Até gorilas precisam de uma figura paterna.

The Flash sempre foi uma série com um forte apelo para figuras paternas. Barry teve o pai na infância, Joe enquanto crescia e Harrison Wells durante a vida adulta. Agora ele conta novamente com o pai (por um breve momento), Joe e uma nova versão daquele que ele imaginou ser seu maior entusiasta. Só que não só o mocinho, o vilão também precisa de alguém para se espelhar, assim como os nossos coadjuvantes. Então, a ideia de trazer o Grodd depois do encontro do Barry com o Zoom, foi boa, mesmo quebrando um pouco do ritmo frenético e ameaçador do episódio anterior. E olha que falar que o Grodd não é tão ameaçador assim é meio difícil, mas isso já é mérito do assustador Zoom.

Grodd surgiu como um easter egg, um chamativo para os fãs hardcore no episódio piloto. Só que a coragem dos roteiristas em mencionar um personagem tão icônico despertou o desejo dos telespectadores em ter uma versão “live action” do gorila mais marcante das histórias em quadrinhos. Só que existe um problema, o tal do orçamento. A CW não é uma rede com alcance gigante, como por exemplo a CBS, que despejou 14 milhões de dólares só para o piloto de Supergirl. Com a aparição do Rei Tubarão, e muitos meta-humanos para completar a cota da temporada, ter Grodd arriscou e muito o bom andar da carruagem. Por isso fica fácil entender seu posicionamento dentro da história, nem tanto dar um empurrão em um Barry traumatizado, mas para dar para um personagem caro, seu “final feliz”.

Não se enganem, ter a volta do Grodd ainda faz parte da realidade e seria muito interessante se a série decidisse, lá pela sua décima sétima temporada (se formos contar com os moldes da CW), usar seu retorno para uma espécie de filme de encerramento de The Flash. E o vilão tem um peso que suportaria sim ser o último antagonista. Mas isso é parte do meu sonho em ter um personagem como Grodd recebendo o destaque que ele merece, sem as restrições de gastar o dinheiro de um ano todo em um arco. O importante aqui é ressaltar o que o personagem representa para a série.

Como série, The Flash é responsável por trazer para a televisão a primeira adaptação de um personagem superpoderoso que é, em seu cerne, totalmente fiel as histórias em quadrinhos. Existe um traço de (re)imaginação, necessário para qualquer adaptação, mas também é muito fácil notar a transposição de um visual similar ao que está sendo feito na nona arte. O mérito fica para Geoff Johns, o cara que trouxe o Barry dos mortos para criar o melhor retorno do Corredor Escarlate para os quadrinhos. Mas além do Geoff, a preocupação em agradar os fãs é gigantesca, é só notar como a produção trabalha os easter eggs, que são muito mais do que apenas uma aceno para os fãs das antigas, é uma construção de possíveis caminhos. É fácil reconhecer o trabalho e elogiar o esforço em apresentar um verdadeiro presente, tanto para quem já conhecia o personagem e o acompanhava, quanto para quem está apenas gostando do “Flash da TV”.

Eu estou aproveitando e muito a trama da Terra 2, fico um pouco preocupado com o que farão no próximo ano, mas essa preocupação já existia na primeira temporada e foi silenciada pela estrutura que estamos vendo hoje. Parte do meu medo foi o mesmo que Caitlin teve, perder o Harry. Eu já elogiei o Tom Cavanagh na review passada, mas pretendo fazê-lo quantas vezes eu precisar. A maneira com que o ator consegue se diferenciar do Wells ‘Eobard’ é incrível. É o mesmo rosto, mas ao mesmo tempo é uma pessoa completamente diferente. Até eu entendo a raiva que o Harry sente toda vez que o mencionam como o “outro Harrison”. Ele é o único Wells que conhecemos até agora e a atuação do Cavanagh está sendo muito bem aproveitada. Logo, fica fácil tremer na base só de pensar em vê-lo indo embora.

