Depois de ter um público com opiniões divididas sobre sua primeira temporada, 13 Reasons Why retorna dando mais motivos para as críticas negativas. Quando a primeira temporada acabou e todos estavam dizendo que a série romantizava depressão e suicídio, eu não concordei, pois de nenhuma maneira vi as coisas que aconteceram com Hannah serem embelezadas, na verdade achei tudo muito pesado e de certa forma realista. Entretanto, concordo que a série pode ser um gatilho para pessoas sensíveis que estão passando ou passaram pela mesma coisa, então eu questiono as pessoas que não apoiam a série desde a primeira temporada por esses fatores, por qual motivo a pessoa iria assistir a segunda temporada?
Quando a série foi renovada, muitos reclamaram dizendo que não era necessária, tendo em vista que era a adaptação de um livro e que isso era apenas uma maneira de a Netflix ganhar dinheiro, porém, poucos criticaram a HBO quando renovou Big Little Lies nas mesmas circunstâncias. Enfim, depois do final aberto que a primeira temporada deixou, o segundo ano de 13RW veio para mostrar como a história de Hannah afetou o contexto social em que a mesma vivia, porém também veio com diversos furos no roteiro, que é preciso muita paciência para engolir.
Começando cinco meses depois dos acontecimentos da primeira temporada, depois de os pais de Hannah descobrirem sobre as fitas, um processo contra a escola Liberty High foi aberto e vemos então em cada episódio, um depoimento dos envolvidos com a morte da moça e a partir desses depoimentos, descobrimos fatos ainda não revelados, que Hannah deixou de fora de suas fitas. E é nessa parte que os roteiristas se perderam. Até o episódio 6, esses novos acontecimentos até que fazem sentido, pois eram apenas continuações de coisas que já sabíamos pelas fitas, até que de alguma forma os roteiristas decidiram inventar um romance entre Zach e Hannah, que eu até achei muito fofo, pois ver Hannah feliz em qualquer cena é uma alegria pro meu coração, porém a coesão foi completamente destruída.
Na primeira temporada, quando escutamos a fita do Zach, em nenhum momento Hannah conta ou deixa implícito um envolvimento com o moço, o que não faz sentido, já que a série mostra na segunda temporada o quão intenso foi o romance dos dois nas férias. Foi mais fácil aceitar que Hannah e Bryce foram “amigos” do que acreditar que Zach e Hannah se envolveram, sem que isso fosse um fator a ser citado durante as fitas.
A protagonista da temporada acaba não sendo só Hannah, mas sim todas as vítimas de abuso sexual e eu diria que esse foi o grande acerto desse segundo ano. O objetivo dos jovens era simples: fazer com que Bryce pagasse por tudo que ele fez com Hannah e Jessica. A questão é que obviamente ele não foi o único que fez isso, e conseguimos ver a corrupção e negligência por parte da escola com esses assuntos de uma forma tão absurda, que incomoda a quem ver. A existência do “clubhouse”, onde os jogadores convidavam garotas para uma espécie de depósito e nesse lugar muitos deles acabavam assediando tais garotas e tirando fotos polaroides das visitantes, foi o grande fator para aumentar a culpa da escola, já que por mais que a diretoria não soubesse sobre esses assédios, tinham noção da existência do lugar e que era usado para o consumo de bebidas e drogas.
A diferença entre a primeira temporada e a segunda é que as polaroides não funcionam como as fitas funcionaram, dando um ar de suspense para qual seria a próxima, tanto que quando descobrimos quem estava mandando as polaroides, para que o Clay fizesse alguma coisa, não impacta tanto quanto deveria. Talvez o único momento em que funcionaram foi quando encontraram o polaroide que deixa claro que Bryce abusou de Chloe, enquanto a mesma estava desacordada.

Falando em Clay, o personagem nessa temporada atingiu o ápice de sua loucura. Os roteiristas precisavam manter Hannah presente na narrativa de alguma forma, uma vez que os flashbacks não tomavam tanto tempo quanto a narrativa do tempo atual e decidiram então trazer a moça como um “fantasma” na mente de Clay, mas na verdade isso não foi tão ruim quanto parece, afinal depois de um tempo você acaba se acostumando com a presença irrealista da moça ali. Um ponto positivo para o roteiro é a questão da credibilidade da Hannah, com a defesa da escola tentando de diversas formas fazer com que ela parecesse apenas mimada e problemática, o que acabou funcionando no final do julgamento, mas a verdade é que por mais que a moça não fosse perfeita, nada do que aconteceu com ela foi culpa dela e não há argumentos para justificar os abusos que a jovem sofreu.
