Quando Twin Peaks foi lançada, no início dos anos 90, a TV (aberta) americana estava em crise, bastante assustada com a concorrência dos canais pagos e das locadoras de vídeo, que dominavam uma grande fatia do mercado. A ABC, na tentativa de reformular a sua programação, apostou em dois nomes bem curiosos para dar novos ares a sua grade: David Lynch e Mark Frost. O diretor e o roteirista de TV, que na naquele momento já tinham respaldo da crítica, estavam longe de representar o modelo de narrativa que agradava a audiência. Frost, por sinal, contou em uma edição da Rolling Stone que quando exibiram o piloto para os executivos do canal, eles não souberam dizer nada sobre o resultado, nem conseguiram apontar possíveis mudanças, diante da discrepância entre o que tinham visto e o que estavam acostumados a assistir.
Lynch, naquele momento já indicado a 2 Oscars por O Homem elefante (1980) e Veludo Azul (1986) e Frost a um Emmy, por Hill Street Blues (1981), eram bastante críticos ao modelo de exibição televisivo, que visando o lucro, fragmentava o enredo com inúmeros intervalos e propagandas. Cineastas, por sinal, costumavam ser avessos a essa prática e, certamente por isso, poucos tinham colocado as mãos e realizado algo exclusivamente para a telinha até ali. Trinta episódios depois, Twin Peaks saía do ar, sem saber que iria abrir caminho para que outros profissionais da sétima arte se sentissem mais seguros e aceitassem trabalhar para a televisão.
Com duas temporadas, tendo a primeira apenas 8 episódios, e a segunda 22 (lançada um ano depois), Twin Peaks se tornou um marco para a história da televisão e até hoje é cultuada por fãs ao redor do mundo. É possível listar uma centena de razões para que ela tenha conquistado esse status, selecionei aqui 5 deles, pensando principalmente naqueles que ainda não entraram (sorrateiramente) nesse mundo de sonhos, repleto de mistérios e enigmas criativos.
1Narrativa inventiva

Se você construir uma linha do tempo e avaliar as séries produzidas antes de Twin Peaks, perceberá que quase todas elas eram procedurais, ou seja, cada episódio iniciava com um plot que seria resolvido dentro dele mesmo. David e Frost optaram por projetar a narrativa que estavam criando a partir de uma ideia: o assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee); uma jovem de 16 anos que é encontrada morta logo nos primeiros minutos da série. O assassinato vai desencadear uma investigação que será realizada pelo departamento de polícia da cidade e que contará com o apoio do icônico Agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan). A partir desse evento os personagens vão sendo desenvolvidos, sem pressa. É o que muitas séries fazem hoje, mas naquela época optar por esse caminho era bastante arriscado, visto que o público não estava habituado a ficar sem respostas por tanto tempo. A pergunta: quem mantou Laura Palmer?, que sacudiu o público, inclusive aqui no Brasil, é o começo da história, mas não é, nem de longe, o seu ponto de chegada.
A série não pretendia mesmo ficar refém dessa resposta, pelo contrário, a cada episódio a dupla explorando novas camadas daquela cidade, percebendo calmamente as suas características e conectando todos os núcleos em uma espécie de teia que mistura (sem resistência), realidade e sonho. Se você espera uma série que se desenvolva rápido, que triture os personagens em busca de soluções imediatas, é importante pontuar que o Lynch cobrou total liberdade de criação e não cedeu mesmo a qualquer tipo de pressão da emissora, ele trabalha plano a plano com muito cuidado, pouco preocupado com a queda de audiência, que em meados da segunda temporada já era uma realidade.
2A riqueza simbólica dos personagens

Apesar do mistério, Twin Peaks é uma série sobre si mesma, ela foge dos rótulos fáceis, principalmente porque nos apresenta personagens que destoam da aparente normalidade em que vivemos. Cada figura é extremamente importante e todas elas desempenham funções significativas para o enredo central. Tem quem diga, de forma muito pontual, que o maior personagem do seriado é a própria cidade. De fato, Twin Peaks não é um lugar qualquer, e isso fica claro na sua atmosfera, na forma como ela povoa gradativamente o nosso imaginário.
Nela estão as figuras mais carismáticas e dúbias que você já viu na TV. Da mulher do tronco (Lady log), que abre a série com um monólogo, carregando nos braços (literalmente) um tronco de madeira, que ela acredita falar, passando pelo detetive que conversa e dá nome a um gravador, e chegando na própria Laura, que apesar de morta, é a uma personagem sempre presente, amarrando e costurando a rotina daquele lugar, transformando o seu passado em presente.
Digo sempre que Laura é de longe uma das personagens mais ricas e complexas já criadas, e o mais curioso é que ela está morta, sua persona é construída a partir das lembranças dos seus colegas, da sua família e dos moradores que viviam no seu mundo. O trabalho dos atores é fabuloso, de total entrega, e só mesmo uma boa direção para conseguir extrair atuações naquele nível.
3A estranheza que mora em nós

