De volta à rotina.

Spoilers Abaixo:

Depois de um episódio com grandes acontecimentos, os roteiristas de uma série possuem duas opções para criarem o capítulo seguinte. A primeira delas é continuar o ritmo frenético, envolvendo o espectador em outra história intrigante, para embalar uma sequência de grandes episódios. A outra alternativa é retomar o ritmo habitual da série, sem esquecer do que acabou de acontecer, mas mostrando para seu público que a série não mudou sua proposta. Definitivamente a primeira opção não faz o tipo de The Mentalist, que possui a lentidão como sua característica principal. Resta então a segunda, e é nela que Bloodstream se apoia com eficiência.

Após o desaparecimento de Hightower, a CBI nomeia J.J. LaRoche como novo chefe da divisão. Sua primeira decisão é retirar a liderança de Lisbon, passando-a para Cho, após uma demonstração de falta de respeito da primeira. Em meio a tudo isso, a agência investiga o assassinato de Micah Newton, líder de uma equipe que seleciona candidatos a transplantes de órgãos em um hospital. Logo Jane e seus companheiros passam a suspeitar do novo chefe, Dr. Quick, que tem motivação e oportunidade para o crime. Enquanto isso, uma insígnia de radioatividade incomoda Cho e toda a equipe, que passa a ligá-la ao assassino. Logo descobre-se que um poderoso bandido russo está na fila de transplantes, e Newton recusava-se a colocá-lo no topo da lista, tornando-o mais um suspeito.

Após muitos episódios tratando-se como uma série policial comum, The Mentalist volta a dar maior destaque para o procedimento da investigação, ao invés de exibir uma simples procura por culpados como outras produções. Dessa maneira, Bloodstream desenvolve seu caso de maneira inteligente, mostrando Jane utilizando de suas habilidades para chegar ao verdadeiro assassino, sem jamais soar artificial. Faz muito tempo que The Mentalist não mostra um desenvolvimento cuidadoso e sutil, amarrando bem cada situação. Aliás, esse episódio demonstra a independência cada vez maior de Jane com relação ao restante da equipe, que sempre parece tomar caminhos equivocados sem o consultor. Além disso, Jane constroi sua manipulação desde os primeiros minutos do episódio, quando ganha a confiança das enfermeiras, tornando toda a armação mais realista e aceitável. Em outros tempos os roteiristas não tomariam o cuidado de desenvolver seu desfecho dessa forma.

Aliás, não é apenas na solução do caso que Jane possui grande destaque. Durante todo o episódio vemos médicos apontando o medo de hospitais que Jane possuiria como natural, para que Jane negue a situação logo em seguida. Essas linhas de diálogo não existem sem propósito. O protagonista tem sofrido cada vez mais ao longo da temporada, principalmente por perceber que está em desvantagem em sua luta contra Red John, e entrar em um hospital em uma situação fragilizada sempre leva à reações indesejáveis. Além disso, no final de Bloodstream vemos Jane aceitando um objeto religioso para ganhar força, coisa que ele jamais sequer cogitaria fazer. E isso não é feito por pura educação. Pelo contrário, é um evidente sinal do desespero pelo qual Jane passa atualmente. Sempre comento como The Mentalist tem a capacidade de esquecer de seu arco principal, mas aqui vemos ele sendo lembrado de maneira inteligente e sutil.

Além de Jane, Lisbon também mereceu um destaque maior no episódio, ao ser rebaixada por LaRoche. A dinâmica entre ela e seu consultor tornou-se infinitamente mais interessante no instante em que os roteiristas decidiram tirar a autoridade da agente. No começo da série, vê-la falhando em controlar Jane rendia ótimos momentos, mas aos poucos essa fórmula se desgastou. Além disso, a reação dela durante a investigação aponta que ela estava de fato cansada de chefiar a equipe, mesmo que não admita isso. Talvez os roteiristas estejam preparando o espectador para alguma coisa envolvendo Lisbon, uma vez que ela dá sinais claros de que talvez prefira sair dessa situação profissional.

Não é só na investigação e no desenvolvimento de seus personagens que Bloodstream acerta. O roteiro também é extremamente feliz ao retratar o competitivo ambiente de um hospital, além de mostrar os buracos que existem na administração de um local como esse. Situações como a da assistente que rouba elementos radioativos para vendê-los no mercado negro são extremamente comuns no sistema de saúde americano, e The Mentalist a utiliza bem na investigação, mesmo que a assistente não fosse a assassina. Além disso, a cena envolvendo a anestesista viciada em heroína passando por seu período de abstinência é extremamente perturbadora, tornando o interrogatório interessante, além de acertar em cheio na proposta de causar choque no espectador.

Após um episódio que divide águas na temporada, The Mentalist mostra para seu público um retorno à rotina da série, produzindo um interessante caso da semana e animando o espectador para o final da temporada. Nem sempre é necessário fugir da rotina para criar bons episódios.

Obs: The Mentalist retorna com episódios inéditos no dia 31 de março

@GabrielOliveira

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