Depois de New Best Friends, só sinto tristeza de ver uma série que se acha incrível e que só está sendo ridícula.

A sétima temporada de The Walking Dead veio com uma proposta de explorar caos e organização em patamares equalizados. A chegada de Negan traria o caos e a luta para acabar com o poderio dele promoveria a organização de um exército que uniria as três comunidades vistas até agora (e que ainda estão de pé): Hilltop, Alexandria e O Reino. Porém, por alguma razão – que desconfio ser prática e ao mesmo tempo artística – os produtores acharam que três comunidades juntas não seriam suficientes para acabar com Os Salvadores e estão, desde então, inserindo novos elementos para essa guerra iminente.

Quando disse que a razão para isso era prática e artística me referia ao fato de que além de explorar zonas criativas ao inserir mais elementos, os roteiristas ganham tempo para adiar conflitos. Acho que depois de sete anos já podemos admitir que quase tudo sobre a série visa algum tipo de adiamento e pelo menos com esse “truque” das comunidades, esses adiamentos acontecem de uma maneira menos enfadonha. O problema, na verdade, é que a possibilidade de criar nem sempre resulta em boas decisões criativas. New Best Friends foi um daqueles episódios que dão péssima fama à The Walking Dead.

The Walking Dead 7x10: New Best Friends
The Walking Dead 7×10: New Best Friends

É claro que como sempre, New Best Friends se aproveitou de detalhes estéticos que invocam do fã mais desavisado aquela velha interjeição inocente: “fodástico”. Nova comunidade, novo cenário (grande e cheio de péssimo chromakey), novo líder e um walker produzido direitinho para fan service. Aliás, assim como a horda de walkers sendo mutilada na semana passada, o tal do Winslow é bem isso mesmo: fan service. Não é uma questão de amargura, mas quando lanço mão do argumento da possibilidade de criatividade, coloco esse julgamento da série numa situação contraditória mesmo. Vivo pedindo para que o show seja mais criativo, mas condeno ao inferno parte do que ele faz quando tenta isso. Mas, vou explicar…

O Circo de Jadis

New Best Friends já começou do jeito errado. É péssima essa mania que a série tem de encerrar os episódios com cliffhangers e ignorar os ganchos no episódio seguinte. Começamos com uma cena entre Ezekiel e a turma de Negan que para mim não honrava em nada a nossa expectativa depois do tal sorriso. De fato, todo aquele destaque em Richard seria muito adequado se tivesse sido editado de outra forma. Ele é um personagem interessante e aqui serviu bem ao propósito de levar Daryl de volta à Carol. Mas – e nem é só por culpa desse núcleo – a desorganização estrutural de New Best Friends enfraqueceu esse objetivo. O que todo mundo queria mesmo saber era o motivo do sorriso de Rick e toda vez que voltamos para Richard e Daryl eu tinha vontade de acelerar o cursor.

Não falei muito até agora sobre o excesso de teatralidade do Reino, mas diante do que vimos na turminha de Jadis, a hora se faz oportuna. A forma como Ezekiel lidera seu grupo é muito passível do ridículo, mas isso não é culpa do show: os quadrinhos são exatamente assim. Lá, porém, há uma atmosfera sombria que envolve quase tudo e a patetada de “rei”, “súditos”, “majestade”, soa mais sarcástica que comprometida. Porém, no final das contas, Kirkman achou que seria interessante um grupo que recuperasse alguns trejeitos da monarquia. Em teoria é ótimo, mas precisaríamos de um bom flashback para entender como as pessoas, no meio de um apocalipse, aceitaram se submeter a uma bobagem dessas.

