Juliana Antunes | Brasil, 2017, 73’, Híbrido

O filme de encerramento do Olhar de Cinema desse ano era facilmente o mais antecipado da edição, recém saído de algumas importantes mostras ao redor do país, em meio a grandes elogios e polêmicas pulsantes. Apesar da expectativa alta, minha e de muitos, Baronesa é o tipo de filme que não pode ser antecipado, que extrapola as nossas projeções pessoais, seja em relação a realidade retratada, ou em relação ao cinema que Juliana Antunes concretiza extraordinariamente.

A protagonista é Andreia, moradora da Vila Mariquinhas em Belo Horizonte, onde eclode uma guerra entre traficantes pelo domínio da região, guerra essa nunca mostrada, sempre fora de campo, dentro do imaginário, evocada em palavras, histórias, e ainda assim, presente, impetuosa. Leidiane, vizinha, e Negão, grande amigo, são outros personagens que orbitam este universo, cativantes e autênticos cada um a sua maneira, são todos responsáveis por um filme de invejável noção de timing e ritmo, de balanço engenhoso entre a comédia e a tragédia cotidianas (e a compreensão de que, no fundo, nascem ambas de um mesmo lugar). Baronesa ficou em produção, entre pesquisa, filmagens, montagem e finalização, durante seis anos, e vemos isso na tela, da melhor forma possível, um filme de processo paciente, de respeito e profundo conhecimento daquilo que se mostra.

Andreia e Leide estão sentadas fora de casa. Conversam sobre a vida, sobre a realidade, a vida. Cantam Racionais. Antunes e Fernanda de Sena filmam. Próximo dali, berra um tiroteio, e correm todas para esconderem-se. É provavelmente o momento mais forte de Baronesa, a cena sobre a qual se conversa ao fim da sessão. A primeira impressão, tratando-se de um documentário, é a de admirar o acaso do cinema, a câmera que, no lugar certo e na hora certa, registra um instante único, neste caso, a relação entre a ação do tiro e o assunto do qual Andreia a vizinha tratam. Um segunda impressão, tratando-se de um documentário híbrido, é a de duvidar, de instigar se não trata-se de uma das várias passagens reencenadas, ficcionalizadas. Em ultima análise, entretanto, não importa nada disso. Não trata-se de manipulação ou romantização da realidade, muito menos de uma aleatoriedade capturada quase magicamente. É algo mais trágico. É uma eventualidade. Os moradores da Vila estão sempre falando da violência, e a violência está sempre gritando ao lado. Era questão de tempo que a câmera testemunhasse a cena. Não importa se reencena-se ou se observa-se, de um modo ou de outro, “é a real”.

Baronesa
Baronesa

Uma polêmica considerável surgiu da crítica a Juliana e equipe, mulheres brancas, de situação social relativamente boa, serem as “porta-vozes” da história da Vila, que não seria seu lugar de fala. Após assistir Baronesa, posso afirmar com tranquilidade que são críticas bastante descabidas. É claro, a representatividade é dos tópicos mais relevantes do cinema contemporâneo, e há casos, obviamente, de obras que apropriam-se de realidades divergentes para falar de si, ou para tirar vantagem de tais histórias. O filme de Antunes é o oposto disso. Respeita seus personagens de forma sincera, bela, e carrega nas costas anos e anos de pesquisa e imersão na realidade do bairro, sem nunca interferir ou cancelar o protagonismo daqueles que de fato são e devem ser o centro dos olhares. As coisas que Andreia, Leide e Negão falam em cena demandam um nível de proximidade com quem os filma, seja para ficcionalizar e reinterpretar ou para dar segurança para que partilhem o passado e presente mais íntimos, e isso não deve e não pode ser desconsiderado.

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Há, por fim, um diálogo certamente proposital sugerido pela curadoria do Olhar de Cinema entre Baronesa e o filme que abriu a edição na semana passada, o venezuelano A Família. Em especial, as cenas finais de ambos os filmes parecem espelhar-se de forma sensível. Andreia consegue finalmente juntar o dinheiro que precisa para mudar-se para o lote no Baronesa, e inicia, sozinha, a construção de sua nova casa, tijolos, cimento, cigarros, cerveja. Em A Família, é só nos instantes finais que Pedro e o pai Andrés param de correr, também porque instalam-se no que parece um novo lar, também em um novo bairro. São filmes de descolocamentos, de fugas impostas pelo mundo, e de confortos momentâneos. Encerram-se com o descanso, mas Andreia, Pedro e Andrés só descansam porque encerra-se o filme. A vida continua.

REVISÃO GERAL
Nota:
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6-olhar-cinema-baronesaBaronesa é o tipo de filme que não pode ser antecipado, que extrapola as nossas projeções pessoais, seja em relação a realidade retratada, ou em relação ao cinema que Juliana Antunes concretiza extraordinariamente.