Agora Jessica precisou encarar seu agressor e queria parabenizar a atuação de Alisha Boe, que atuou muito bem nessa temporada, por mais que ela tivesse o apoio dos pais e de seus amigos, é muito complicado para a personagem, assim como para milhares de pessoas que já foram assediadas. Falar sobre o que aconteceu, tal questão é apontada diversas vezes na temporada, não só por Jessica, mas por Nina, que também foi abusada sexualmente por um jogador de beisebol e ajuda Jessica a lidar com seus problemas e por mais que a atleta não tenha lidado com os seus problemas totalmente, o que é muito comum, superar um trauma pode levar anos ou até a vida toda. O episódio do depoimento da Jessica é um dos melhores pra mim, porque ela nem precisou falar sobre o que aconteceu com ela para mostrar o modo como é mais complicado para uma garota viver numa sociedade com princípios tão machistas e mesmo assim a advogada arranja alguma forma de fazer parecer que existia alguma rivalidade entre a Jessica e a Hannah. Um retrato da vida real, não é mesmo?
Enquanto Jessica não estava pronta para relatar o que aconteceu com ela, Clay e Tony vão atrás de outras alternativas e é onde reencontramos um Justin drogado e sem-teto. A narrativa de Justin nessa temporada foi muito satisfatória, além das amizades construídas nesse segundo ano, tanto entre Justin e Clay, Alex e Zach e Cyrus e Tyler funcionaram muito bem para o roteiro. Justin encontrou um lar para morar e uma família, já que sua casa nunca foi realmente um lar, por isso que o jovem demorou tanto para entregar Bryce, que por muito tempo foi sua “família”. A atitude de Justin em entregar Bryce, por mais que isso significasse que ele também seria preso por cúmplice, mostrou a evolução do personagem, mas nem tudo é perfeito, já que o mesmo continua usando drogas. Justin também levantou uma questão importante sobre o motivo para Bryce ter feito o que fez com Hannah, não só o estupro, mas ao enviar a foto de Hannah para a escola toda. Foram atos de vingança e inveja. Descobrimos que Bryce foi rejeitado por Hannah, que ela gostava dele apenas como amigo e isso não foi suficiente para o capitão do time.

Ainda falando sobre as relações entre os personagens, temos a luta de Alex para lembrar das coisas que esqueceu quando tentou se matar, sendo a descoberta mais relevante e impactante, pois apresenta uma coerência com a primeira temporada. O impacto da morte de Hannah para Alex foi piorando no decorrer da temporada e entendemos o porquê. A culpa que ele sente vai além do que foi apresentado em sua fita, foi algo que nem Hannah sabia, já que Alex e Montgomery escutaram quando Bryce e Hannah estavam na banheira. Descobrimos então que as ameaças estavam vindo de Montgomery e não de Bryce, como todos achavam, não que Bryce não soubesse. Não estou pronto para falar sobre meu ódio pelo Montgomery. Nessa temporada alguns personagens apenas fizeram pequenas aparições, como Courtney e Ryan, que tiveram destaque nos episódios de seus depoimentos, aparecendo apenas como coadjuvantes. Ryan até teve um papel mais importante, por causa do segredo de Tony, que logo descobrimos sobre o que se tratava e mais um mistério dessa temporada que não teve o impacto que deveria ter. Parece que nos apresentaram muitas perguntas durante a temporada, mas suas respostas apenas não foram satisfatórias ou não saíram do clichê. É nesse ponto que a série encontra sua falha, pois as narrativas interessantes foram todas envolvendo o desenvolvimento das questões já presentes na primeira temporada. Sheri, por outro lado, ajudou bastante Clay, Justin e Tony, seja na desintoxicação de Justin ou conseguindo a localização do “clubhouse”.