Se você já viu algum filme do Lynch (com exceção do Duna de 1984), sabe que ele não brinca em serviço. As narrativas que cria prezam pelo aprofundamento, pelo não explicito. Aqui ele desenha um cenário bastante rico em estranheza. É como se ele colocasse para fora tudo aquilo que escondemos, o que normalmente deixamos para fazer quando estamos sozinhos, reclusos em nosso próprio mundo. Todos os personagens possuem costumes que, para um telespectador viciado em retratos mais verossimilhantes, podem parecer bizarros.
Talvez seja por isso que Twin Peaks tenha conquistado uma legião de fãs tão fiel e apaixonada por aquele universo. Naquela cidade qualquer pessoa pode viver a sua própria fantasia, pode colocar para fora os desejos e os medos que moram nos lugares mais profundos do subconsciente (Lynch, por sinal, é conhecido como o diretor dos sonhos). Claro que toda essa liberdade tem um preço, principalmente porque ela vem carregada do mal e da violência que negamos existir em nós, mas que estão ali, gotejando em doses homeopáticas. Costumo dizer que não existe impunidade em Twin Peaks, a busca por justiça é uma das suas maiores motivações, mas essa busca é contraditória e pode ser vista por diversos ângulos, o que nos inquieta ainda mais.
4A estética e o som como uma pintura

Uma das coisas mais bonitas em Twin peaks é o seu tratamento afinado e bem pensado. A cenografia é de uma sutileza rara. David usou cores e tons que se tornaram referências importantes até mesmo para a moda daquela época (dizem até que ele proibiu, por exemplo, o uso de itens da cor azul). A trilha sonora, composta por Angelo Badalamenti (de quem também sou fã) em parceria com o próprio Lynch (escutem o envolvente tema de Laura (Laura Palmer’s Theme) e a deliciosa Audrey’s Dance, minhas preferidas e disponíveis no Spotify), reforça ainda mais o tom de enclausuramento e ajuda a pintar a paisagem curiosa e excêntrica daquele lugar.
Apesar dos acontecimentos violentos, Twin Peaks é bastante convidativa e está sempre disposta a aceitar as nossas estranhezas. A clássica abertura, que mostra algumas das mais bonitas locações da série (filmadas em Snoqualmie e North Bend), é outra marca registrada. Interessante ressaltar também o uso de planos bem desenhados; a câmera parece dançar, fazendo curvas, explorando os detalhes, trazendo para o nosso campo de visão aquilo que passaria despercebido; um primor que só poderia sair da mente de um gênio.
5A imersão na cultura pop

Por fim, podemos afirmar que bem antes das grandes séries da atualidade, como Game Of Thrones e The Walking Dead, Twin Peaks foi pioneira no que diz respeito a criação de um rico universo expandido. A produção conseguiu status de cult/noir só após o seu término, mas antes disso, ela já estava presente em diferentes plataformas. Marcas de café, roupas e acessórios lucraram bastante com as características e os costumes daqueles personagens. Twin peaks criou e virou moda, atingindo o grande público com seus elementos figurativos. As rosquinhas e as tortas de cereja, por exemplo, viraram uma febre durante a sua exibição e são utilizadas até hoje nas inúmeras homenagens feitas pelos fãs.

Apesar da escassez dos computadores, e da não existência de redes sociais, a série também foi uma febre nos fóruns de discussão que já existiam nas Universidades americanas. Grupos se reuniam para discutir os acontecimentos e criar suas próprias teorias. Algo muito comum hoje, mas que só era visto naquela época nas grandes sagas do cinema.

Outro tópico importante é que o universo de Twin Peaks esteve e ainda está presente em outras narrativas. Filmes, séries e comerciais usam até hoje a sua ambientação como referência clara. Arquixo X extrapolou bastante os esses limites e chegou a trazer em um dos seus episódios o personagem ‘Hawk’, um dos policiais que ajuda o detetive Cooper.

