The Flash entrega um final incrível para um episódio frustrante.

É enorme a minha decepção com a metade da segunda temporada de The Flash. Rupture era para ser aquele episódio que entrega o último gancho para os três capítulos finais da série, algo que já estava sendo antecipado há algum tempo. Com muitas expectativas, o optado para esta semana foi mesclar a indecisão de Barry com o drama de Cisco e seu irmão. E infelizmente meu sentimento geral com o arco permanece o mesmo de duas reviews anteriores: frustração.

Tudo o que acompanhamos durante o episódio foi um desenvolvimento galgado em pura exposição de diálogos ineficazes contrabalanceados por uma trama pouco interessante. A série reuniu três figuras paternas para aconselhar Barry, mas o resultado, o desfecho final, não era segredo. A série do Flash, o Corredor Escarlate da DC Comics, precisa que seu herói tenha poderes, que ele corra mais rápido que uma bala, que ele seja o mais rápido homem vivo. “Aleijar” o personagem fisicamente não impõe qualquer tipo de risco, nós sabemos o que irá acontecer e mesmo que leve três, ou dois episódios, Barry irá recuperar os seus poderes. Então é mais rentável para o telespectador ter o herói da série aprendendo sentimentalmente o que é ser um líder, o que é ser o protagonista. Não é a ameaça do Zoom que precisa guiar a decisão do Barry Allen, ou a imagem de seus dois pais e mentor confabulando para dissuadi-lo ou convencê-lo. Não. É necessário que a compreensão venha através do senso de dever.

Rupture coloca Barry em um estado de reação. Ele não está tomando decisões, mas sim reagindo ao que está sendo apresentado por ele por outras pessoas. Novamente a abordagem de deixar o protagonista sem poderes não é novidade e deverá ocorrer outras vezes, mas existem maneiras de se lidar com este evento de forma mais organizada. A primeira é não direcionando o foco para outro assunto totalmente alheio a trama principal. Trazer o irmão do Cisco para uma participação, assim como sua contraparte da Terra-2, é uma ideia apropriada para começo de temporada, facilmente encaixável antes da viagem para a outra dimensão. Lidar com este assunto durante um momento essencial demonstra a consequência direta de escolhas criativas feitas pela equipe da série e que estão arrastando a trama principal, especialmente dos últimos três episódios.

Consistência de roteiro é o que Flash mais precisa. Na verdade, consistência do texto é uma deficiência de absolutamente todas as séries da DC CW. Ter Henry Allen ali é interessante, pois impõe uma quebra na dinâmica entre Barry, Joe e Harrison, mas não condiz com a real necessidade. Nós sabemos que de uma forma ou de outra o Barry irá entrar no novo acelerador, que ele vai participar da experiência e que sua velocidade retornará. Não existe surpresa. A falta do elemento faz com que a presença do pai sirva apenas para enrolar o telespectador enquanto a série desenha um caminho para garantir poderes para Jesse e Wally. Sabe o que realmente teria sido útil? Se Henry tivesse voltado enquanto o Barry decidia se “doava” ou não a sua velocidade para o Zoom. Este teria sido o momento adequado para ter um conjunto de pais agindo ao redor de uma decisão não acertada.

Também faltou um pouco mais de preparação para as tramas futuras. Durante vinte episódios, isso mesmo, vinte, a série trabalhou por caminhos misteriosos para criar antecipação em cima da transformação de Wally e Jesse Quick em suas contrapartes nos quadrinhos. Inseriram Wally em uma trama de corrida de carros, expuseram o seu desejo em se tornar um herói como o seu ídolo, Flash, e também fizeram o mesmo com Jesse, chegando ao ponto de injetá-la com a Velocidade 9 e mandá-la para a cidade em que sua personagem viveu na nona arte. Só que a maneira lenta, comedida e sutil, perde completamente o controle quando o roteiro força ambos os personagens a ficarem presos no laboratório enquanto o experimento que deu os poderes ao mundo meta-humano é recriado. Não é o desejo, não é a motivação, muito menos o ápice emocional ao infectarem Jesse com a droga que garante poderes. Nada disso. O que faz com que estes se tornem heróis (vai acontecer) é a mera casualidade, só que de uma forma forçada. Se é forçado, cai em um problema recorrente para a produção, onde temos a certeza de que os roteiristas trabalharão de acordo com o que eles quiserem, dispensando completamente o passado daquelas personagens. Pior ainda quando Henry diz que o nome de solteira da sua mãe é Garrick, expondo diretamente a identidade do homem da máscara de ferro. É algo muito simples, muito rápido, mas sem ápice emocional… Vazio. Cadê a recompensa?