Uma das tramas mais importantes e dolorosas durante a temporada é a da mãe de Hannah e sua luta por justiça. Kate Walsh merece muito reconhecimento pelo seu trabalho impecável nas duas temporadas, alguém indica essa mulher para todas as premiações, por favor! A dor pela morte da filha só se intensifica cada vez que ela descobre algo sobre Hannah que ela não fazia ideia, o que é muito real, pois jovens escondem tantas coisas de seus pais e descobrir isso em um julgamento, onde um lado está tentando destruir a imagem da sua filha, é muito complicado. Por mais que não tenha conseguido vencer o processo, Olivia encontra um pouco de paz no meio de tanta confusão, uma das descobertas que funcionaram nessa temporada foi a traição de Andy. Eu tento ao máximo não julgar Andy pelos seus atos e por decidir simplesmente abandonar sua esposa nesse período, pois todos lidam com a morte de um ente querido da forma como conseguem, mas foi muito injusto com a Olivia. Não tem como reclamar de nada sobre esse núcleo, talvez só da Sonya, mãe de outra adolescente que estava tentando ajudar Olivia, porém não deu muito certo quando a moça descobriu que Hannah também já tinha praticado bullying.
A série então apresenta o desfecho da narrativa de Hannah e acredito que não há mais nada para ser contado sobre ela. Infelizmente a escola saiu ilesa das acusações sobre negligência, quando deveria ter perdido e acabar com a corrupção envolvendo o diretor e professores. O depoimento do Kevin Porter foi muito impactante, tendo em vista que Hannah foi até ele e o mesmo se sentiu profundamente culpado pelo ocorrido. A cena em que ele é demitido oficialmente e diz para o diretor falar com determinados alunos, pois caso não fossem ajudados, iriam terminar como a Hannah, ou de forma até mais grave, como quase aconteceu, mostra como negligência já está completamente instaurada na diretoria da escola. No último episódio, existem muitas sequências bem-feitas que me chamaram muito a atenção, começando com o discurso do Clay no funeral, que foi emocionante e apresentou um amadurecimento do personagem, que passou a temporada toda dominado pelo sentimento de raiva e culpa, ou até mesmo no baile, quando toca a música que os dois dançaram no ano anterior. Fico muito feliz em ver como a história de Hannah conseguiu uma conclusão satisfatória, tanto para seus pais, quanto para seus amigos, não que eles tenham superado, mas que de alguma forma tenham encontrado paz.

E por último, e mais revoltante, foi o fato de Bryce conseguir sair praticamente ileso dos crimes que cometeu, mesmo depois da Jessica e do Justin terem testemunhado. Esse é um personagem muito nojento e ele sabe que não vai ser responsabilizado pelos seus erros, até mesmo sua namorada Chloe, que também foi abusada sexualmente por ele, não consegue testemunhar contra o agressor. Porém, ainda acho que ele não foi responsabilizado como merece, pois os produtores têm em mente uma terceira temporada e ainda querem usar o personagem, na verdade é o que espero, pois é muito ruim aceitar esse final.
Chegamos ao ponto de falar sobre os extremos da temporada. Vi muitas pessoas reclamando que a série incita a vingança de Tyler contra aqueles praticavam bullying com ele e o que mais me espanta é a hipocrisia ao dizer que situações como o bullying e a reação do Tyler não deveriam ser mostradas, sendo que não falar sobre, é pior ainda. Se mostrassem o jovem sofrendo tudo isso e apenas seguindo com a vida, aí sim estariam embelezando a situação, tendo em vista que o ambiente negligente que os jovens dessa série se encontram, é quase impossível que um adolescente não vá tentar lidar com as coisas sozinho, o que praticamente quase todos os personagens fazem. A trajetória de Tyler é apenas um reflexo do quão hipócrita a sociedade é, até mesmo os personagens da série, que aparentemente não aprenderam nada com o que aconteceu com Hannah e não percebem que Tyler está sofrendo cada vez mais. É um espelho da vida real, pois não importa o quanto você diga que a série não abre discussão nenhuma sobre o assunto, quando você só tem empatia pelo que você considera valer a pena. Lembra do famoso ditado “é sujo falando do mal lavado”?
