Ferdinando Cito Filomarino | Itália, Grécia, 2015, 96’, Ficção

“Antonia Pozzi foi uma das maiores poetisas italianas da história”, avisam-nos as palavras que precedem as primeiras imagens de ‘Antonia.’, “nunca foi publicada em vida”. O filme, longa de estreia do italiano Ferdinando Cito Filomarino, é, antes de mais nada, ambicioso, capturando pouco mais de uma hora e meia os dez anos finais da vida de Pozzi, desde os seus dezesseis anos, ainda na escola, até seu trágico suicídio, aos vinte e seis anos de idade. Esbanjando estilo, Filomarino faz escolhas inusitadas de recortes para essa década, dando início a narrativas que, não raramente, são deixadas sem amarras, unidas sutilmente pelas palavras de Antonia, escritas em seus cadernos, declamadas, publicadas na posterioridade.

O ponto alto do filme, que tem sido alvo de opiniões contraditórias desde sua estreia mundial em 2015, é indubitavelmente a estreante Linda Caridi. É nada menos que fascinante apreciar a atriz encarnando Pozzi, moldando-a à medida que os anos se passam, sem, contudo, abandonar os traços elementares de sua personalidade. Aos dezesseis anos, perdidamente apaixonada por Cervi (Filippo Dini), seu professor de literatura, a garota é uma figura ainda ingênua, sonhadora, à moda de Amélies e Frances Has, mas, a cada desilusão, abandono amoroso e decepção profissional, Pozzi vai se fechando, cada vez mais quieta, e quase não abre a boca no terceiro ato do filme, a não ser que seja extremamente necessário. Caridi captura com habilidade a silenciosa tragédia pessoal da escritora. Ambiciosa e romântica, Pozzi quer ir embora de sua cidade, casar-se com um grande amor, ter seus escritos lidos por todos, mas os anos a prendem em casa, dormindo no quarto ao lado do de seu pai, dando aula na escola onde estudou, com os poemas na gaveta.

‘Antonia.’, entretanto, parece ser para poucos. Apaixonados pelo trabalho da italiana, assim como o são as pessoas por trás das câmeras, o filme pode ser de difícil digestão para aqueles não familiarizados com os escritos de Pozzi ou sua história de vida, justamente pela natureza desconexa dos recortes feitos por Filomarino e Carlo Salsa, com quem divide os créditos pelo roteiro. Se, em certo ponto, como no início do filme, as informações parecem indicar a direção de uma narrativa mais convencional, causal, introduzindo o drama de Pozzi e Cervi, os momentos seguintes parecem não dialogar superficialmente, tendo uma condição mais contemplativa do que explicativa. São mostrados, em cenas longuíssimas, encontros sexuais de Pozzi e alguns jovens poetas, a jovem escritora em casa, dançando enquanto ouve música, o escalar de uma motanha em silêncio e momentos íntimos, em que a garota se deita nua em sua cama, imóvel.

É fácil entender a preferência por esse tipo de direção, que pretende, é claro, capturar a essência impulsiva dos escritos de Pozzi e evidenciar como o mundo a seu redor – o céu, a grama, cabelos, beijos – falava mais alto no momento da escrita do que meros fatos. Essa sensibilidade abstrata, porém, acaba sendo uma faca de dois gumes: à medida que aproxima os ávidos leitores e estudiosos da italiana, ou simplesmente aqueles mais sensíveis a esse tipo de relato, também afasta espectadores que acabam de ser apresentados à poetisa, que certamente são a esmagadora maioria, precisamente devido ao que o filme pretende retratar: a injustiça histórica que escondeu a vida de Antonia Pozzi.

Não é de se espantar, então, que na saída da sessão desta quinta-feira, um rapaz distribuía cédulas para a votação do júri popular e, das poucas pessoas com que falei, a reação não poderia ser mais diversa. Um deu ao filme a nota máxima; outro, a mínima; outro, a exata média. É, acredito, o ônus de rodar um filme tão particular, de uma sensibilidade tão específica, em que raramente o que é transmitido acaba sendo também aquilo que é compreendido.

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