The Walking Dead 7x10: New Best Friends
The Walking Dead 7×10: New Best Friends

O grande problema é que lidar com o Reino é fácil, mas lidar com aquele “circo” de afetações proposto pelo grupo de Jadis não é tanto. Com o mundo do jeito que está na série, é complicado para mim aceitar a ideia de que um monte de gente se juntou para vestir preto, andar em formação, não ter expressões e só falar em sentenças curtas, pontuadas: Guns. Soon. Todo o texto que saiu da boca de Jadis e dos seus súditos durante o episódio parece ter sido escrito por um garoto de 13 anos que achou que acabara de inventar o personagem mais “fodástico” (olha aí a palavra de novo) de todos os tempos. Era tudo encenado, falso, pernóstico… Pelo amor de Deus, não podem ser só pessoas juntas? Elas têm que passar por um “treinamento” para se tornarem um só organismo fantasiado e coreografado? Em muitos momentos eu fiquei com pena da série… É uma tristeza ver gente com tanto poder nas mãos achando que está revolucionando a TV enquanto só está sendo ridículo.

Tudo piora com aquele chromakey péssimo e com aquela líder robotizada que faz um testinho de força com um completo estranho e já quer entrar na guerra dele. Negan chegou como uma promessa de sucesso e todos já nos cansamos dele exatamente pelo excesso de teatralidade. Nada do que ele fala pode ser normal, tudo tem que ser poluído com milhões de intenções e melodias vocais. Assim como nesse caso, onde a ideia de criar um novo grupo parece ter sido aberta para todos os estagiários: “E se eles morarem num ferro velho com quilômetros de extensão? E se eles todos usarem roupas escuras e andarem em formação? E se eles só falarem palavras pontuadas, sem conectivos? E se eles não tiverem expressões?”. O Brainstorm que criou o Reino não deve ter sido diferente, com seu líder cheio de dreads, que se autoproclama Rei e que tem um tigre de estimação com um conveniente controle de instintos naturais. Mas, como eu disse, uma vez até dá para perdoar.

O reencontro entre Carol e Daryl ficou perdido no meio disso. Foi bonitinho e importante para nos lembrar que Carol ainda tem qualidades, mas não declarou nenhuma mudança para nenhum deles. Tudo bem, nem sempre tem que ser crucial, não posso eu mesmo esquecer da crítica que estou fazendo aqui. Às vezes é para ser trivial e a trivialidade é preciosa em qualquer história que lide com elementos fantásticos. Depois de passar tanto tempo reclamando que The Walking Dead não trabalha núcleos simultâneos, descubro que ela também tem dificuldade de fazê-lo. Tanto o episódio da semana passada quanto esse são disformes, mal organizados e mal editados. E não, não vou festejar a iniciativa pela iniciativa. Eles têm a obrigação de fazer melhor.

O recrutamento foi feito (e todos sabemos que esse episódio era para isso). Ainda faltam 6 semanas, então provavelmente ainda voltaremos a Oceanside e depois a Hilltop e depois a  Alexandria, até que a Unidos da Vingança Salvadorenha esteja disposta a ir pro campo de batalha. Isso se mais uma ou duas comunidades não surgirem até lá. Chego a apostar numa que seja formada só por freiras mancas ou por gente que só fala a língua do “p”. Depois desse circo todo que vi essa semana, não duvido mais de nada. Meu único pedido para o “Deus das séries que não conseguimos expurgar da corrente sanguínea” é que essa sétima temporada termine logo, para vivermos com o mínimo de esperança, a expectativa de uma oitava que seja mais honrada e digna.

> Legion Vale a Pena?

Right Bite: O abraço entre Carol e Daryl me fez lembrar de como a personagem era antigamente. Deu saudade.

Random Bite: Pelo que aprendemos no primeiro ano, a “zumbificação” não é um processo “mágico”. Após a morte, uma pequena parte do cérebro volta a funcionar, uma parte que só é responsável pelo instinto primal de se mover e comer. Portanto, mesmo essa pequena parte precisa enviar um comando para o que sobrou do corpo, ou não faz sentido que ele se mova. Pergunta: esses walkers que tem o corpo quase todo devorado (entre o pescoço e a cintura), deveriam estar andando? Enfim, vamos teorizar sobre isso, por favor.

Wrong Bite: Quem se importa com Michonne ganhar de novo um “enfeite” em forma de gato? E quem se importa com Padre Gabriel?

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