“Playtest” prova que a tecnologia é a ferramenta perfeita para a fuga. É tão presente que às vezes sequer pensamos que estamos inclinados à fuga ou que a fuga é necessária, mas assim fazemos. A tecnologia talvez tenha nascido para facilitar as coisas, deixar a vida menos complicada, mas seu uso não é somente para isso agora — é que nós não sabemos lidar com a realidade de atribuir apenas uma função a algo, e nossos smartphones são provas concretas disso. Sendo assim, ela não poderia deixar de prestar suporte na nossa luta contra o medo. Se descuidamos, entretanto, e sempre descuidamos, é bem capaz de o efeito ser contrário e acabarmos cara a cara com aquilo que nos amedronta. É como não saber escolher um filme, tarde noite, quando tudo o que se quer é escapar da solidão, e perceber que nossa escolha foi uma película que dialoga justamente com isso e aponta nossa situação (os exemplos são diversos).

Em Playtest, Black Mirror dialoga com medo e tecnologia — e a ligação entre ambos. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Em Playtest, Black Mirror dialoga com medo e tecnologia — e a ligação entre ambos. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Edgar Allan Poe, que aparece por aqui, sabia conversar com desenvoltura sobre o medo em suas obras. Ele falava sobre nossos medos em seus contos — nossos medos de agora são versões atualizadas dos medos de outrora —, por mais que não tenha convivido com nossa tecnologia. Nesse segundo episódio, o autor norte-americano aparece acompanhado de seu famoso corvo, e não é por acaso. Além de ter sua trama bem próxima do horror, e o gênero dever muito à Literatura Gótica, para a qual Poe contribuiu, o corvo representa um dos maiores medos vividos pela personagem principal, mas compartilhado com muitos de nós: o medo de ter que conviver com aquilo que queremos esquecer.

“As pessoas às vezes falam mais quando estão assustadas. Isso as ajuda a compensar o medo. É similar a quando você deixa a tevê ligada de madrugada. As vozes o ajudam a se sentir menos sozinho. Mesmo que, na verdade, você esteja sozinho.”

Katie em Playtest, Black Mirror.

Playtest, palavra que se auto-explica no idioma original, é o nome usado para o processo de testar um novo jogo. Como Black Mirror sabe expor e debochar de nossa arrogância, o jogo aqui não é comum. Trata-se, é claro, de um jogo que vai mais além e nos propõe uma experiência de realidade virtual que nenhum outro poderia — em um estilo Matrix ou Inception, e as referências são diretas e indiretas, provando desde o começo que o roteiro sabe brincar com a própria falta de originalidade.

Playtest se utiliza de medos mais genéricos como bullying para dialogar com o público. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Playtest se utiliza de medos mais genéricos como bullying para dialogar com o público. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Antes do jogo, entretanto, é preciso conhecer nosso jogador. Cooper (interpretado pelo ator Wyatt Russell) é um americano que decide viajar para não enfrentar a convivência com a mãe, após uma tragédia ter acontecido com ambos. Como o episódio é escrito pelo criador, Charlie Brooker, o texto sabe nos manipular desde o começo e da melhor maneira possível. Somos apresentados a Cooper como um bom moço, que cuidou do pai quando doente e que só quer viajar para colecionar memórias. A apresentação é feita sem pressa, e a série aproveita os catorze primeiros minutos para nos deixar confortáveis com ele. Além disso, o rapaz não é dotado de nenhuma afetação ou esquisitice, contribuindo para que não só sintamos empatia por ele, como nos percebamos em sua pele — mesmo os medos deles são bem genéricos, o que nos ajuda para que soframos juntos.

Sonja (interpretada pela atriz britânica Hannah John-Kamen) faz uma boa participação e é a desculpa perfeita para conhecer mais sobre Cooper. A química entre os atores funciona, e os diálogos não parecem forçados, nem mesmo o momento em que ele se abre e se explica sobre como fora parar em Londres. Ela, ainda, é essencial para nos conduzir ao ato final, quando tudo começa a desandar.

Em cena: os atores Wyatt Russell, Cooper, e Hannah John-Kamen, Sonja.
Em cena: os atores Wyatt Russell, Cooper, e Hannah John-Kamen, Sonja.

O episódio brinca com nosso senso de perigo e demora para engatar seu clímax, preparando o terreno através de cenas que estabelecem o cenário, a lógica da situação e a personalidade do protagonista. O uso das cores é bem trabalhado, e sentimos que há sempre tons claros na rotina de Cooper, tanto em suas roupas quanto nos ambientes que visita. A ausência de cor tem seu auge na sala branca, justamente onde a personagem experimenta o jogo pela primeira vez, e não creio que isso seja por acaso. Quando chega à casa do século dezenove, entretanto, as cores vibrantes invadem a tela e isso diz muito sobre o texto de Playtest e o que ele se propõe. As distrações da nossa vida nos privam de conviver com nossos medos, muitas vezes, então, somente isolados da possibilidade de recorrermos aos nossos celulares em nossas rotinas sem cores é que podemos deixar que a realidade se situe.

Playtest utiliza de diversos efeitos visuais para ambientar sua história. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.
Playtest utiliza de diversos efeitos visuais para ambientar sua história. Em cena: o ator Wyatt Russell como Cooper.

Com as regras bem estabelecidas, o roteiro começa a brincar com suas possibilidades, principalmente com a noção de toque e do irreal — mesmo quando ameaça se jogar em furos para fazer uma reviravolta, percebemos que está tudo bem planejado e o próprio episódio debocha de nossos questionamentos enquanto telespectadores. Os quinze últimos minutos, quando o nível de tensão aumenta e as coisas passam a acontecer em ritmo mais rápido, abusam de maquiagem e efeitos visuais bem feitos.

Somos provocados, mas não posso afirmar que tudo funciona. Além de ter muitos finais, não creio que a revelação da doença do pai de Cooper tenha favorecido o roteiro, pois nós ficamos esperando que isso seja utilizado, e, quando acontece, não tem o efeito que uma surpresa teria proporcionado. Vale destacar, por outro lado, a boa participação de Wunmi Mosaku e sua Katie, que não só explica boa parte do procedimento, como esclarece por que a série está falando sobre isso.

“ […] No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,

e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.

Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,

não há de erguer-se, ai!, nunca mais!”

O Corvo, Edgar Allan Poe, na tradução de Milton Amado.

Cooper com uma coletânea de contos de Edgar Allan Poe em mãos, lendo o poema “The Raven” (O Corvo).
Cooper com uma coletânea de contos de Edgar Allan Poe em mãos, lendo o poema “The Raven” (O Corvo).

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Depois de tanta reviravolta e de tocar em assuntos tão delicados, Playtest tem um desfecho já esperado por nós. O corvo do poema condenou seu companheiro à lembrança, enquanto nosso herói aqui é condenado ao esquecimento. O destino de Cooper é aquele que se tem (nós sabemos) quando se decide olhar dentro de si mesmo e encarar os próprios medos Não dá para conviver com isso, sair ileso dessa autoacusação. Sim, sabemos disso. E é por essa razão que não podemos pensar muito a respeito. Deixamos esse ótimo episódio terminar e corremos para os amigos, para os celulares, para o próximo… É preciso se distrair!

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.