Um episódio inteiro para mostrar aquilo que todo mundo já sabia.
Que The Flash gosta de abusar da lentidão não é segredo para ninguém. Seu formato com vinte e três episódios permite uma quebra na narrativa para que outros caminhos sejam explorados; e os produtores nunca se acovardaram na hora de decidir alongar um pouco mais a trama central para inserir outros assuntos. É bom ter um espaço para respirar outros ares, sair de folga, mudar um pouco o ritmo. Na verdade esse é um dos pontos que eu sempre cobro e quero muito um dia ter em Agents of S.H.I.E.L.D., por exemplo. O problema com décimo sexto episódio é que ao invés de aproveitar o lado humano dos heróis e cientistas, a série pecou consideravelmente ao dedicar todo o seu ápice emocional para criar uma cena batida e uma revelação que não é mais nenhuma surpresa para o telespectador.
Inserir uma vilã da semana que pode correr mais rápido que o Flash também não é nenhuma novidade. Espero ansiosamente pelo dia em que um velocista aleatório não será mais rápido que o “homem vivo mais rápido”, mas também não é um problema, ao contrário, a presença da Trajetória foi boa no panorama geral. A motivação central, contudo, não fez muito pelo episódio. A grande força motriz em cima da personagem foi seu desejo em roubar e viver a vida correndo de um lado para outro. Sério? Sua existência se resumiu a fazer o Flash pular uma ponte e descobrir que a velocidade 9 é capaz de transformar raio vermelho em azul. Mas se a velocidade 9 só foi criada pela Caitlin pouco tempo atrás, como que o Reverso já apresentava aquele formato? Esqueça qualquer pergunta levantada pela ex-amiga da Caitlin, a mensagem central foi: jovens, não usem esteroides e vençam através do próprio esforço.
É bem simples aceitar que The Flash não é um Batman V Superman da vida, ou um Homem de Aço, duas produções que prezam por transformar todo o ar cômico e descompromissado das histórias em quadrinhos em produtos escurecidos pela seriedade e sobriedade. O nicho da série do Corredor Escarlate é outro, seu publico alvo, também. Nada justifica, entretanto, a banalização do roteiro em busca da solução de uma mensagem importante, mas desenvolvida de maneira superficial e bem aquém do esperado. Tudo o que faltou foi um disclaimer final com o elenco pontuando os riscos do uso de anabolizantes, como ginecomastia ou testículos reduzidos.
Trajectory é importante para a mitologia da série, afinal ela é a primeira velocista mulher de Flash e acrescentou bastante ao ter uma personalidade menos comum, mas não era uma personagem de verdade, apenas uma “alucinação”, um efeito colateral de uma droga, o que é uma pena. Sua participação poderia ter sido aproveitada de uma maneira diferente. Construir todo o texto ao redor da revelação de um fato que nós já sabemos por algumas semanas tira completamente o sentido em cima da surpresa. É um problema que eu já chamei a atenção nas reviews anteriores e que demonstra um pouco de despreparo da equipe de roteiristas ao criar o vilão principal da temporada. Até agora tudo está funcionando como uma repetição do arco com o Flash Reverso, até mesmo a possibilidade de ter um novo Jay Garrick, não conectado ao Zoom, mas ainda hostilizado por ter o mesmo rosto – o tal homem da máscara de ferro. Entretanto, se é para criar algo parecido com o ano anterior, que seja neste, que esgotem a fórmula agora.

Do outro lado do episódio tivemos um pouco da relação entre pai e filha de Harry e Jesse. Cavanagh é um ótimo ator e vê-lo conferindo um peso a mais para Harrison Wells é um ponto digno de elogios e sempre será. Enquanto estávamos longe do dilema moral de Barry e sua velocidade, o texto dedicou um momento a mais para humanizar Wells. Seu dilema em cima de sua função superprotetora de pai e seu papel de mentor elevaram o peso dramático de Trajectory, culminando na aplicação da velocidade 9 em Jesse e também em sua partida, após a revelação de que Harry havia matado o Tartaruga em seu desejo de reaver a filha das mãos do grande e perigos o Zoom. É aquele tipo de construção que tem tudo para dar errado, mas que graças a eficiência técnica de Cavanagh dá muito certo.
Infelizmente quem ganhou um tropeço dos roteiristas foi Iris, que aparentemente começará algum tipo de envolvimento romântico com seu chefe. Não faz sentido, mas ao mesmo tempo faz dentro do coletivo incompetente que é a cúpula da série na criação de histórias para suas coadjuvantes. Sério mesmo que a melhor ideia que tiveram para personagem foi criar um romance com o chefe? Que banho de água fria dentro de uma temporada que havia começado bem e ousada o suficiente para uma abordagem tão interessante e poderosa para Iris na Terra-2. Reduzir tudo para um namorico com o editor antiprofissional não representa algo bom, principalmente se forem utilizar esse “arco” para fazer com que Barry e Iris percebam, de novo, o que sentem um pelo outro.
É difícil comentar um episódio como Trajectory por que ele falha consideravelmente em várias instancias diferentes e ao mesmo tempo demonstra o avanço da trama principal para o ponto em que todos os personagens, não apenas os telespectadores, finalmente conhecem a identidade secreta do vilão. Porém, o alivio imediato pela revelação é destruído por uma motivação fraca para a vilã do episódio, além de uma construção que reforça as fraquezas da série ao lidar com seus personagens, especialmente as mulheres. The Flash ainda está com uma segunda temporada superior a primeira, mas já demonstra um abuso de padrões que não agregam e só depreciam o conjunto final da obra.
Easter eggs e outras informações
– Beyonce é uma senadora na Terra-2 e eu estou muito bem com essa informação.
– O relógio que detecta meta-humanos da Jesse ficou o tempo todo apitando enquanto o Wally estava próximo. Um pouco de sutileza não mata ninguém, roteiristas.
– A personagem Trajectory existe nos quadrinhos, mas não ganhou seus poderes através da Velocidade 9, mas sim pelas mãos de Lex Luthor em um experimento. Assim como na série ela morreu algum tempo depois por causa de sua transformação.
– Midway Bus Lines é uma menção a cidade Midway, lar do Gavião Negro e Mulher Gavião.
– Já está velho falar de ‘Opal City’, mas como é o lugar para onde Jesse está indo, vale mais uma menção. Opal já foi mencionada em Arrow, Supergirl e Legends of Tomorrow. Também é o lar do Homem Elástico nos quadrinhos e na série da Kara Zor-El é a cidade onde o filho de Cat Grant vive.
– Próxima semana será o crossover entre Supergirl e The Flash. O encontro será apenas na série da mulher de aço, por isso não procurem nenhuma alienígena voadora durante o décimo sétimo episódio do Corredor Escarlate.