Desenhos animados como Scooby Doo, Os Simpsons e até o mais atual Gravity Falls, já fizeram grandes homenagens a Twin Peaks (evocando principalmente a famosa sala de espera, que deixarei para citar no final desse texto). Twin Peaks também lançou livros que complementam aquilo que foi abordado na série, como o famoso O diário de Laura Palmer, best-seller escrito pela própria filha do Lynch (Jennifer) e que acaba de ser relançado aqui no Brasil (por sinal uma leitura muito indicada). A série também se transformou em objeto de culto, visto que fãs no mundo todo relembram as datas dos principais eventos da série; o dia 24 de fevereiro, dia em que Laura é encontrada morta, é até hoje lembrado, fazendo com que centenas de fãs tirem fotos reproduzindo a clássica cena (She’s Dead, Wrapped In Plastic/ “Ela está morta…enrolada em plástico”).
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Claro que nem todo mundo vai se sentir à vontade e disposto a entrar na floresta sombria, na teia de sonhos que desafia a lógica até mesmo da natureza. Twin Peaks pode se tornar enfadonha e chata para quem não estiver disposto a caminhar no plano do não explicado. Não é um trabalho fácil, mas é uma produção extremamente rica em significados.
Agora, 26 anos depois, Lynch e Frost acabaram de filmar uma terceira temporada, que, excepcionalmente, não certamente não faz parte dessa moda de remakes e continuações forçadas, visto que no final da última temporada eles anunciam claramente essa possibilidade, uma jogada inteligente e de gênio que é apresentada nos minutos finais da série. Para tornar esse sonho em realidade, escalaram quase todo o elenco da versão original, todos voltarão respeitando essa passagem de tempo e para ficar ainda melhor, David e Frost escalaram um elenco que, tentando não transparecer ainda mais o meu entusiasmo, é de longe o melhor elenco já anunciado para uma série. Temos Monica Bellucci, Laura Dern (que trabalhou com Lynch em Veludo Azul), Naomi Watts (que protagonizou o excelente Cidade dos Sonhos), Ashley Judd, Tom Sizemore, Michael Cera, David Dastmalchian, David Duchovny (sim, ele mesmo) e até a cantora Sky Ferreira.
Quero finalizar esse texto falando primeiro sobre a fantástica Margaret Lanterman, a senhora do tronco, que faleceu ano passado, mas que estará na série, visto que o Lynch conseguiu filmá-la. Um presente para os fãs e de longe um dos momentos mais emocionantes desse retorno. Deixo aqui minha frase preferida tida por sua personagem: ”meu tronco não julga”. Pretendo escrever ainda mais esse rico universo, com a intenção de levar cada vez mais colegas para a sala de espera (The Waiting Room); um espaço que vive dentro de nós, um lugar com três pessoas, 3 cadeiras e que não sairá da sua mente por um bom tempo. Sobre essa sala, você pode não ter visto nada de Twin Peaks, mas se é um fanático por cultura pop e adora buscar novas referências, sem dúvida vai reconhecer o seu formato, a sua roupagem. Termino dizendo que nós, viciados em séries, devemos muito ao que Lynch e Frost criaram, e esperamos que eles estejam preparando uma ótima temporada para o próximo ano.
Fragmentos retirados do diário de um fã:
– Esse ano será lançado nos EUA um livro que pretende expandir ainda mais o univero de Twin Peaks e que foi escrito pelo talentoso Mark Frost, intitulado The Secret History of Twin Peaks (A secreta história de Twin Peaks), que vai reunir uma série de documentos sobre aquele lugar. Os direitos foram adquiridos aqui no Brasil pela Companhia das Letras e tem previsão de lançamento para o início de 2017.
– Aqui no Brasil a série foi exibida na Rede Globo, mas devido à baixa audiência, foi picotada e em seguida retirada completamente do ar, antes disso, claro, virou assunto em todas as residências e até hoje é lembrada com bastante carinho por parte do público.
– A série também virou filme, Twin Peaks: Fire Walk with Me foi dirigido pelo próprio Lynch e lançado em 1992, uma versão amada por boa parte dos fãs, mas que recebeu críticas negativas por onde passou, inclusive foi vaiado em Cannes, mas quem se importa não é mesmo?
– Triste a não confirmação da talentosa e inesquecível Piper Laurie, que faz a personagem Catherine Martell e que é uma das minhas personagens preferidas. A atriz alegou que não encontraram espaço para o retorno da sua personagem.
– Quem também não confirmou retorno foi a Lara Flynn Boyle, que recusou voltar para série em 92 (para o filme) e que parece ter ficado de fora novamente. Especulasse que Ashley Judd seja a Donna Hayward da nova versão.
– A série tem previsão de estreia para o início de 2017 e será exibida pela Showtime.
– O personagem de David Bowie, o agente Phillip Jeffries (sim, ainda temos o Bowie envolvido nessa história), não irá aparecer na nova versão, parece que o David não conseguiu gravar as cenas antes do seu falecimento no início desse ano. Que pena.

Até a próxima colegas, nos encontramos daqui há alguns meses.
Abraços.






















