Quando um remake dá certo.

Não podemos nem criticar mais a força do remake no cenário cinematográfico atual. Chegamos no ponto em que lutar contra a correnteza é um trabalho infrutífero. O principal foco agora é esperar que o filme não destrua a memória sentimental que temos do original pelo menos. E quando o objeto de estudo não é a primeira, mas segunda adaptação de uma história*, o alerta chega em níveis estratosféricos. Contrariando as expectativas, “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven, 2016) é um dos exemplos de que nem todo remake é ruim, podendo ser uma obra que homenageie o original ao mesmo tempo em que incita o gosto no western em novas paragens.

Após a Guerra Civil Americana, em plena corrida do ouro, uma cidade vive a mercê de um poderoso magnata do minério, Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard). Na ganância de ter mais e mais terras a sua disposição ele lança um ultimato, oferecendo um preço abaixo do justo pelas propriedades e deixando um rastro de sangue no seu encalço. A viúva de um dos mortos (Haley Bennett) contrata então Chisolm (Denzel Washington), um caçador de recompensas que tem rusgas do passado com Bogue. Assim, sete homens se veem numa batalha contra um exército, num esforço hercúleo para salvar Rose Creek da ameaça industrialista.

O roteiro de Nic Pizzolatto e Richard Wenk presta as devidas homenagens ao gênero, com as figuras típicas dos filmes western surgindo em cada frame, assim como as conhecidas paisagens áridas, os saloons, as diligências, as cavalgadas em direção do pôr do sol… E em conjunto com o faro de Antoine Fuqua para a ação, as sequências mais comedidas dos westerns de raiz ganham mais força cênica, com destaque para a batalha no clímax. A obra acaba sendo um mix de vários cacoetes de obras canônicas, como o humor de “O Dólar Furado”, o protagonista taciturno das obras de Sergio Leone e a ação visceral “Meu Ódio Será Tua Herança”, com um resultado satisfatório, além até do desejável. Entre as principais mudanças está a localização da história. Em 1954 a narrativa se passava numa vila mexicana assolada por um grupo que roubava toda sua plantação a cada ano (alguém aí lembrou de “Vida de Inseto”?). Já em 2016 entra em ação a sanha sem fronteiras do capitalismo, numa crítica a própria instituição da civilização americana (democracia em prol do capitalismo). E essa crítica velada, mesmo que usada de forma parcimoniosa é o que dá novo folego a já conhecida história de coragem e redenção.

O elenco também está entre um dos acertos. Washington, velho colaborador de Fuqua, se dá bem na pele de Chisolm, assim como Ethan Hawke como um atirador de elite com origem cajun. Chris Pratt dá vida a um trapaceiro de bom coração com o dedo rápido no gatilho. Vincent D’Onofrio e seu Jack Horne são o contraponto a Martin Sensmeier e seu Red Harvest, o caçador contra o índio. Byung-hun Lee e Manuel Garcia-Rulfo completam o bando como a mão direita do personagem de Hawke e um ladrão mexicano, respectivamente.

Com novos rumos, personagens e temáticas, o resultado final de “Sete Homens e Um Destino” é uma obra que merece ser vista, se não pelo saudosismo épico da era de ouro dos faroestes, pela ação bem dirigida e que não estraga o estado da arte de sua contraparte pregressa. É aquele caso de remake que acerta justamente por não tentar reinventar a roda e sim trabalhar com aquilo que há de melhor, dando obviamente uma nova roupagem. Entrando para o rol de boas produções recentes do gênero (“Os Oito Odiados”, “Pacto de Justiça”, “Os Indomáveis” e “Bravura Indômita”, este outro bom remake) o filme acaba se destacando pela reverência com que tece a narrativa. Vale o ingresso e o tempo gasto e é impossível não sair cantando a icônica canção tema ao final da sessão. Deve agradar a quem não é fã e aos já aficionados pelo estilo. Se estamos diante da lenta construção de uma nova era de ouro do gênero, não sabemos. Mas com certeza os tijolos utilizados são um alicerce mais do que confiável.

*Para quem não conhece, o “Sete Homens e Um Destino” “original” de 1960 é na verdade um remake de “Shichinin no Samurai”, mais popularmente conhecido como “Os Sete Samurais”, filme de 1954 dirigido por Akira Kurosawa.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.