhes do episódio final foram essenciais para que aquele “obrigado” de Norman fizesse sentido. Posicioná-lo no meio de Romero e Norma como uma barreira até mesmo após a morte, vesti-la ao invés de se vestir dela demonstrando que ela não se encontrava mais dentro dele, e criar novamente uma rotina, atendendo pessoas no motel, pois, como dizem, a rotina auxilia que sua mente não vagueie e surte, foram alguns dos momentos finais que demonstraram que no fundo Norman sabia. Ele sabia e estava à beira de não aguentar mais.
Dessa forma, o obrigado final me soou como a palavra mais sincera e com mais amor que Norman já disse, após mother. Dylan o libertou de uma prisão que era sua mente, o libertou de um pesadelo que ele criou e não sabia descriar, e finalmente o possibilitou ficar junto com sua mãe, somente os dois, como haviam prometido por tantos anos. Por mais que Dylan fosse da família e fosse amado, ele nunca pertenceu a essa relação doentia e ele merecia ter uma família normal após tantos anos de anormalidade.
Chegou a hora de despedirmos de Norman e Norma junto com eles. Chegou a hora de fazermos check out e nos hospedar nos Kings Motel. Chegou a hora. Ainda encontrarei vocês nos meus sonhos família Bates. Meu sincero obrigado.
Últimos olhares sobre o Motel dos Batistas:
– Falei, repeti e repeti novamente, mas preciso pela última vez ressaltar o maravilhoso e admirável trabalho de Freddie Highmore. Tanto na frente das câmeras, como atrás delas auxiliando no roteiro e na direção, Freddie saiu da sombra de Anthony Perkins e criou o seu nome. Excelências a parte e que não devem ser comparadas, seu Norman Bates sempre ficará nas minhas lembranças.
– Fiquei impressionado com o trabalho de Mas Thierot nessa reta final, pois não tínhamos visto uma comoção tão grande do personagem. Ele e nossa querida Vera, que ficou mais em segundo plano, porém continuou sendo espetacular foram essenciais para essa última grande temporada.
– Preciso elogiar os figurinistas pelas vestimentas de Norma. Foi extremamente bem trabalhado e pensado as roupas utilizadas por ela nessa temporada, passando por suas antigas roupas escuras, para as roupas do seu filho e no final, após dizer que não precisava mais protegê-lo, se vestir de branco, aguardando-o como um anjo.
– Sentirei saudades dessa trilha sonora que sempre soube utilizar a música certa no timing correto, o que não poderia deixar de acontecer no final de toda a estória. Dream a Little Dream of Me é provavelmente a música que mais encaixa na trama de Norman e Norma e recomendo aqueles que não conhecem a letra a lerem.
Por fim, agradeço vocês que leram meus pequenos TCC’s e comentaram aqui embaixo. Vocês sempre me motivaram a pesquisar e ficar louco tentando escrever sobre 40 minutos insanos que havíamos acabado de assistir e sentirei muita saudade disso. Foi um prazer imensurável compartilhar essa minha experiência com vocês e espero que tenha sido tão bom quanto foi para mim. Que ParaNorman abençoe suas vidas!