Tyler durante toda a temporada tenta fazer o que a escola não fez, que é responsabilizar os culpados, porém, a forma como ele fez beira o extremismo, combatendo fogo com fogo. Sua amizade com Cyrus só aumenta essa sede pela vingança, o que é normal para um adolescente sentir quando é colocado sob tanta pressão e culpado por coisas que ele não fez, como a cena que Zach ameaça o jovem, sendo que ele também está sendo ameaçado. Desde o final da primeira temporada, já dava pra imaginar que, se caso a série fosse renovada, um tiroteio poderia ser uma coisa abordada, tendo em vista a relevância do assunto, mas a forma como fizeram… Já pensei em diversas maneiras que eles poderiam ter feito a mesma cena sem ser de uma forma tão gráfica. O diretor de 13RW afirmou que fez dessa maneira para que “o público sentisse empatia pelo personagem e sentisse a dor dele”, então queria dizer que eu já estava sentindo empatia pelo Tyler desde a primeira temporada, então não tem como discordar que a cena foi do jeito que foi apenas para chocar os telespectadores e parabéns, pois acho que todos que assistiram ficaram traumatizados. Esse pano não deu pra passar, porém a importância de conversar sobre o assédio sexual com adolescentes da maneira como aconteceu deve ser debatido, pois não é um tema muito abordado, mas que acontece frequentemente. Não preciso nem citar a cena especificamente, pois se você viu a temporada toda, sabe do que eu estou falando.

Falando diretamente sobre o lixo que é o Montgomery, nunca vi personagem mais ridículo e olha que estamos falando de uma série com o Bryce, por mais que ele estivesse com raiva pelas coisas que o Tyler fez, se vingar daquela maneira foi covardia e doloroso demais. Literalmente não consigo pensar em nada para falar dele, pois ainda não digeri aquela cena.
O ator que interpreta o Tyler comentou sobre a cena recentemente em uma entrevista e sobre a importância de falar dos temas apresentados pelo seu personagem e não posso discordar. Fiquei feliz que pelo menos não terminaram a temporada com o Tyler entrando no ginásio e sim no carro com o Tony.
Como dito no começo da review, 13 Reasons Why trouxe mais motivos para ser criticada e a série nesse segundo ano quase apresentou uma temporada bem mais leve do que a primeira, porém a tal cena de agressão no último episódio foi uma das mais pesadas de toda a série e só dá mais argumento para as pessoas que criticam. Como continuação de uma adaptação, a 13RW falha ao tentar ligar as novas narrativas com a primeira temporada, mas o problema é muito evidente, quando fizeram a primeira temporada, os produtores não imaginavam o sucesso que a série faria, logo não pensavam muito numa segunda temporada, o que acabou desafiando a coesão desse novo ano.
Entretanto, não pode-se dizer que a temporada foi ruim de forma geral, pois algumas histórias apresentadas foram bem desenvolvidas, como os casos de assédio, como as vítimas lidam com esse trauma, as relações construídas entre os personagens e como tais relações geraram boas consequências, como os pais de Clay adotando o Justin, que nunca teve uma família estruturada.
Termino aqui minha reflexão sobre essa segunda temporada, que apresenta erros tanto de roteiro, quanto de cuidado ao retratar uma agressão sexual tão explícita. Se for renovada, espero que os produtores tratem de uma maneira mais responsável os assuntos que decidem abordar.
Observações:
– Não citei a Skye no texto, pois para mim a história da personagem ficou muito desconexa com tudo que estava acontecendo, talvez fosse preciso um pouco mais de aprofundamento sobre sua bipolaridade, mas gostei da maneira como ela se despediu de Clay.
– Uma coisa que continua perfeita sem nenhum defeito nessa série é a trilha sonora, caso vocês queiram, tem uma playlist no spotify com todas as músicas, vão lá apreciar.
– Achei meio aleatória a gravidez da Chloe, mas deve ser assim que os roteiristas pretendem trazer o Bryce de volta à narrativa na próxima temporada, caso tenha.
– Não entendi o motivo da Nina ter roubado e queimado as fotos. Tudo bem que ela não queria que as pessoas descobrissem sobre o que aconteceu com ela, mas não acho que ela tinha direito de fazer isso com todas as fotos.
– Queria parabenizar o elenco pela química e pela performance deles nesse segundo ano, é muito fácil ficar envolvido pelos personagens.
– Por último, mas muito importante: Se você está passando por algum problema e tendo pensamentos suicidas, converse com alguém, algum familiar, amigo ou adulto que você confie. Existem também sites e números que você pode ligar para pedir ajuda.
Centro de valorização da vida: http://cvv.org.br ou ligue 188.
Helpline: http://www.helpline.org.br.















