O doce sabor da vingança.
Quero começar essa review do All Stars declarando meu amor a RuPaul Charles mais uma vez. Acabo de terminar o quinto episódio da temporada e estou feliz demais. Sabe feliz? A arte e o entretenimento podem ter esse poder sobre nós. O poder de fazer com que esqueçamos dos nossos pesares e atribulações por 42 minutos e que ao final deles, estejamos tomados da mais pura alegria. Eu estou assim agora… Tem tanto contentamento aqui por dentro que eu não quis nem esperar, quis escrever logo, passar para a tela essa catarse tão preciosa, que faz mais belo o tempo de qualquer ser humano nesse complicado planeta terra.
A segunda temporada do All Stars está desse jeito mesmo: INCRÍVEL. Ótimos desafios, intrigas, estratégias e muito, mas muito talento. É extremamente prazeroso acompanhar uma temporada em que você vê as participantes tão cheias de gana, de força, de vontade. Mesmo a maioria dos erros ainda está acima da média do que estamos acostumados a ver. O crescimento daquelas meninas é impressionante e mostra o quanto a corrida transformou o que se espera de uma drag nos dias de hoje: versatilidade, respeito as tradições e identidade. Mais do que tudo, identidade.
Então, como eu tinha imaginado, depois de quatro eliminações veio a chance de vingança. Eu ia colocar a palavra vingança entre áspas, mas conforme o episódio transcorria, ia ficando ainda mais claro que o resultado acabaria sendo esse mesmo. Não vingança no sentido pejorativo, como nas novelas dos anos 80, mas vingança no sentido de forçar o próprio senso de justiça. Para coroar essa primeira metade da temporada com uma narrativa completinha e um fechamento épico, temos de novo no centro dos acontecimentos, ela, Phi Phi O’Hara.

Preciso esclarecer – novamente – algumas coisas aqui. Passei muito tempo da review anterior lidando com comentários de defesa a Miss O’Hara, o que eu acho ótimo, porque significa que o “trabalho maléfico” da edição não alcança todos. O primeiro ponto importante ainda é a respeito do bendito look cosplay que ela usou e que eu disse que não gostava nem um pouco. Afirmei que ali não era RuPaul’s Cosplay Race e reitero meu comentário completamente. Não porque acho que esse é um estilo de drag desprezível, mas porque meu comentário tem suas bases nas raízes do próprio show. O programa é uma competição de drags e uma competição só é possível porque os participantes precisam lidar com diretrizes. Confirmando-as ou contornando-as, eles precisam. E parte do espírito do show é sublinhar queens que conseguem fazer os jurados acreditarem que estão ditando as regras, quando na verdade eles estão sendo ludibriados por talento.
Phi Phi e Detox fizeram o mesmo que Milk, quando apareceu de Boy Ru e ouviu de Michele que aquela era uma competição de drags e aquilo não era uma drag. Detox e Phi Phi escaparam, mas na minha opinião (e review – pela última vez – é opinião), Detox é mais talentosa, mais polida; e deixou Phi Phi na poeira. Ela conseguiu contornar as diretrizes de um modo que, para mim, soou mais eficiente. Jamais disse que Phi Phi não era drag, mas ela está numa competição e ser julgada faz parte do show. TODAS elas sabem disso e todas elas assinam esse pacto com as “forças ocultas” do julgamento e da edição preparadas para o risco.
Por exemplo: em cinco minutos de episódio, Phi Phi já sendo discutida pelas outras meninas, não como se fosse uma vítima da edição, mas como estrategista ativa no enredo do jogo. Alguns de vocês disseram nos comentários que as meninas aqui de fora estão defendendo a amiga e é isso mesmo que elas precisam fazer. Entrar num reality significa arriscar toda uma vida e se algo der errado, a pessoa atingida precisa sim de apoio. A questão é que não estamos vendo a edição correr paralela ao que as participantes dizem. Tudo está correndo junto. O jogo de Phi Phi, a personalidade de Phi Phi, estão sendo notadas categoricamente pelas outras. Do contrário, Roxxxy não faria a comparação do momento do espelho com aquele azar de sua amiga te pegar falando mal de ti. Ou Tatiana, lá no final do episódio, não teria sublinhado a tentativa de Phi Phi de jogar Detox na fogueira (o que ela jurou que não fazia com ninguém, minutos antes). A energia de Phi Phi é perceptível (Coco percebeu) e isso não é só edição. Senhores, não sejam ingênuos nem de achar que a edição conta todos os fatos, muito menos de achar que a culpa de tudo é dela. Se Phi Phi é uma bitch, que assuma isso, como bem disse Alyssa. No final das contas, quem mais joga a carta da vítima é ela própria.
