Entre viagens no tempo, enfrentamento da morte e uma linda história de amor, Black Mirror entrega para o telespectador uma trama que, no conjunto geral dos episódios da terceira temporada, destoa ao nos deslocar para os anos 80. Quando li a descrição da sinopse de “San Junipero”, na caixinha de diálogo do Netflix, fiquei me indagando: como é que esse quarto episódio irá tratar da complexa relação entre homem e tecnologia em 1987, uma vez que os demais episódios sempre focam na atualidade? É essa quebra de horizonte de expectativas que a quarta história de Black Mirror ganhou a sua singularidade e se tornou, para mim, o melhor episódio dessa temporada.
“Parece que, a partir do momento em que [os homens da democracia] se desesperam de viver pela eternidade, eles se dispõe a agir como se fossem existir por não mais que um dia.”
– Alexis de Tocqueville
Inicialmente, quando somos apresentados as duas personagens que protagonizam a história, fiquei incomodado pelo tom maniqueísta dos perfis femininos: Yorkie (Mackenzie Davis), a jovem ingênua, tímida e amedrontada por sua sexualidade, e Kelly (Gugu Mbatha-Raw), extrovertida, sensual e despreocupada em seguir regras, formavam aquele casal em que as diferenças se transformariam em objeto de sedução e aproximação. E assim foi. Porém, a caracterização de cada personagem, feita de modo tão oposto, estava cumprindo uma função que somente saberíamos no final de “San Junipero”.
San Junipero é uma cidade praiana, de turistas, uma espécie de ilha. Aqui vale lembrar que esse tipo de espaço, o da ilha, é o símbolo que marca o nascimento das teorias sobre o utopia, sobre o não lugar, sobre o que imaginamos e não necessariamente existe. A utopia é uma partida para um outro lugar melhor, para uma sociedade oposta, que conseguiu se livrar de suas mazelas. Será esse essa cidade corresponderia a essa descrição…? Esse episódio é o único da temporada que tem como título um lugar, fato que dá ênfase que estamos num plano do imaginário, além das apropriações de simulacros.
O primeiro encontro entre as duas meninas ocorre numa boate, lugar que, em geral, as pessoas se perdem uma das outras. Porém, no caso delas, foi local de encontro. Kelly, na tentativa de fugir de um rapaz, esbarra em Yorkie e começa a decifrá-la, percebendo que os seus óculos são somente um acessório de moda. E assim começa, com muita leveza e pureza, o jogo de sedução. Kelly leva Yorkie para a pista dança que, muito inibida e desconfortável, vai logo embora. O som quase ensurdecedor da boate aparenta indicar que aquele espaço é uma espécie de tentativa exagera de bloqueio do mundo exterior, como se os frequentadores tivessem a necessidade de sentir tudo muito intensamente. Quanto mais anestesiados e absortos em uma camada da realidade diferente, mais aliviados ficamos.
Quando as duas se encontram pela segunda vez, temos uma primeira passagem de tempo, a de uma semana. No segundo encontro, mais uma semana se passou. As personagens estão sempre vivendo num sábado, uma pista para pensarmos nos espaços de tempo vazios como um indicativo de que estamos diante de uma realidade simulada. Yorkie volta para a boate e não encontra Kelly. O barman, então, a aconselha ir ao Quagmire, um bar estilo inferninho. Após isso, o telespectador vê, de forma mais direta, a primeira troca de época de Yorkie, quando ela vai até os anos 90 e depois para os anos 2000 em busca de sua amada. As poucas horas de vida no sistema são utilizadas para encontrar novamente Kelly.

O reencontro ocorre nos anos 2000 e Kelly deixa claro que só buscava diversão. O soco no espelho do banheiro, em que o vidro não se quebra e nem a mão sangra, deixa evidente que Kelly está numa espécie de prisão: não pode ferir fisicamente e nem ser ferida. O tempo eterno também possui um preço e, aparentemente, é bem caro. Sentir dor faz parte da nossa humanidade. Como nos sentiríamos se perdêssemos essa característica? Quando as duas sentam para conversar sobre a relação nesse novo tempo, vem à tona a realidade em que estão vivendo: ambas estão dentro de uma ucronia, um tempo imaginário. A maioria das pessoas que estão ali já estão mortas e são chamadas de permanentes, pois morreram e escolheram viver na eternidade desse tempo em brumas, frágil e fugidio.
Kelly não sabe exatamente quando irá morrer. Logo, não sabemos até quando elas estarão juntas, pois também não conhecemos a situação de vida de Yorkie fora dessa realidade. Ou seja, a vida fora da simulação, ironicamente, talvez, torna-se uma ameaça para a concretização do amor das garotas. Por isso, Kelly sugere que elas se encontrem fora dali, independente da resistência da sua parceira em rejeitar a proposta, pois teme que ela possa se assustar. Kelly acha que isso não é possível, pois já está morrendo: o que ela não sabe é que Yorkie está mais próxima da morte do que ela. O telespectador, a todo mundo, é colocado diante de uma belíssima história de amor que tinha tudo para nunca ter acontecido.
