O NADA e a difícil tarefa de escrever sobre ele.
Eu poderia começar esse texto falando sobre minha frustração ao assistir o season première de ‘The Walking Dead’. Porém, quem acompanha essas reviews desde a temporada passada, sabe da minha decepção com os rumos tomados pela série na segunda metade da 3ª temporada. Infelizmente me frustrar é um luxo ao qual eu não posso me dar, principalmente porque essa seria uma consequência natural das expectativas positivas que um season finale deve causar. Como elas, as expectativas, estavam bem baixas, ‘The Walking Dead’ tinha uma tarefa fácil para este início de temporada: o de surpreender e superar o inexistente, o nada. Pois mesmo assim, este season première não conseguiu corresponder a todo o hype ainda causado pela série.
A definição de uma linha dramatúrgica foi uma das principais qualidades de ‘The Walking Dead’ nas suas três temporadas. Por mais que a preguiça de seus inúmeros produtores executivos tenham comprometido o rendimento de alguns plots, como a busca de Rick por sua família, a chegada ao CDC, a procura por Sophia e o embate com o Governador, este norte para os personagens sempre esteve presente na condução dos episódios.
Na apresentação de sua 4ª temporada, o que a série nos mostrou foi um acumulado de situações que, interligadas, não esclarecem para o telespectador o que veremos este ano. É como se diversas esquetes com zumbis tivessem sido colocadas em sequência, ao longo de 40 minutos, para formar um episódio.
‘The Walkind Dead’ possui deficiências quando precisa criar situações em que não há um antagonista claramente definido. Shane e Phillip, ao assumirem essas posições em temporadas passadas, conseguiram dar liga a todas as situações que vimos nos últimos anos. A expectativa pelos confrontos foi uma forma muito feliz de justificar que a série fosse acompanhada.
Rick tomou a decisão questionável de se refugiar na prisão, com os sobreviventes de Woodburry. A cidade possui infraestrutura adequada, boas barreiras com possibilidade de guarda e, ainda assim, sequer foi questionada para ser o novo lar dos sobreviventes. Preciso dizer que entendo a decisão do ex-policial. Com Phillip provavelmente vivo, Woodburry não é o local mais indicado para montar acampamento, porque o Governador tem conhecimento de todo o esquema de segurança que ele mesmo criou e certamente poderia armar uma estratégia para atacar a cidade. Ainda assim, a sequer menção a esta possibilidade incomoda, principalmente depois de ver tempo de tela dedicado a assuntos interessantíssimos como o cultivo de plantas.
Em ‘30 Days Without an Accident’, fomos apresentados a este novo mundo criado após a união dos grupos da prisão e de Woodburry. Acostumados a figuras de liderança, percebemos que foi criado um Conselho para definir as decisões tomadas, uma vez que Rick restaurou a democracia e declarou que não era mais responsável por vidas além das dele e de seus filhos, no fim da 3ª temporada. Graças à segurança proporcionada por cercas, já acenadas por Carol como insuficientes para deter a quantidade de zumbis que insiste em se aproximar, a pecuária e a agricultura puderam ser trabalhadas nesse período de paz, já que aparentemente eles deram uma passadinha em ‘Once Upon a Time’ e conseguiram feijões mágicos que fazem nascer verduras, porcos e cavalos.
Em seguida, novos e velhos personagens partiram em busca de recursos, jornadas que já se tornaram tradicionais na série pelo fato de ser uma forma fácil de criar tensão entre humanos e zumbis, sem comprometer o habitat ‘seguro’ em que eles estão estabelecidos. Aliás, este foi outro problema. Muito bem feita a execução da cena na loja, mesmo com o chroma-key do helicóptero no final. É impossível não se deliciar com uma chuva de zumbis. O erro esteve na concepção. Estes novos personagens mal apareceram, sequer havíamos conhecido suas histórias, e nós já estávamos lá, supostamente devendo torcer por suas vidas. Assim, selou-se o destino de Zack, o namorado da nossa elizaBeth Taylor Swift, e quase encerrou a participação de Bob, que ainda teve tempo para mostrar seu possível problema de alcoolismo, drama típico de qualquer familiar de personagem de série teen da ‘The CW’.