Claro que a edição ajuda a piorar o quadro… No momento em que Alyssa retornava ao ateliê, os closes nas expressões de Phi Phi eram terríveis. Alyssa só queria deixar claro que as coisas que disse sobre suas colegas de bottom haviam sido ditas na frente delas (o que foi plenamente confirmado por Katya), mas Phi Phi já estava com sua adrenalina lá no alto após ser pega no pulo (e por saber o que a edição aqui fora faria) e aos poucos, o descontrole de outrora veio à tona exatamente do mesmo jeito que na quarta temporada.

No meio das explicações de Alyssa, Ginger vem dizer que não teria deixado Katya ir embora no dia da eliminação e eu fico com a mesma cara de todo mundo na sala: WHAT? Ginger veio provar que a sétima temporada tinha gente com talento e só foi se afundando. Se ela “não permitiria a eliminação de Katya”, porque raios aquele papo todo de vingança, de “pelo pacto eu que ficaria”? A infeliz declaração só reforçou que a decisão de Alyssa terminou por ser acertada. Junto daquele time de competidoras, Ginger virou uma poeira, incapaz de sobrepor-se às outras. Ela ainda é muito talentosa e talvez essa experiência a faça amadurecer.
O desafio era ótimo: um stand-up comedy em duplas, que daria o poder a uma das eliminadas de voltar e de ainda mandar para casa alguém que não tinha ido embora. As eliminadas poderiam escolher seus pares e Alyssa reforçou sua passagem brilhante pela competição ao escolher Alaska novamente e com isso, buscar outra redenção. Alaska, tão maravilhosa quanto, deixou que Alyssa guiasse os planos, para dar a ela essa oportunidade. Inclusive, vamos deixar uma outra coisa clara aqui, senhores: Não existe favorecimento de talento. Alaska e Alyssa são talentosas e competentes e entraram no programa CONSCIENTES de tudo que precisavam fazer para melhorarem sua reputação com o público. E elas estão fazendo! Assim como Detox, Tatiana, Katya… Isso é um FATO, não é uma “manipulação de impressões”.

Phi Phi ficou perturbada com a briga com Alyssa e foi tentar resolver. A iniciativa foi sincera, mas Phi Phi tem aquela condescendência clássica de quem realmente não se importa com o que ninguém mais pensa. Ela diz “deixa eu terminar de falar” com aquele sorriso irônico e isso já deixa a discussão dois passos mais próxima da rusga. O abraço não é falso, mas não é suficiente. Quando ela chega para o show de stand-up ela está tudo, menos engraçada. E nem por um segundo ela aceita a evidência de que falhou. Coco foi muito melhor que ela, mas Phi Phi foi geneticamente programada para desconsiderar as próprias limitações. Por isso ela nunca vai crescer.
Roxxxy, ao contrário, reconhece todas as que tem. Dá pra se identificar muito com a forma como ela luta para se superar. O problema é que ela substituiu a agressividade pela reflexão e por isso, toda vez que falha, perde o brilho. Ainda assim, ela está no caminho certo da redenção e foi bonito ver a forma como Detox tentava ajudá-la. Detox, aliás, fez com Tatiana um número que tinha muitas piadas longe da nossa compreensão, mas que eram certeiras para a plateia de ex-participantes (com destaque para Chad, com as maçãs-do-rosto cada vez maiores e para Kelly Mantle, irreconhecível). O top e o bottom da semana foram muito justos, porque Phi Phi estava monótona e Roxxxy perdeu a imensa chance de escolher, sozinha, quem iria embora.