Além do tema paternal, também conseguimos ter mais um pouco de conhecimento a respeito da mente do Barry. Nós conhecemos muito do cientista bobo e apaixonado, mas pouco do herói. Diferente de muitos outros, não existe uma separação muito grande entre quem é o Flash e quem é o Barry. Por isso, vê-lo debilitado e fragilizado coopera para que exista tal demarcação. E nada melhor do que utilizar o encontro com Zoom e sua derrota para pontuar exatamente o golpe mais forte que o vilão desferiu, que não foi na coluna, mas sim no orgulho. Flash nos quadrinhos sempre foi um cara muito seguro de si, assim como o que já estamos habituados a ver semanalmente, com um pouco mais de sutileza na série. A imagem de esperança e força são parte do seu poder. Existe uma ligação muito grande entre o fazer e o acreditar e o Barry trabalha com as duas instâncias. Assim como Jay, ele duvidou de si mesmo, mas diferente do Jay, que aparentemente não tinha ninguém (ele nunca menciona uma equipe), Barry tem três pais.

Gorilla Warfare é o tipo certo de filler, por entregar uma pausa necessária para o roteiro, que se prepara para o crossover com Arrow, além de impor mais da aura do vilão central. É necessário parar para respirar, mas diferente de outros episódios, como Fury of the Firestorm, tudo aqui fluiu com maior liberdade. Até mesmo o Cisco e a Kendra foram bem aproveitados, demonstrando que existem formas mais inteligentes de trabalhar a construção de Lendas do Amanhã, sem que tudo soe extremamente desconectado da trama, ou do que queremos ver. O lado paternal deverá continuar como o foco deste segundo ano, algo para deixar nossas teorias quanto a identidade do Zoom mais forte ainda. Com tanto trabalho em cima da palavra e figura “pai”, fica até meio difícil especular que o homem mascarado e mortal não seja Henry Allen. E é assim, sem perder o ritmo, mesmo quando ele desacelera, que The Flash constrói uma temporada melhor que a anterior.

Easter Eggs e outras informações

– Gorilla Warfare é o nome de dois arcos diferentes do Flash nos quadrinhos, um da década de 90, com participação do Lanterna Verde e outro mais recente (2012), nos novos 52.

– Na história mais recente de Gorilla Warfare, em The Flash v4 #13 (2012), Barry está desaparecido e com a ajuda de Patty Spivot, Darryl Frye (pai adotivo do Barry nos quadrinhos) sai em busca do filho. Porém, tudo fica mais complicado quando um exército de gorilas ataca a cidade, liderados pelo Rei Grodd.

– Uma das drogas roubadas pelo Grodd, CORTEXIN, existe no mundo real, mas também tem uma conexão própria nos quadrinhos. Na revista Kamandi, que representa o planeta séculos atrás, em uma dimensão paralela, o mutagênico Cortexin ao reagir com a radiação do ‘Grande Desastre’ cria uma nova raça de animais evoluídos e com intelecto humano. É tipo planeta dos macacos, só que com todo tipo de animal.

– Agora que a Kedra Saunders já teve seu destino revelado dentro da série, como Mulher-Gavião, já podemos conversar um pouco sobre. Existem duas versões da personagem, uma é Shiera Sanders, que todo fã de Liga da Justiça e Liga da Justiça: Sem Limites conhece, e a outra, Kendra Munoz Saunders, a de The Flash e que fez seu debut nos quadrinhos em 2011. Kendra pertence, na nona arte, à Terra 2 e já trabalhou ao lado do Flash e do Lanterna Verde, Alan Scott. Ela conseguiu suas asas através de uma exploração arqueológica. Shiera, por outro lado, surgiu em 1985, em Flash Comics #1 e tem uma história conectada a vidas passadas e sua história trágica de amor com Carter Hall, o Homem-Gavião. Pelo que entendi a série irá misturar um pouco de cada personagem.

– O próximo episódio de The Flash, que vai ao ar dia 1º de dezembro, intitulado Lendas de Hoje, será o evento crossover com Arrow. Especulo que este evento terá conexão com a misteriosa caixa que Damien Darhk mantém em seu “escritório”. Tudo indica que ela possa ser o Absorbascon. A caixa é um objeto de Thanagar, planeta de origem da Mulher e Homem-Gavião, com poder de permitir que seu usuário leia a mente de outras criaturas e que não tem efeito contra Thanagarianos. É por causa do Absorbascon que a Mulher-Gavião e o Homem-Gavião conseguem se comunicar com pássaros e interpretar os sons emitidos por essas criaturas. A conexão do objeto com Thanagar explica a presença do casal no crossover.

– Cidade Gorila, localizada na África, é habitada por gorilas inteligentes nos quadrinhos. Ela surgiu inicialmente como uma cidade alienígena, do planeta Calor. Lá existem duas forças opostas, Grodd e Solovar, ou o gorila vilão e o gorila mocinho. E eu queria muito esse spin-off milionário.

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