Quem também caiu bastante foi o vilão, Zoom. Não consigo entender qual a dificuldade em se trabalhar antagonistas em Flash. O amedrontador Zoom surgiu em um episódio incrível, com uma montagem de cena fenomenal e de dar medo. Contudo toda a trama do personagem se limitou a sua identidade secreta, não mais em suas ações. Todo o foco se movimentou em direção ao homem por trás da máscara e não para as atitudes do personagem. A fórmula de pedir que o telespectador procure por respostas junto aos personagens é ótima, ajuda bastante e é o núcleo de todo procedural. Só que a grande maioria das séries que se apoiam neste formato trabalha em uma hora toda a temática obrigatória, entregando a resposta antes dos minutos finais. The Flash transformou sua temporada inteira em um enorme procedural, uma investigação sem fim que nós precisávamos desenvolver ao lado de Barry, Caitlin e Cisco. Sem todos os elementos para atingir a resposta, sobrevivemos das migalhas deixadas pelo roteiro. Um código Morse, um pouco de informação sobre o passado, mas nada definitivo. Quero ser bem claro aqui, o problema não está no estilo adotado, mas sim na falta de ápice emocional em cima da reposta. Descobrimos a identidade do Zoom através de uma montagem fria. E agora estamos acompanhando um vilão superpoderoso que tem como plano central trazer meta-humanos de outra Terra para fazer o seu trabalho.

Mesmo que tenha falhado em várias instâncias a série acerta em cheio ao entregar um final totalmente chocante. É um tipo de desfecho que assusta o telespectador e cria um tipo de antecipação maior para o próximo episódio. Enquanto o vilão se transforma lentamente em um fraco reflexo do que ele já foi, a trama da série procura criar saídas para tudo o que levantou durante o seu segundo ano. Com pouquíssimo tempo disponível e mais uma barreira antes do embate final entre Barry e Hunter, resta saber se existirá uma recompensa para o final do arco, ou se iremos pela segunda vez, receber uma quase conclusão que só será totalmente respondida no ano 3.

Easter eggs e outras informações

– Não existe Fringe na Terra 2. Mas pela quantidade de oportunidades perdidas durante o arco das realidades alternativas, parece que nem mesmo na Terra 1, ou na vida real a série existe.

– O final do episódio banhou Wally e Jesse em energia negra resultante da explosão do acelerador de partículas. Bom, quem está acompanhando as reviews da série já sabe que ambos os personagens são, nos quadrinhos, velocistas com poderes iguais ao do Flash. Wally chegou a assumir o manto de Flash durante a morte do Barry Allen. E Jesse usa uma fórmula matemática para acessar a força da aceleração.

– Rupture é um vilão que existe nos quadrinhos. Só que a história do Cisco é um pouco diferente. O nosso ‘Vibe’ tem dois irmãos, Armando e Dante, mas quem assume o manto de Rupture é Armando e não Dante.

– A segunda transformação do Barry é bem similar a de Flashpoint Paradox. Só que nesta versão quem ajuda o Flash a recuperar seus poderes é o patriarca Wayne, que age como Batman após a morte do filho, Bruce.

– Vale dizer que o Flash já foi desintegrado na nona arte, em Crise das Infinitas Terras – Leitura obrigatória para quem é fã da DC Comics.

– Mais menções ao Harry Potter. Tem alguém na cúpula criativa da DC CW que está terminando a leitura agora.

– A montagem da cena em que o Zoom mata vários policiais ao mesmo tempo é incrível. Já tudo o que aconteceu na delegacia depois, além do seu diálogo com a Caitlin, não.

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