O top e o bottom também proporcionaram o maior pesadelo de Phi Phi e o maior deleite de parte da audiência: Alyssa com o poder nas mãos. O’Hara, sobre pressão, é um perigo e já começa com seu ego talking (como bem descreveu Tatiana) chegando na frente e eliminando as próprias chances de conquistar empatia. Já repararam que TUDO que Phi Phi diz de malicioso é dito com um meio sorriso? E não tem humor, o que é mais categórico. Porém, ela tem razão quando aponta o fato de que Roxxxy esteve no bottom mais vezes e que isso se choca com o argumento de consistência de Alyssa.
A questão é que Alyssa está dando um banho nessa temporada… Na conversa com Roxxxy ela aponta que o trabalho mais difícil era o de apresentar e que a colega não teve a mesma chance de uma segunda opinião. Esse é um dos exemplos da forma como Alyssa procura avaliar as situações por uma perspectiva panorâmica extremamente completa. Então, mesmo que Roxxxy tenha estado no bottom mais vezes, Alyssa provavelmente colocou empatia na receita. Sem contar com o fato de que Phi Phi era uma inimiga declarada e a narrativa de vingar-se do seu algoz é muito mais atrativa. Alyssa traiu seu argumento de consistência, mas fez um episódio melhor.

E o que foi aquele lipsync, senhores? (amo Ru gritando que sentia falta de dizer “lipsync for your life) Aqui entra a melhor parte… Conforme aquele lipsync corria, eu só ficava mais devastado pela ideia de mandar qualquer uma delas embora. Tatiana e Alyssa tinham tanta fome, tanta gana, tinham um brilho no olhar que é a essência maior de uma verdadeira competição. Elas deram tudo, tinham uma energia extremamente parecida para dublar e mostraram que queriam muito ficar. Parecia injusto até o fim do mundo que qualquer uma das duas fosse embora. Assim como Alaska no fundo, eu assistia aquele duelo sorrindo e berrando de puro deleite.
Daí que entre os spoilers vazados, não havia nada que indicasse que duas poderiam ficar. No texto da semana passada eu concluí a possibilidade por conta da matemática da temporada. Mas, sempre haveria a chance de Ru só pegar uma e mais tarde resolver de outra forma o número pequeno de competidoras. Foi uma surpresa mesmo e uma das melhores possíveis, ver Tatiana e Alyssa ficando por merecimento e dando aos fãs a catarse inesperada que sempre é deleitosa para todos nós. Melhor ainda foi ver Alyssa tendo a chance de colocar Phi Phi para fora. Melhor ainda, ver Tatiana fazendo a mesma escolha e deixando claro, com isso, que não era uma questão de perseguição. Roxxxy foi duplamente salva, já que se fossem dois nomes diferentes nos batons, duas iriam embora e Ru teria outro problema nas mãos.
Anunciada a eliminação, Alyssa tentou entregar o batom para Phi Phi e despedir-se. O’Hara não aceitou e seguiu. Tatiana teve que correr até ela para dizer tchau. No espelho, O’Hara escreveu que queria evitar abraços por causa das lágrimas e eu não vou ser o espírito-de-porco que vai tirar dela o direito de sentir carinho e apreço pelas pessoas. Alyssa não entendeu assim e tinha seus motivos para isso, mas Phi Phi merece nosso respeito e merece apoio nesse segundo difícil momento que ela viverá. O que vimos na corrida não resume o que Phi Phi é, mas coloca uma lupa em aspectos difíceis e até odiosos da personalidade dela. Torço para que algo de bom possa reverter esse processo negativo e desejo a ela mudanças e alegrias.
Enfim, terminamos mais um episódio SENSACIONAL e mal posso expressar como o All Stars tem me feito feliz. Espero que a jornada também esteja sendo maravilhosa para vocês, porque melhor que sentir-se bem, é sentir-se melhor, acompanhado. Até semana que vem, seus lindos.