Rick, coitado, teve que sair da prisão para cumprir uma missão qualquer e acabou encontrando uma mulher desesperada na floresta. O antigo Rick, não aquele bobalhão benevolente da 1ª temporada, mas aquele macho com culhões que vimos durante grande parte da 3ª, certamente teria ignorado a presença e seguido seu caminho. Mas como em ‘The Walking Dead’ decisão bem tomada significa decisão abandonada, ele voltou a ser o bobalhão benevolente e resolveu fazer um vestibular com três perguntas para saber se a mulher e seu marido poderiam se juntar ao grupo.
Esse plot foi o problema mais nítido deste S04E01. Rick deveria ter percebido que aquela mulher não tinha boas intenções porque continuou com o sanduíche na mão, mesmo após declarar que ela e seu marido estavam famintos por não comerem há dias. Mas ele voltou a ser o bobalhão benevolente, então nem percebeu isso. Como se não bastasse, após passar muito tempo conversando com essa figurante na floresta, imaginando que nos importávamos com a história dela, ambos chegam ao acampamento em que o marido se encontra, mas somos surpreendidos (-sqn) por uma tentativa frustrada de ataque. Eddie, provavelmente só sua cabeça, estava guardado sob uma toalha e a esposa queria apenas atrair Rick para alimentá-lo. O drama de um familiar tendo que lidar com um parente que se tornou zumbi já foi abordado diversas vezes, principalmente com Andrea e Phillip. Por algum motivo, acreditaram que seria interessante trazer isso de volta, ainda na première. Como se o equívoco não fosse suficiente, a mulher se mata após perceber que Rick descobriu sua real intenção com a justificativa de que assim poderia passar o resto de seus dias ao lado de seu marido. Oras, se essa era uma possibilidade, por que não fez isso antes? Assim teria nos poupado desses minutos de nossas vidas que jamais regressarão.
Carl finalmente conseguiu ver a inserção de um personagem com idade apropriada para ser sua namoradinha, afastando de vez os rumores de que Taylor Swift é pedófila. Mostrar que o garoto amadureceu talvez tenha sido uma das poucas qualidades dessa première. Este amadurecimento não precisa vir apenas em situações violentas, quando o filho de Rick deve decidir se mata ou não, seja um zumbi ou outra pessoa. As consequências de ter matado um rapaz no final da 3ª temporada surgem aqui, quando o menino se sente deslocado em relação aos interesses de outras crianças. Me senti embarcando num Carrossel ao vê-lo explicando a diferença entre pets e zumbis, mas essa condução está sendo satisfatória. O senso de proteção que o personagem já mostrou ter serve para, inclusive, explicar sua reação ao ver Carol ensinando aulas de defesa pessoal com faca para as outras crianças.
Aliás, Carol está mesmo decidida a afastar os rumores sobre sua homossexualidade e segue firme no intuito de conquistar Daryl. Como ela tem o dom de matar tudo o que toca, prefiro pensar na hipótese de que ela possui futuro na carreira de professora. Mas aposto que cedo ou tarde, quando for descoberta, ela fará algum drama para dizer que não quer que as crianças façam a mesma estúpida escolha de Sophia, que morreu porque não ficou quieta esperando onde foi ordenada.
Nem o cliffhanger que outrora garantia a sensação de que nem tudo foi perdido durante 35 minutos, se salvou. Patrick, aparentemente havia passado mal após Carol gritar “olha a faaaaca”, mas acabou morrendo de morte morrida, como diria minha avó, no interior da prisão e, pasmem, acordou zumbi. Se a série tiver um mínimo de preocupação em relacionar os acontecimentos futuros aos desse episódio, talvez faça alguma conexão à morte do porco. Caso contrário, serão apenas um porco morto e um nerd zumbi.
À despeito de todos esses problemas e mesmo sendo lembrada nas premiações importantes da televisão apenas em categorias de maquiagem, a série segue como sendo um hit indiscutível. O episódio de estreia foi assistido por mais de 16 milhões de espectadores, marcando 8.2 na demo de adultos 18-49 anos. Ainda assim, ‘The Walking Dead’ precisa definir e logo que tipo de série quer ser. Caso contrário, fará jus a seu nome e vai continuar caminhando morta.















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