Ao nos transportar para a vida fora daquele tempo imaginário, os roteiristas da série tematizam, através da melancolia, o preconceito. No caso de Yorkie, a rejeição de seus pais em relação a sua sexualidade custou a sua própria vida, uma vez que isso a levou para o estado vegetativo. A vida que foi perdida quando era jovem pode ser recuperada anos depois através desse sistema terapêutico que oportuniza pessoas a terem horas de vida em épocas passadas. O sistema deu mais horas de vida para Yorkie do que ela própria viveu. Será que isso não seria também uma metáfora para nós, usuários de redes sociais, que às vezes vivemos mais em avatares do que fora deles? Às vésperas de sua eutanásia, Yorkie opta pela eternidade em San Junipero, onde viverá para sempre após a sua morte, sem limitação de horas.
Nesse momento, temos o grande impasse da trama e uma grande DR: poderia Kelly, ao morrer, juntar-se à Yorkie? Até então, não conhecemos o passado de Kelly, fato que apenas ocorre quando ela explica que não deseja ficar em San Jupinero e ser uma “morta permanente”. Quando esse sistema foi criado, a filha de Kelly com o seu marido já tinha morrido e ele recusou participar dessa experiência porque não queria viver eternamente sem a filha. Logo, permanecer no sistema, para Kelly, seria uma espécie de traição à memória do marido. Todos os 49 anos que ela deu para o marido e vice versa iriam ser rememorados por toda a vida eterna, mas sem ele e sem a filha. Essa seria uma das formas mais cruéis e violentas de solidão. Para Kelly, San Junipero representava um “cemitério”, um lugar onde nada tem importância e as pessoas tentam, desesperadamente, sentir algo. Todavia, para Yorkie, esse sistema representava a oportunidade de viver que lhe foi arrancada tão cedo.
O final da história, para alguns, pode ser considerado feliz. A meu ver, é dúbio. Que felicidade se pode esperar vivendo no círculo da eternidade? E para Kelly, que teve muito mais anos de vida do que Yorkie, as memórias familiares serão lembradas como amor ou como fardo? San Junipero não “existe”, é um não lugar de simulação virtual. Entretanto, o amor das duas existe. Teria o amor a capacidade de vencer as barreiras do espaço e do tempo, da ucronia que desfaz a materialidade, o corpo, e as transforma em seres que vagam e transitam entre variadas épocas? Em Amantes Eternos (2013), de Jim Jamusch, a eternidade, do ponto de vista dos vampiros, é vista como um peso, pois traz sofrimento, uma vez que a vida se torna uma prisão. O carpe diem vive um declínio, visto que a morte não é mais uma certeza, uma possibilidade. Outro ponto importante de destaque é que a “Terapia de Imersão Nostálgica” é um produto de consumo. Portanto, é como se o indivíduo fosse engolido num ciclo interminável pelo poder de aquisição de bens (cada vez mais “duráveis).
E vocês, gostaram desse passeio a San Jupinero? Vocês gostariam de ser permanentes e passar o resto da vida badalando no Tucker’s?
Take 1: A timidez de dançar de Yorkie na primeira cena era resquício dos preconceitos já sofridos pelos pais. Ela estava ali, na pista de dança, violentada pelo seu passado e presente.
Take 2: Gostei muito diálogo da trilha sonora instrumental com os hits dos anos 80 (lembrou bastante Stranger Things, pelo ar de suspense) e com uma atmosfera futurista.
Take 3: O fliperama, naquele contexto, era uma imersão dentro de uma simulação, uma espécie de duplo encaixe.
Take 4: San Jupinero era um lugar de turistas, pois representava esse espaço de passagem, onde as pessoas não podem ficar muito tempo, sempre ameaçadas pela chegada da meia noite.
Take 5: Na conversa com o noivo de Yorkie, Kelly corrige-o e pede para que ele se refira a partida de sua companheira como “morte” e não como “Ida”. Tal como em “Be Right Back”, primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, também escrito por Charlie Brooker, a compreensão da morte (e como “vivê-la”) é tematizada.
Take 6: Netflix, alô alô, a história não se trata de uma “intensa amizade entre garotas”, é um romance mesmo.
Take 7: O final “feliz” não me incomodou. Nós precisamos de finais felizes também e, principalmente, quando se trata dessa série, que já nos põe bastante na bad. E ter um desfecho bonitinho é algo que nos desloca do que esperávamos habitualmente ver em Black Mirror.
Take 8: Será que Kelly e Yorkie teriam, um dia, se encontrado, na “vida real”, fora do sistema de simulação?














